domingo, 6 de setembro de 2020

[As danações de Carina] O músico, o piano, a multidão e nada mais

Carina Bratt

Venho pela calçada daquela avenida movimentadíssima e, de repente, na frente de um restaurante, me deparo com um piano colocado à entrada principal desse estabelecimento famoso e bem conceituado aqui na cidade. 

Uma menina de mais ou menos oito anos toca, ou melhor finge tocar uma música qualquer que não distingo a autoria. As pessoas passam, cruzam, se esbarram e sequer olham para ela. Quando se retira, um morador de rua, aí pela casa dos quarenta, maltrapilho e magro, os pés descalços e olhar faminto, se senta estabanadamente na banqueta.


Ao fazê-lo, fica por alguns segundos olhando para o nada, como se pensasse o que deveria tocar. De repente, se dedica ao teclado do instrumento. E à medida que vai tocando, as pessoas que cruzam, tanto indo quanto vindo, se detém a ouvi-lo. Agora, não se determinam somente em passar. Param, de fato.

Estancam os passos, se embevecem, se empolgam, a ouvir as notas maviosas que vêm das mãos ágeis daquela pobre criatura que a executa. Em questão de minutos, o depauperado se vê cercado por uma multidão que se forma, para se inebriar com a música que ele dedilha.

De repente, o milagre.  Os expectadores aplaudem o pianista que parece, apesar de pobre e malcheiroso, conhecer o instrumento, tanto quanto as feições entristecidas que vincam seu rosto desgraçado, todavia, alguma coisa nele, vinda da alma não deixa transparecer o tamanho da sua dor interior. Pura aflição. 

E não só isto.  Igualmente os “passantes” se embasbacam com a melodia que ele tão bem executa, as mãos ligeiras, como se a sua frente, um maestro diante de uma partitura invisível, lhe fosse mostrando, com a batura, a sequência lógica de cada nota.

A música flui como um pássaro ligeiro levando em cada sonância de suas asas, a alegria contagiante que o mendigo deixa escapar de dentro de seu coração.  As pessoas, em derredor, agora em maior número, dão a impressão de presas ao chão. Umas fazem uso de seus aparelhos celulares e gravam eternizando o momento.

Outros simplesmente escutam e se deleitam. A menininha de antes, retorna e fica extasiada ao sabor inimitável da canção. Um grupo de senhoras faz pequenas vaquinhas, arrecadando moedinhas e trocados e deixando as contribuições ofertadas em cima do móvel que guarnece o piano.

Por conta da emoção, euzinha viajo. A música quando me toca, me faz viajar. Viajar para bem longe num distante que nem eu sei bem onde fica. E a melodia que o desconhecido executa, me afasta do cotidiano. Apesar da claridade do dia parecer se resplandecer em formas mágicas me sinto como se fosse abduzida. 

Em plano paralelo, um sol de quase meio dia apura os ouvidos do Criador para eternizar aquele momento único. Quando ele termina, as pessoas o aplaudem. Em coro uníssono, pedem bis, gritam para que não se retire, que permaneça e continue a tocar.

Não importa se o mendigo, se sequência repita a música, uma, duas, dez vezes. A galera quer seguir se deleitando com o som que ele tira daquele piano encantado. De dentro do restaurante lotado, clientes deixam seus lugares, abandonam seus pratos sobre a mesa e vêm para fora, para melhor poderem ouvir o que o pianista desasseado, as roupas esbodegadas, os pés no chão e a barba por fazer tocará na sequência. 

Os olhos baixos, a boca escancarada, os dentes esfomeados implorando silenciosos por um prato de comida, faz dele, um herói anônimo. Então, sem mais nem menos, ele para de tocar, se levanta devagar, solene, recolhe as migalhas que uns poucos gatos pingados deixaram sobre o piano, e sem olhar para trás, se afasta e some como poeira, entre a afluência de trocentas cabeças que vem e vão. 

Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, no Espírito Santo, 6-9-2020


Donald Gould, 51, é um mendigo que vive nas ruas de Sarasota, no estado da Flórida, Estados Unidos. Ele sabe tocar piano, e é isso o que ele faz no vídeo acima, mas de maneira surpreendente. Gould toca com habilidade e paixão.

Formado em música pela Spring Arbor University, o ex-oficial da marinha dos EUA tornou-se dependente químico após a morte de sua esposa em 1998. Ele toca piano desde criança.


Impossível não se emocionar com o vídeo.


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