sábado, 12 de setembro de 2020

Empatia 171

A revolução do proletariado, quem diria, virou o último suspiro da burguesia decadente. Note a excitação no clube dos ricos


Guilherme Fiuza

No Dia da Independência, Lula disse que está “à disposição” dos brasileiros para salvar o país do atual governo. Se todos os ladrões condenados fossem voluntariosos como Lula, o Brasil seria um lugar quase tão solidário quanto uma colônia penal. Não tem a menor importância o fato de que ninguém mais acredita no que Lula fala (nem ele). O problema está nos que fingem acreditar.

Para que serve Luiz Inácio da Silva hoje? Serve essencialmente como disfarce progressista (leia-se: reacionário) para uma elite egoísta. Olhe em volta e veja essa gente confortavelmente confinada em suas bolhas burguesas soltando frases empáticas pelo Zoom. Eles nem precisam que o governo caia. Basta que não caia (no ridículo) a lenda da resistência antifascista. É o suficiente para manter o verniz revolucionário dos seus espíritos de porco. E para continuarem faturando com isso, que ninguém é de ferro.

O Lula bibelô da burguesia é aquele criminoso que sai da cadeia direto para uma pelada no campo do Chico Buarque. É a apoteose de uma elite muito bem-educada que sempre quis ser imune à lei: uma fotografia é o bastante para lavar uma reputação. Lava a jato.

Sobre a devastação causada pela gangue do Lula você jamais será patrulhado

Que outros valores você precisa afirmar, além da devoção à MPB 171, para ganhar sua pulseirinha de homem sensível e mulher consciente? Não precisa muito mais que isso, vai. A verdade é que a vida ficou fácil — pelo menos em certos endereços concorridos. Com duas ou três frases convenientes que qualquer analfabeto consegue pronunciar você pode conquistar seu crachá de grande alma. É ou não é um final feliz?

É claro que para chegar a esse olimpo instantâneo você tem que dar um foda-se para milhões de pessoas desgraçadas pela rapinagem do Lula, mas também ninguém lembra direito disso — pelo menos não nos endereços que te interessam. Você está no meio de patrulheiros que andaram dedurando até quem subisse numa bicicleta, mas sobre a devastação causada pela gangue do Lula você jamais será patrulhado — não por essa gente culta que ficou linda de máscara.

Aliás, uma espécie de catarse coletiva foi propiciada pelo mesmo Lula ao declarar que “felizmente a natureza criou esse monstro chamado coronavírus”. É isso aí. Um líder precisa vocalizar o que está no coração dos seus seguidores. Já tínhamos ouvido uma ou outra formulação mais tímida nessa linha — aquele papo de que a pandemia seria depuradora etc. — mas foi preciso o brado retumbante do bom ladrão para a verdadeira redenção. Ao festejar a covid, Lula falou por todos os que estão há meses no armário excitadíssimos com o trancamento geral e a transformação da sociedade numa confraria vip. Deu até para ouvir, ao longe, o grito abafado dessa gente linda e enrustida: “Mito!”.

Observe as ONGs de laboratório, seus democratas de auditório e seus candidatos de proveta

Lula é o mito dos hipócritas de boa aparência, dos inocentes úteis e inúteis, dos intelectuais dedicados a coreografias de solidariedade para manter seu poderzinho particular e avarento.

A revolução do proletariado, quem diria, virou o último suspiro da burguesia decadente. Note a excitação no clube dos ricos, com suas ONGs de laboratório, seus democratas de auditório e seus candidatos de proveta, unindo de FHC a Alexandre Frota, de João Doria a Lula — o criminoso muito bem recebido de volta ao “campo democrático”, desfilando por aí seus mais de 20 anos de prisão congelados pelo STF. O problema é o fascismo — e basta mandar pintar umas suásticas em meia dúzia de muros que está feita a mágica.

Quem vai checar? O STF? Os senhores da verdade? O jornalismo de valas e panelas? Ou a delação premiada da OAB? É tanta referência que você até se confunde. Como diria a OMS: apaga a luz e aumenta o som que ninguém é de ninguém.

Título e Texto: Guilherme Fiuza, revista Oeste, 11-9-2020

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