sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A lógica dos sacripantas. Ou: Vamos enforcar Cunha e aplaudir Edinho Silva e Lula?

Reinaldo Azevedo
Ah, o que mais me encanta em setores da imprensa é a lógica dos sacripantas petistas disfarçados de puros e isentos. Eles querem a cabeça de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara. E olhem aqui: se confirmado que as tais contas na Suíça, que ele dizia não ter, são mesmo suas, eu também quero. E digo assim, com todas as letras. Cunha, um excelente presidente da Câmara, não é da minha turma. Eu não tenho turma.

Mas por que esses mesmos não pedem a cabeça de Edinho Silva, contra quem já há um inquérito aberto? Mensagens de WhatsApp trocados por Ricardo Pessoa com um diretor da UTC sugerem com muita clareza que as doações feitas pelo empreiteiro para a campanha de Dilma à reeleição saíram da conta-propina. Ora vejam vocês: então Eduardo Cunha, o peemedebista, no texto dos sacripantas, merece ser enforcado, mas Edinho continua no ministério — e, agora, atenção!, não apenas como um dos homens fortes da presidente, mas também de Lula?

Eis a lógica petralha na sua mais explícita e arreganhada pureza asquerosa. Cunha, então, mereceria o paredão porque, afinal de contas, se tem mesmo aquela dinheirama toda, ele a teria roubado dos cofres públicos em proveito próprio.

A ser verdade o que se diz de Edinho Silva, não foi para se beneficiar que ele teria extorquido Ricardo Pessoa, mas para financiar o partido. Eis o escarro que passa para a história como a moralidade petista: o roubar para si faz os ladrões; o roubar para o partido, os heróis.

Se Eduardo Cunha não conseguir evidenciar que as tais contas não são suas, acho que ele tem de deixar, sim, a presidência da Câmara — ou, então, de chamar, quando menos, de mentirosos o governo e o Ministério Público da Suíça. Como está, a coisa não pode continuar. Mas é impressionante que, na reforma ministerial de Dilma, feita para evitar o impeachment, Edinho continue como um dos homens fortes da República, agora amparado também por Luiz Inácio Lula da Silva.

E eis que Lula surge como o condestável da República e figura forte da reforma no dia em que vem a público a informação de que uma MP assinada por ele em 2009 foi objeto de uma frenética mobilização de lobbies, que acabou encontrando, por uma dessas vicissitudes do destino que sempre marcam o petismo, um de seus filhotes.

Ora bolas! Chega a ser meio nojento ler, na pena de alguns “coleguinhas” da imprensa, o regozijo com o fato de Lula ser a mão que balança do berço da reforma, como a dizer: “Ah, finalmente, o governo volta para as mãos de profissionais”.

Bem, eu não tenho dúvida de que Lula, de fato, é um profissional em certas artes nas quais Dilma ainda é amadora, se é que vocês me entendem.

Não! Cunha, um excelente presidente da Câmara, reitero, não é o meu guia moral. Se não conseguir explicar a história das contas, digo: tem de renunciar ao posto de comando na Casa — não estou me referindo ao mandato. Mas e Edinho Silva? Vai continuar lá, como se a delação de Ricardo Pessoa não existisse?

Então há vigaristas na imprensa que aplaudem a prisão de empreiteiros — inclusive a do próprio Pessoa, que já foi em cana —, mas acham legítimo que um dos alvos da delação permaneça como figura forte do governo?

Essa gente perdeu a vergonha de vez?

Não é para responder. A pergunta é meramente retórica.
Título e Texto: Reinaldo Azevedo, VEJA, 2-10-2015

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