quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Em Coimbra, cirurgia inédita no mundo pôs um doente a ver

Catarina Rocha

Às mãos de António Travassos chegam doentes de todo o mundo, à procura de um tratamento para os seus casos considerados sem solução. Cego dos dois olhos, Martinho Santos Martins foi um deles. Hoje sorri de felicidade. 

António Travassos no bloco operatório

Cinco horas e dezoito minutos foi o tempo que três médicos do Centro Cirúrgico de Coimbra levaram a fazer uma cirurgia inédita, a primeira em todo o mundo, que ao doente valeu a luz do dia. A troca de uma parte do olho foi feita como uma simples mudança peças de uma engrenagem que já não funciona… mas de um olho para o outro. Dois dias após a intervenção, o doente a quem tinha sido diagnosticada uma cegueira irreversível já conseguia contar os cinco dedos de uma mão à distância de um metro.

“Se a cegueira é curável, só há uma solução: é fazer tudo aquilo que podemos para curar o doente. Essa é a nossa missão”, diz António Travassos, cirurgião oftalmologista fundador do Centro Cirúrgico de Coimbra, que não pousou o bisturi quando, em Dezembro de 2014, Martinho Santos Martins ali entrou com uma cegueira bilateral. “Estava completamente deprimido quando chegou, e hoje só consegue sorrir. Mesmo com os olhos ainda tapados, o senhor só sorria.”

O doente de Bragança, com 69 anos, foi submetido, no final de Julho deste ano, a uma translocação (ou deslocação) do segmento anterior do olho, uma cirurgia nunca realizada com sucesso até hoje. António Travassos, o cirurgião principal, conseguiu o “enxerto perfeito”. Ou seja, recortou um círculo perfeito para poder transplantar toda a córnea (a parte da frente do olho que cobre a íris e a pupila) e ainda uma coroa circular de esclera (a região branca do olho) do olho esquerdo para o olho direito.

O resultado surpreendeu até o médico, que nunca deu certezas de cura ao doente. Depois da cirurgia, Martinho Santos Martins, que ao entrar no bloco operatório não controlava as lágrimas, percorria então os corredores do Centro Cirúrgico de Coimbra de forma autónoma, e com a visão recuperada no olho direito de 1/10 (do ponto de vista legal, a cegueira existe quando o melhor olho tem uma acuidade inferior a esse valor).

Apesar de todas as dificuldades ao longo do tempo, a esperança nunca abandonou o doente que desde cedo conviveu com a cegueira. O olho direito, se não o atraiçoam as memórias da infância, nunca tinha tido visão. A zona da córnea encontrava-se esbranquiçada (leucocórnea), o que impedia Martinho Santos Martins de ver desse olho. Mais tarde na vida, uma trombose no olho esquerdo roubou-lhe a única janela para o mundo.

Foi operado em França, onde esteve emigrado, e tentou ainda tratamentos em Espanha, mas nada trouxe a visão a Martinho Santos Martins. A cegueira era irreversível para os médicos que o observavam – com a excepção de António Travassos, a quem recorreu, já quase sem esperança, no final de 2014.

“Com o exame de visometria, concluímos que o olho direito do doente, embora estando cego, tinha uma acuidade de visão de 2/10, porque as estruturas da parte posterior estavam funcionais”, diz António Travassos. Este foi o motivo que levou o médico a avançar confiante para a cirurgia, mas sempre com a ameaça de ter de extrair o olho.

Houve uma primeira cirurgia em Coimbra, que consistiu em trocar a córnea do olho esquerdo – o olho que estava também cego pela trombose mas que tinha a córnea saudável – para o olho direito, com a córnea esbranquiçada desde a infância. E para o olho esquerdo transplantou-se a córnea de um dador. “Conseguimos resultados, do ponto de vista anatómico, para o olho esquerdo, e do ponto de vista funcional para o olho direito [que conseguiu agora recuperar a visão]”, diz António Travassos. “Nada fazia prever o que aconteceu depois”, diz ainda o médico.

Após esta primeira cirurgia, o inesperado por todos surgiu: o doente teve uma rejeição da sua própria córnea no olho direito. “Ninguém esperava que o melting da córnea acontecesse após a cirurgia. O doente tinha recuperado a visão e voltou a perdê-la.” O melting da córnea é uma reacção auto-imune rara, que consiste na inflamação da córnea, como se derretesse até à sua perfuração.

“Em vez de retirarmos o olho, resolvemos esperar que tudo estabilizasse, para encontrar uma solução.” E foi isto que a equipa de médicos fez. Após algum tempo, surgiu então a hipótese de uma nova cirurgia devolver a visão a Martinho Santos Martins.

A técnica nunca tinha sido realizada em parte nenhuma do mundo, mas António Travassos, famoso por resolver situações aparentemente sem solução, avançou para a sala de operações. “Nunca pude dar esperanças ao doente. Mesmo antes de entrar em cirurgia tive de lhe dizer que havia a hipótese de ter de se eviscerar o olho. Entrou no bloco sem controlar as lágrimas.”

A segunda cirurgia, na qual participaram ainda os oftalmologistas José Galveia e Sofia Travassos, filha de António Travassos, teve os seguintes passos: transportou-se toda a córnea (que o doente já tinha recebido de um dador) e a coroa circular de esclera do olho esquerdo para o olho direito, aquele que tinha tido a reacção auto-imune. Por isso se designa translocação. Quanto à córnea que foi rejeitada, voltou para o olho esquerdo, aquele que se mantém cego. 
Título, Imagem e Texto: Catarina Rocha, Público, 4-9-2015

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