quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Apenas um dia normal em Hollywood


Harvey Weinstein [foto] é um monstro. Mas o que dizer de toda a indústria que protegeu seu comportamento criminoso por décadas? Como ouvir agora um sermão dos sinalizadores de virtudes progressistas de Hollywood, estes semideuses que apontam o dedo para nós com superioridade e desdém, sem sentir náuseas?

Foto: David Shankbone
Os discursos da geração mais afetada e autoindulgente da história do cinema só enganava trouxas ou desavisados, mas não há mais qualquer desculpa para quem quiser levar essa gente a sério. Depois de tantos anos agindo sem ser denunciado, constrangido ou combatido, é claro que Harvey Weinstein contava com a cumplicidade hipócrita de grande parte dos atores e atrizes da cidade.

Se as revelações sobre a conduta de um dos maiores produtores de Hollywood dos últimos anos são revoltantes, muito mais absurda é a sugestão, repetida por alguns papagaios de pirata da imprensa, de que as atrizes eram alvos frágeis e desprotegidas. Alguém sinceramente acredita que as mais poderosas, influentes, populares e abastadas atrizes do mundo não têm meios de sobra para resistir a um assédio sexual no trabalho e denunciar o criminoso? Ah, façam-me o favor.

Uma das ativistas mais radicais (e insuportáveis) desta esquerda hollywoodiana é Ashley Judd, mais uma da lista das assediadas por Harvey Weinstein. Segundo ela própria, Weinstein assediou a atriz pela primeira vez há 20 anos e em tempos tão recentes quanto 2015. Como ela ousa falar em nome do feminismo e das mulheres desfilando na “Marcha das Mulheres”, uma passeata extremista patrocinada em parte por seu próprio assediador? Que tipo de mente doentia vai para as ruas gritar contra a “cultura do estupro” sem denunciar seu próprio predador, deixando que fique livre para assediar outras mulheres com muito menos fama e fortuna que ela?

O que dizer das declarações de Woody Allen, ele mesmo envolvido com a denúncia de assédio da própria enteada Dylan Farrow quando a menina tinha 7 anos? É o tipo de história que faz a perda da virgindade de Paula Lavigne aos 13 anos na festa de 40 de Caetano Veloso parecer normal. Allen, que é casado com uma filha adotiva, disse que estava com medo de que o caso Weinstein gerasse “uma atmosfera de caça às bruxas em Hollywood” e que “daqui a pouco, todos os caras que piscarem para uma mulher terão que contratar um advogado”. Quando Allen sofreu as denúncias de pedofilia foi Weinstein quem mais apoiou e ajudou o amigo. Almas gêmeas?

Um dos jornalistas mais atuantes no caso Weinstein é ninguém menos que Ronan Farrow, filho biológico de Woody Allen com a atriz Mia Farrow. Muitos acreditam que a obsessão de Ronan com o caso seria um “acerto de contas” já que ele é meio-irmão de Dylan Farrow. Tudo fica ainda mais curioso quando se sabe que Ronan é a cara de Frank Sinatra, com quem Mia Farrow teve um caso, e muitos acreditam que na verdade o jornalista seja filho do cantor e não de Allen. Pedofilia, assédio, traição e crimes sexuais encobertos? Apenas um dia normal em Hollywood.

Angelina Jolie, outra das alegadas vítimas de Weinstein, acumulou uma fortuna estimada em meio bilhão de dólares com o ex-marido Brad Pitt e é um dos rostos mais conhecidos do mundo, embaixadora da boa vontade da ONU e reverenciada por seu trabalho humanitário exatamente contra violência sexual. Como alguém como ela tem a pachorra de receber prêmios como o título de Dama da Rainha da Inglaterra sabendo que um predador sexual está naquele mesmo momento assediando jovens atrizes em Hollywood e é incapaz de abrir a boca? Nada, absolutamente nada, justifica.

Jane Fonda, decana das militantes de causas antiamericanas e da esquerda mais radical, disse que está “envergonhada” de não ter denunciado Weinstein antes. Um pouco tarde, não? Vão dizer que Jane Fonda se sentiu intimidada? Além de ser quem é, Fonda é ex-mulher de Ted Turner, o magnata sócio de um império de comunicação que controla canais como CNN, TCM, TNT, Cartoon Network, além de ser o maior proprietário de terras dos EUA. Será que ela pode mesmo dizer que se sentiu intimidada? Ou Mira Sorvino, Rosanna Arquette e Gwyneth Paltrow?

O que dizer então de Roman Polanski que em 1977 foi preso e condenado por estuprar uma menina de 13 anos e ainda fugiu para a França para não ir para a cadeia? Pior, o que dizer também da turma engajada e protetora dos direitos das mulheres que aplaudiu de pé uma imagem de Polanski num telão quando ganhou a estatueta de melhor diretor em 2003?

É comum aqui em Los Angeles ouvir de amigos da indústria do cinema sobre o lado sombrio de muitas destas estrelas. Seus estilos de vida raramente batem com o que pregam com a voz embargada ao receberem uma estatueta. Nos discursos, muitos deles recheados de agradecimentos a Weinstein, pérolas hipócritas sobre como fazer o planeta um lugar melhor para as mulheres.

Bill e Hillary Clinton também eram amigos próximos do estuprador de Hollywood. Além do Partido Democrata, a fundação da família recebeu gordas doações do produtor (ou predador, como queiram). Hillary evidentemente disse que “não sabia de nada” (cada país com a sua alma honesta) e, não satisfeita, afirmou que não devolverá o dinheiro doado por ele. Como sempre, são na vida real o que acusam seus adversários sem provas. Os progressistas só mudam de endereço.

Espero que estes mimados hipócritas, de uma vez por todas, entendam o ridículo de dar lições de moral para nós, pobres mortais. Não é possível que ainda tentem construir a narrativa de que algumas das mulheres mais bem-sucedidas de todos os tempos são vítimas do patriarcado ou qualquer cafonice deste marxismo de botequim.

Pagamos os salários pornográficos da indústria do entretenimento para que nos divirtam nas telas, não para fornecimento de modelos cenográficos de conduta, aqui nos Estados Unidos ou Brasil. Temos mais de 342 razões para isso. 
Título e Texto: Ana Paula Henkel, O Estado de S. Paulo, 18-10-2017

3 comentários:

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