quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Cármen Lúcia e a Amazônia

Desde quando o Exército Brasileiro tem de pedir licença à ministra, ou a quem quer que seja, para ir a algum lugar do território nacional?

J. R. Guzzo

Os atuais ministros do STF estão numa disputa cada vez mais agitada para ver quem, entre os onze, consegue fazer os piores papéis. Há, é claro, os grandes craques, gente da qualidade de um Gilmar Mendes ou Antonio Toffoli, Edson Fachin ou Luís Roberto Barroso — especialmente esse Barroso, que se esforça todos os dias para ser nomeado guardião supremo da virtude no Brasil e, possivelmente, no resto do mundo. Mas sempre há um lugarzinho para a turma da segunda divisão tentar alguma coisa. É o caso da ministra Cármen Lucia, que andava entregue à pequenez habitual de sua presença na mídia, hoje mais excitada com colegas que falam de “genocídio”, de “dictatorship” etc. É a velha história. Se ninguém está prestando atenção em você, tenha um ataque de nervos; sempre haverá quem pare um pouco para olhar.

A ministra do STF, Cármen Lúcia, durante o 7º Fórum Liberdade de Imprensa & Democracia. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil
O último chilique da ministra foi dar “cinco dias” para o Exército explicar a sua “presença” na Amazônia. Como assim? Desde quando o Exército Brasileiro tem de pedir licença à ministra Cármen, ou a quem quer que seja, para ir a algum lugar do território nacional? Tanto quanto se saiba, as Forças Armadas têm o direito de estar presentes em cada palmo dos 8,5 milhões de metros quadrados deste país. Não podem ir para o Paraguai ou para a Bélgica, mas aqui dentro podem, sim. Ou melhor, têm a obrigação legal de estar presentes — não podem dizer que a esse ou àquele lugar “a gente não vai”. Por que a ministra Cármen não pergunta, então, o que o Exército está fazendo no Paraná? Ou em Pernambuco? Perderam a noção.

A maior parte das fronteiras do Brasil com os seus vizinhos fica na Amazônia. Uma das principais funções de um exército, em qualquer lugar do planeta, é vigiar as fronteiras nacionais; se não fizer isso, quem vai fazer em seu lugar? Uma ONG? A PM de Alagoas? Os “capinhas” do STF? O Exército não precisa preencher um formulário em quatro vias para explicar por que mandou o pelotão X ou Y se deslocar do ponto A ao ponto B dentro do território brasileiro. Só num lugar como o atual STF, em seu show diário para convencer a si próprio que manda no “governo militar, antidemocrático e fascista” que está aí, daria para encontrar quem acha o contrário.

É, para resumir a ópera, mais uma comprovação da crescente incapacidade do STF em funcionar como uma corte de Justiça de país decente. Para piorar o que já é ruim, o despacho da ministra Cármen foi feito para satisfazer — acredite se quiser — um pedido do Partido Verde, que conta com quatro deputados (4) entre os 513 que formam a Câmara. Pode isso, Arnaldo? Sobra, melancolicamente acima de tudo, a clara sensação de mais uma palhaçada top de linha. Por acaso o Exército Brasileiro vai abandonar a Amazônia para atender ao Partido Verde, ou à doutora Cármen? Não vai. Então chega.

Título e Texto: J. R. Guzzo (publicado no jornal Gazeta do Povo, em 7 de setembro de 2020), via revista Oeste, 8-9-2020, 16h30

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