sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Abaixo o mau turismo!


“Cintra’s Glorious Eden”

Lord Byron, 1809. Um dos primeiros turistas que visitou Portugal1

João José Brandão Ferreira

A questão do turismo tomou, ultimamente, foros de histerismo em Portugal.

Parece que o nosso presente, futuro, a nossa existência, depende do turismo, sobretudo dos turistas estrangeiros que nos visitam!

Não direi que a questão do turismo não seja importante, mas parece-me que a sua organização e gestão, tem sido errática, sem embargo do aumento da oferta e da qualidade também verificada nos últimos tempos.

Impõe-se para melhor situar a questão, uma brevíssima resenha histórica do turismo em Portugal.

O Turismo como o conhecemos hoje tem origem na Grã-Bretanha no último quartel do século XVIII, através do termalismo e dos banhos de praia (mais tarde também o turismo de montanha por causa da tuberculose), por parte da nobreza inglesa. Tal movimento expandiu-se por todo o século XIX, sobretudo na Europa através da vinda de ingleses para o sul de França e da nobreza Austro-Húngara e Italiana para a costa do norte mediterrânico. O navegador inglês Thomas Cook é considerado o pai do turismo moderno, já que foi o primeiro, em 1841, a realizar a primeira viagem organizada da História. Dez anos mais tarde abriu a primeira agência de viagens, a “Thomas Cook and Son”.

Porém, o grande “boom” turístico internacional apenas ocorre a seguir à Segunda Guerra Mundial.

É também devido aos ingleses que se dá o impulso inicial ao turismo nacional, sobretudo no Funchal, no Estoril e na Praia da Rocha.

É comummente aceite a divisão do turismo em Portugal em quatro fases: uma fase de “infância”, entre 1900 e 1950; a “adolescência”, entre 1950 e 1963; a da “maioridade” entre este ano e 1973 e fase da “maturidade”, de 1973 em diante.

Podemos considerar como principais marcos:

• 1906, com a criação da Sociedade de Propaganda de Portugal (SPP), para promover o turismo interno baseado nas estâncias termais e o turismo internacional na Madeira e Lisboa;

• 1911, com a criação da “Repartição de Turismo”, a primeira organização oficial de turismo no país.

• Em 1920, a SPP abriu 143 representações no país destinados a fazer o inventário do potencial existente, aproveitar o Estoril e fazer a primeira rede de pousadas;

• Em 1928, integra-se o Jogo no âmbito do Turismo;

• No início dos anos 30, registam-se 51 mil entradas de turistas (em Itália, registam-se cinco milhões); é criada a Comissão de Propaganda do Turismo de Portugal no estrangeiro, com “casa de Portugal” em Paris, Londres e Antuérpia;

• 1936-1945, a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial, limitaram extraordinariamente o turismo;

• 1950-1963, o arranque do turismo é lento, não só devido a outras prioridades como à falta de infraestruturas existentes;

• Em 1956 é criado o “Fundo de Turismo”, destinado a financiar a atividade. A Lei 2082, “Lei de Bases do Turismo” vai passar a enquadrar tudo o que se faz neste âmbito. São criadas zonas de turismo nos diferentes concelhos com praias, termas e monumentos;

• Em 1950 registam-se 76 mil entradas que sobem para 514 mil, em 1963;

• De 1964 até 1973, dá-se início ao grande desenvolvimento do turismo, muito facilitado pela recuperação económica dos países afetados pela última grande guerra; aumento do número de automóveis; generalização das férias pagas e aumento do tráfego aéreo;

• Em 1964 regista-se a ultrapassagem do milhão de visitantes, que se destinam sobretudo ao Algarve, Madeira e Tróia. Este aumento é prejudicado pela má preparação e desequilíbrio em infraestruturas. Por exemplo, só o distrito de Lisboa possuía cerca de 30% de capacidade hoteleira e o Algarve e a Madeira, respectivamente, 5 e 3,3%. O mercado estava concentrado em Inglaterra, França e EUA. É a época em que se constroem os aeroportos do Funchal e Faro e se funda a Direção – Geral do Turismo, bem como o Centro de Formação Turística e Hoteleira. A atividade turística passa a ser parte dos Planos de Fomento. Mesmo assim, regista-se a falta de um plano estratégico global e falta de infraestruturas. Registam-se “agressões” ambientais e ao património natural e não se consegue evitar alguns erros já cometidos em Espanha;

• Em 1973 as entradas eram já superiores a quatro milhões, sobretudo de alemães, espanhóis, franceses, ingleses e norte americanos. Existe já uma oferta de 86 mil camas, quando em 1964 eram de 59 mil e iniciam-se novas formas de alojamento e de exploração turística. Mas tudo continua muito concentrado no sul do território e orientado para o sol, mar e as praias de areia fina. Todo o interior está abandonado;

• A partir de 1973/4 ocorrem vários problemas internacionais, como a crise do petróleo, que resulta numa baixa na economia com desemprego, inflação e desequilíbrios vários. Em Portugal, o caos provocado pela “revolução dos cravos” e a descolonização criaram insegurança, e o retorno de 800 mil portugueses ao território europeu (e que ocupam grande parte dos hotéis). Os reflexos no turismo foram imediatos com as receitas a caírem de 13,5 milhões de contos em 1973, para 9,2 milhões nesse ano. Foi criada a Secretaria de Estado do Turismo e nacionalizadas muitas empresas e logo depois privatizadas. Tal provocou uma estagnação na oferta hoteleira;

• Em 1979 com a recuperação em curso já se registaram 46 milhões de contos em receitas e em 10 anos o número de turistas triplicou.

• Entre 1980 e 1993 Portugal registou a nível europeu a mais elevada taxa de crescimento, o que resultou, à boa maneira portuguesa, numa euforia idiota e o estabelecimento de um espírito de lucro fácil e de ganância. O que deu origem a um excesso de oferta, inadequação de infraestruturas, desordenamento no aproveitamento dos espaços e continuação de demasiada concentração de turistas espanhóis, ingleses e alemães. Resultou em crise e na percepção de vulnerabilidades. O Algarve garantia agora 45% da oferta turística, o que junto com a costa de Lisboa, chegava aos 70% de todas as dormidas de estrangeiros. Sol e mar continuavam a ser a aposta principal;

• Em 2007 é finalmente estabelecido um Plano Estratégico Nacional do Turismo que aponta na diversificação dos mercados, dos produtos e das motivações, tendo em conta os gostos dos clientes. Aposta-se ainda no crescimento sustentado, que é de facto uma (ou, a) palavra-chave em todo este negócio.

• Mas eis que uma conjuntura internacional favorável e um artigo no New York Times, creio que em 2012, elegendo o Porto como o melhor destino turístico europeu, e vários prémios e galardões ganhos nos anos seguintes, fez disparar a procura turística em Portugal, a que o extraordinário aumento dos cruzeiros marítimos (para o que se construíram duas infraestruturas portuária modernas, em Lisboa e Leixões) muito ajudaram a complementar. O reverso da medalha foi a explosão algo anárquica dos “Tuk – Tuk”; da oferta de alojamento a todo o custo; da quase expulsão da população local dos bairros antigos de Lisboa e Porto; do aumento exponencial de pequenas empresas/lojas de restauração, bares, discotecas, “souvenir”, etc. Importaram-se “paletes” de imigrantes, inflacionou-se os preços de muitos produtos; aumentaram-se o número de chegadas por via aérea, superiores ao que se conseguia gerir adequadamente e tornou-se a vida nos locais de maior afluência turística, um inferno. As viagens de finalistas dos liceus passaram a ser excursões da desbunda! 

***** 

Veio a crise do “Covid19” e de um dia para o outro ficou tudo às moscas.

Passados uns meses em que os governos começaram a deixar os cidadãos passarem a fazer a sua vida normal e apertados pela crise económica, os principais países receptores e expedidores de turistas, nomeadamente na Europa, andam numa histeria comunitária para ver quem ganha e quem perde no caos estabelecido, agravado com as incertezas das quarentenas e dos vai e vem das decisões, pois ninguém sabia ao certo como lidar com o vírus.

Assistem-se a cenas patéticas no nosso país para angariarem turistas sobretudo ingleses, que na sua maioria vêm para cá para se embebedarem e drogarem, quando não armam desacatos como tem sido recorrente no Algarve. Desacatos, que o politicamente correto impede de serem reprimidos como devem ser, de modo a não ficar vontadinha nenhuma em os repetir.

É indubitável que Portugal tem condições (belezas naturais, bom clima, hospitalidade, segurança – até ver – património, oferta cultural, gastronomia, preços etc.) para ser um destino turístico de sucesso, que deve apostar na qualidade e não na quantidade e que tal possa constituir um fator económico relevante – embora nunca ninguém apresente as contas da exportação de divisas do turismo que os portugueses fazem no estrangeiro, acarreta.

E a atividade turística deve ainda ser feita de modo a não perturbar a vivência social da nação dos portugueses.

Agora o que não se deve de todo fazer é tentar que a importância do turismo seja tão superlativa que nos possa causar dependência e riscos que possam constituir ameaças. Assim a modos como colocar demasiados ovos no mesmo cesto…

Ora neste campo as coisas já estão desequilibradas (o Turismo já representa, ou representava cerca de 20% do PIB), o que fez disparar as campainhas de alarme aquando da pandemia.

É que fazer uma grande aposta num sector de atividade que está dependente de um conjunto alargado de fatores sobre os quais o Estado Português não tem qualquer controlo, revela uma falta de senso muito grande e uma péssima opção estratégica.

De facto nós (o governo português) não controlamos as epidemias (nossas ou dos outros); as crises ou guerras que nos possam afetar; surtos de terrorismo; catástrofes naturais; variações económicas e sociais nos países fornecedores de turistas e até as ações de outros estados nossos concorrentes na sua ânsia de captar turistas.

Além do que se não se fizer os necessários investimentos e apostas, o turismo tenderá a ser uma atividade sazonal com todos os problemas que tal acarreta.

Como em tudo existem vantagens, inconvenientes e consequências. Tem de ser tudo bem pensado. No lado positivo, descortinam-se a criação de emprego e riqueza o que se reflete no PIB; a possibilidade de passar uma imagem positiva do país e das suas gentes, o que pode atrair inclusive, investimentos etc. Tudo carece de investimento.

Mas também pode desenvolver alguns lados sombrios que devem ser minorados e evitados: inflação de preços; descaracterização e, ou, demasiada ocupação de espaços; urbanização caótica; disrupção na vida normal do cidadão; especulação imobiliária; eventual alteração da matriz cultural e identitária nacional; eventual aumento da criminalidade (pequenos roubos, contrabando, droga, lavagem de dinheiro); aumento do lixo e da poluição; pressão negativa sobre ecossistemas; abandono de infraestruturas por deixarem de ser necessárias; subserviência perante os estrangeiros e mau tratamento a nacionais, etc.

E nunca se deve deixar vir mais turistas do que aqueles que se consegue tratar harmoniosamente. Nem que se tenha que recorrer a “números clausus”. Que foi aquilo que voltou a acontecer quando aquela epidemia mal contada, se foi embora ou se diluiu no éter. Já há turistas a mais e tal nem sequer pode servir de desculpa para se fazer um novo aeroporto (de que aliás tenho as maiores dúvidas na sua necessidade).

As ideias chave devem ser as de diversidade, sustentabilidade, equilíbrio, qualidade e ocupação harmoniosa de todas as estações do ano e da totalidade do território. E não a sofreguidão em ganhar dinheiro.

O turismo também “cansa” e degrada-se facilmente. Há que andar à frente dos acontecimentos.

Só assim Lord Byron – que nos visitou numa péssima altura para o turismo – se cá voltasse encontraria não uma Cintra, mas muitas mais.

E não nos chamava nomes feios.

1 Mas também escreveu, “terra sanguinária onde a lei não basta para proteger a vida”. 

Título, Imagem e Texto: João José Brandão Ferreira, ContraCultura, 6-11-2026

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-