“Cintra’s Glorious Eden”
Lord Byron, 1809. Um
dos primeiros turistas que visitou Portugal1
João José Brandão Ferreira
A questão do turismo tomou,
ultimamente, foros de histerismo em Portugal.
Parece que o nosso presente,
futuro, a nossa existência, depende do turismo, sobretudo dos turistas
estrangeiros que nos visitam!
Não direi que a questão do
turismo não seja importante, mas parece-me que a sua organização e gestão, tem
sido errática, sem embargo do aumento da oferta e da qualidade também
verificada nos últimos tempos.
Impõe-se para melhor situar a
questão, uma brevíssima resenha histórica do turismo em Portugal.
O Turismo como o conhecemos
hoje tem origem na Grã-Bretanha no último quartel do século XVIII, através do
termalismo e dos banhos de praia (mais tarde também o turismo de montanha por
causa da tuberculose), por parte da nobreza inglesa. Tal movimento expandiu-se
por todo o século XIX, sobretudo na Europa através da vinda de ingleses para o
sul de França e da nobreza Austro-Húngara e Italiana para a costa do norte
mediterrânico. O navegador inglês Thomas Cook é considerado o pai do turismo
moderno, já que foi o primeiro, em 1841, a realizar a primeira viagem
organizada da História. Dez anos mais tarde abriu a primeira agência de
viagens, a “Thomas Cook and Son”.
Porém, o grande “boom”
turístico internacional apenas ocorre a seguir à Segunda Guerra Mundial.
É também devido aos ingleses
que se dá o impulso inicial ao turismo nacional, sobretudo no Funchal, no
Estoril e na Praia da Rocha.
É comummente aceite a divisão
do turismo em Portugal em quatro fases: uma fase de “infância”, entre 1900 e
1950; a “adolescência”, entre 1950 e 1963; a da “maioridade” entre este ano e
1973 e fase da “maturidade”, de 1973 em diante.
Podemos considerar como principais marcos:
• 1906, com a criação da
Sociedade de Propaganda de Portugal (SPP), para promover o turismo interno
baseado nas estâncias termais e o turismo internacional na Madeira e Lisboa;
• 1911, com a criação da
“Repartição de Turismo”, a primeira organização oficial de turismo no país.
• Em 1920, a SPP abriu 143
representações no país destinados a fazer o inventário do potencial existente,
aproveitar o Estoril e fazer a primeira rede de pousadas;
• Em 1928, integra-se o Jogo
no âmbito do Turismo;
• No início dos anos 30,
registam-se 51 mil entradas de turistas (em Itália, registam-se cinco milhões);
é criada a Comissão de Propaganda do Turismo de Portugal no estrangeiro, com
“casa de Portugal” em Paris, Londres e Antuérpia;
• 1936-1945, a Guerra Civil de
Espanha e a II Guerra Mundial, limitaram extraordinariamente o turismo;
• 1950-1963, o arranque do
turismo é lento, não só devido a outras prioridades como à falta de infraestruturas
existentes;
• Em 1956 é criado o “Fundo de
Turismo”, destinado a financiar a atividade. A Lei 2082, “Lei de Bases do
Turismo” vai passar a enquadrar tudo o que se faz neste âmbito. São criadas
zonas de turismo nos diferentes concelhos com praias, termas e monumentos;
• Em 1950 registam-se 76 mil
entradas que sobem para 514 mil, em 1963;
• De 1964 até 1973, dá-se
início ao grande desenvolvimento do turismo, muito facilitado pela recuperação
económica dos países afetados pela última grande guerra; aumento do número de
automóveis; generalização das férias pagas e aumento do tráfego aéreo;
• Em 1964 regista-se a
ultrapassagem do milhão de visitantes, que se destinam sobretudo ao Algarve,
Madeira e Tróia. Este aumento é prejudicado pela má preparação e desequilíbrio
em infraestruturas. Por exemplo, só o distrito de Lisboa possuía cerca de 30%
de capacidade hoteleira e o Algarve e a Madeira, respectivamente, 5 e 3,3%. O
mercado estava concentrado em Inglaterra, França e EUA. É a época em que se
constroem os aeroportos do Funchal e Faro e se funda a Direção – Geral do
Turismo, bem como o Centro de Formação Turística e Hoteleira. A atividade
turística passa a ser parte dos Planos de Fomento. Mesmo assim, regista-se a
falta de um plano estratégico global e falta de infraestruturas. Registam-se
“agressões” ambientais e ao património natural e não se consegue evitar alguns
erros já cometidos em Espanha;
• Em 1973 as entradas eram já
superiores a quatro milhões, sobretudo de alemães, espanhóis, franceses,
ingleses e norte americanos. Existe já uma oferta de 86 mil camas, quando em
1964 eram de 59 mil e iniciam-se novas formas de alojamento e de exploração
turística. Mas tudo continua muito concentrado no sul do território e orientado
para o sol, mar e as praias de areia fina. Todo o interior está abandonado;
• A partir de 1973/4 ocorrem
vários problemas internacionais, como a crise do petróleo, que resulta numa
baixa na economia com desemprego, inflação e desequilíbrios vários. Em
Portugal, o caos provocado pela “revolução dos cravos” e a descolonização criaram
insegurança, e o retorno de 800 mil portugueses ao território europeu (e que
ocupam grande parte dos hotéis). Os reflexos no turismo foram imediatos com as
receitas a caírem de 13,5 milhões de contos em 1973, para 9,2 milhões nesse
ano. Foi criada a Secretaria de Estado do Turismo e nacionalizadas muitas
empresas e logo depois privatizadas. Tal provocou uma estagnação na oferta
hoteleira;
• Em 1979 com a recuperação em
curso já se registaram 46 milhões de contos em receitas e em 10 anos o número
de turistas triplicou.
• Entre 1980 e 1993 Portugal
registou a nível europeu a mais elevada taxa de crescimento, o que resultou, à
boa maneira portuguesa, numa euforia idiota e o estabelecimento de um espírito
de lucro fácil e de ganância. O que deu origem a um excesso de oferta,
inadequação de infraestruturas, desordenamento no aproveitamento dos espaços e
continuação de demasiada concentração de turistas espanhóis, ingleses e
alemães. Resultou em crise e na percepção de vulnerabilidades. O Algarve
garantia agora 45% da oferta turística, o que junto com a costa de Lisboa,
chegava aos 70% de todas as dormidas de estrangeiros. Sol e mar continuavam a
ser a aposta principal;
• Em 2007 é finalmente
estabelecido um Plano Estratégico Nacional do Turismo que aponta na
diversificação dos mercados, dos produtos e das motivações, tendo em conta os
gostos dos clientes. Aposta-se ainda no crescimento sustentado, que é de facto
uma (ou, a) palavra-chave em todo este negócio.
• Mas eis que uma conjuntura internacional favorável e um artigo no New York Times, creio que em 2012, elegendo o Porto como o melhor destino turístico europeu, e vários prémios e galardões ganhos nos anos seguintes, fez disparar a procura turística em Portugal, a que o extraordinário aumento dos cruzeiros marítimos (para o que se construíram duas infraestruturas portuária modernas, em Lisboa e Leixões) muito ajudaram a complementar. O reverso da medalha foi a explosão algo anárquica dos “Tuk – Tuk”; da oferta de alojamento a todo o custo; da quase expulsão da população local dos bairros antigos de Lisboa e Porto; do aumento exponencial de pequenas empresas/lojas de restauração, bares, discotecas, “souvenir”, etc. Importaram-se “paletes” de imigrantes, inflacionou-se os preços de muitos produtos; aumentaram-se o número de chegadas por via aérea, superiores ao que se conseguia gerir adequadamente e tornou-se a vida nos locais de maior afluência turística, um inferno. As viagens de finalistas dos liceus passaram a ser excursões da desbunda!
*****
Veio a crise do “Covid19” e de
um dia para o outro ficou tudo às moscas.
Passados uns meses em que os
governos começaram a deixar os cidadãos passarem a fazer a sua vida normal e
apertados pela crise económica, os principais países receptores e expedidores
de turistas, nomeadamente na Europa, andam numa histeria comunitária para ver
quem ganha e quem perde no caos estabelecido, agravado com as incertezas das
quarentenas e dos vai e vem das decisões, pois ninguém sabia ao certo como
lidar com o vírus.
Assistem-se a cenas patéticas
no nosso país para angariarem turistas sobretudo ingleses, que na sua maioria
vêm para cá para se embebedarem e drogarem, quando não armam desacatos como tem
sido recorrente no Algarve. Desacatos, que o politicamente correto impede de
serem reprimidos como devem ser, de modo a não ficar vontadinha nenhuma em os
repetir.
É indubitável que Portugal tem
condições (belezas naturais, bom clima, hospitalidade, segurança – até ver –
património, oferta cultural, gastronomia, preços etc.) para ser um destino
turístico de sucesso, que deve apostar na qualidade e não na quantidade e que
tal possa constituir um fator económico relevante – embora nunca ninguém
apresente as contas da exportação de divisas do turismo que os portugueses
fazem no estrangeiro, acarreta.
E a atividade turística deve
ainda ser feita de modo a não perturbar a vivência social da nação dos
portugueses.
Agora o que não se deve de
todo fazer é tentar que a importância do turismo seja tão superlativa que nos
possa causar dependência e riscos que possam constituir ameaças. Assim a modos
como colocar demasiados ovos no mesmo cesto…
Ora neste campo as coisas já
estão desequilibradas (o Turismo já representa, ou representava cerca de 20% do
PIB), o que fez disparar as campainhas de alarme aquando da pandemia.
É que fazer uma grande aposta
num sector de atividade que está dependente de um conjunto alargado de fatores
sobre os quais o Estado Português não tem qualquer controlo, revela uma falta
de senso muito grande e uma péssima opção estratégica.
De facto nós (o governo
português) não controlamos as epidemias (nossas ou dos outros); as crises ou
guerras que nos possam afetar; surtos de terrorismo; catástrofes naturais;
variações económicas e sociais nos países fornecedores de turistas e até as ações
de outros estados nossos concorrentes na sua ânsia de captar turistas.
Além do que se não se fizer os
necessários investimentos e apostas, o turismo tenderá a ser uma atividade
sazonal com todos os problemas que tal acarreta.
Como em tudo existem
vantagens, inconvenientes e consequências. Tem de ser tudo bem pensado. No lado
positivo, descortinam-se a criação de emprego e riqueza o que se reflete no
PIB; a possibilidade de passar uma imagem positiva do país e das suas gentes, o
que pode atrair inclusive, investimentos etc. Tudo carece de investimento.
Mas também pode desenvolver
alguns lados sombrios que devem ser minorados e evitados: inflação de preços;
descaracterização e, ou, demasiada ocupação de espaços; urbanização caótica;
disrupção na vida normal do cidadão; especulação imobiliária; eventual alteração
da matriz cultural e identitária nacional; eventual aumento da criminalidade
(pequenos roubos, contrabando, droga, lavagem de dinheiro); aumento do lixo e
da poluição; pressão negativa sobre ecossistemas; abandono de infraestruturas
por deixarem de ser necessárias; subserviência perante os estrangeiros e mau
tratamento a nacionais, etc.
E nunca se deve deixar vir
mais turistas do que aqueles que se consegue tratar harmoniosamente. Nem que se
tenha que recorrer a “números clausus”. Que foi aquilo que voltou a acontecer
quando aquela epidemia mal contada, se foi embora ou se diluiu no éter. Já há
turistas a mais e tal nem sequer pode servir de desculpa para se fazer um novo
aeroporto (de que aliás tenho as maiores dúvidas na sua necessidade).
As ideias chave devem ser as
de diversidade, sustentabilidade, equilíbrio, qualidade e ocupação harmoniosa
de todas as estações do ano e da totalidade do território. E não a sofreguidão
em ganhar dinheiro.
O turismo também “cansa” e
degrada-se facilmente. Há que andar à frente dos acontecimentos.
Só assim Lord Byron – que nos
visitou numa péssima altura para o turismo – se cá voltasse encontraria não uma
Cintra, mas muitas mais.
E não nos chamava nomes feios.
1 Mas também
escreveu, “terra sanguinária onde a lei não basta para proteger a vida”.
Título, Imagem e Texto: João
José Brandão Ferreira, ContraCultura,
6-11-2026

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