sábado, 27 de abril de 2019

Um país que parece mentira

Alberto Gonçalves

Um punhado de criaturas que tem sonhos eróticos com a boina do “Che” e os fatos de treino dos sobas de Caracas não constitui exatamente um “movimento”, digno de alerta na imprensa e tumultos na rua.

Um “grupo de cidadãos” criou um “movimento apartidário” para exigir “uma campanha limpa”, leia-se “sem mentira e desinformação”. Os subscritores, assaz preocupados com o que acontece na América e no Brasil, pretendem “bloquear e denunciar” as “notícias falsas nas redes sociais portuguesas”, de modo a votarem “sem a intoxicação de quem despreza a democracia”. Isto é o que vem no “Público”. (E no Expresso e no Diário de Notícias, NdE)

O que não vem no “Público” é que o “grupo de cidadãos” que é uma dúzia de “personalidades” habituais em programas televisivos de variedades, que o “movimento apartidário” corresponde ao arco do poder que vai do PS atual ao BE de sempre, que a preocupação deles com os EUA e o Brasil não se estende à Venezuela ou à Coreia do Norte, que a denúncia e o bloqueio são métodos de regimes totalitários e indivíduos com patologias, que o desprezo dessa gente pela democracia já a intoxicou há muito e que o problema não são as “notícias falsas” – invariavelmente produzidas à “direita” –, mas as restantes.


Um primeiro problema, se a palavra não é exagerada, prende-se com as notícias que não chegam a sê-lo. Um punhado de criaturas que tem sonhos eróticos com a boina do “Che” e os fatos de treino dos sobas de Caracas não constitui exatamente um “movimento”, digno de alerta na imprensa e tumultos na rua. No máximo, formam um caso de estudo psiquiátrico. No mínimo, um rancho de mimados convencidos de que o mundo lhes deve atenção e obediência a um “pensamento” (força de expressão) que ambicionam único. Se a imprensa teima em promover irrelevâncias, a imprensa que se divirta enquanto pode.

Porém, um problema imensamente maior que as notícias falsas são as notícias verdadeiras. É, por exemplo, verdadeira a notícia de que existe uma Associação dos Amigos dos Cemitérios, e que a dita se preparava para celebrar (hurra!) um protocolo com a câmara de Lisboa para, cito, “dinamizar iniciativas nos cemitérios da cidade”. Graças a um vereador do PSD, João Pedro Costa, soube-se igualmente que os Amigos dos Cemitérios são de facto amicíssimos do PS e, fatalmente, familiares do sr. César dos Açores, que só à sua conta enfiara três ou quatro nos corpos sociais daquela prestimosa associação. Com franqueza, perdi-me algures: não faço ideia se os parentes do sr. César, indivíduo abaixo de qualquer suspeita, se reproduzem como cavalos-marinhos ou se cada parente acumula 15 ou 16 cargos públicos. Certo é que, após viver à custa dos vivos, o clã decidiu alargar o expediente aos mortos. Expandir o “core business”, julgo que se diz.

Consciência

Nelson Teixeira

Temos no porão da consciência uma presença divina que sussurra bons conselhos. Ative os ouvidos da intuição. Escute a voz do coração.

Sua mente é a hóspede da alma, que passeia nos nossos espaços mais íntimos, naqueles quartos do nosso castelo interior. Ela entra inclusive naquele quarto que preferimos manter fechado, o quartinho da bagunça.

Ela organiza o caos e depois de tudo organizado, de dentro de nós, ao invés de sair ressentimento, sai sentimento bom de cura, de paz, de harmonia e de equilíbrio vital. Pense no melhor que o melhor virá.
Título e Texto: Nelson Teixeira, Gotas de Paz, 27-4-2019

Charada (839)

Quais são os
próximos
dois números
da seguinte
sequência?

19, 17, 15, 13, 11, 9, 7, ____, ____.

Charada (838)

Qual o
composto químico,
fundamental para a vida,
que se esconde no
Paraguai e na Nicarágua?

‘Hannity’ Exclusive: Trump says tables have turned in Russia probe

Os Pingos Nos Is - 26/04/19 - Ricardo Salles no estúdio/A entrevista de Lula/Pacote anticrime

sexta-feira, 26 de abril de 2019

FC Porto dá adeus ao campeonato

O Porto, que estava vencendo por duas bolas, deixou o Rio Ave empatar.

Efeito abutre no aumento do preço das passagens

Alberto José

Em O Globo de hoje, 26 de abril, aparece a notícia de que algumas das rotas mais procuradas no país já têm alta no valor do bilhete de mais de 100% na comparação com abril do ano passado. A escalada das tarifas é maior no Rio, que sofre com queda no número de voos.


A Avianca já cancelou mais de 1.500 voos.

Na próxima segunda-feira, por exemplo, saídas do Galeão podem custar até R$ 1.272,00 para Brasília e R$ 1.790,00 para Salvador. Já um bilhete para Lisboa sairia por R$ 3.816,00!

Mas não há consenso entre especialistas de que as tarifas terão seus preços reduzidos com a venda de operações da Avianca a outras companhias.

A redução (de preços) pode demorar se Gol e Latam, que detêm 69% do mercado doméstico, dominarem os lances: teria que haver uma guerra de preços entre as duas.

Resta saber, depois desse naufrágio da Avianca, como ficarão os direitos trabalhistas dos seus empregados.

Como aconteceu na Varig, será que as empresas arrematadoras do "espólio" não serão obrigadas pela Justiça a pagar os direitos trabalhistas dos demitidos?
Título, Imagem e Texto: Alberto José, 26-4-2019

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[Pernoitar, comer e beber fora] Hotel Mercure, na Batalha, Porto

Mercure Porto Centro Hotel fica na Praça da Batalha. Ótima localização.


Tem estacionamento? Quer dizer, tem uma garagem lá na ruazinha, adaptada para o efeito, a garagem, não a ruazinha. Mas, pay attention! você deve reservar.

Não reservei, mas, por sorte minha, a maioria dos hóspedes que lá estava alojada era pobretona, pois lá chegaram de táxi ou de uber, depois de alcançarem a cidade do Porto by train or airplane. 😄😄

Depois de passar umas quinze vezes em frente ao hotel procurando o “estacionamento” resolvi parar “à Porto” (e eu que achava que o lisboeta parava de qualquer jeito...) em frente ao Hotel. Foi aí, então, que ‘obtive’ as informações acima descritas. E, portanto, o carrinho ficou hospedado. 15 dinheirinhos a diária!

A garagem deve ter espaço para não mais de vinte carros. Portanto, quem lá chegar de automóvel, olho vivo!

Bom, deixando a garagem e indo para a recepção. Muito bem recebidos, envelope já pronto (havia feito previamente o check-in online), com duas ‘chaves’, mapinha da cidade, voucher para drinks de boas-vindas.

E um detalhe que me surpreendeu positivamente: o senhor, com um sotaque ‘tripeiro’ bem acentuado, um “bell-captain”, profissional que eu não via há muitos e muitos anos, levando a nossa bagagem até ao quarto, ligando o ar-condicionado e nos ensinando como funcionava a ‘chave’ (cartão), as luzes e a TV... ganhou 5 dinheirinhos! (Ainda bem que eu os tinha!)

[Estórias da Aviação] O cafezinho

Alberto José


Nas décadas de 70 e 80, eu achava que a pior tarefa a bordo era preparar o café para ser servido no café da manhã. Por deficiência de água quente na econômica, geralmente uma térmica de água quente era preparada na primeira classe e levada perigosamente pelo corredor até à galley da classe econômica.

O café era de marca tradicional, coado em filtro de papel e vertido em outra térmica vazia mas aquecida.

Um dia, eu fiz um café tão bom que duas horas antes do café já havia fila de passageiros para pedir uma "xícara"! 

Muitas vezes, tínhamos que fechar todas as cortinas da galley para tentar bloquear o cheiro gostoso do café fresco que se espalhava pela cabine. atraía os passageiros e chegava até o "cockpit"! Algumas vezes, tive que fazer duas "fornadas" de café fresco pois a primeira acabou antes de começar o serviço.

Alguns colegas, atraídos pelo cheiro gostoso, vinham adicionar algum componente para "incrementar" o sabor do café, como chocolate, brandy, etc. Sempre o café era elogiado.

Com a chegada das máquinas de café no DC-10/11 o preparo do café perdeu o charme e a qualidade. As máquinas, que não podem sentir o sabor e o cheiro do preparo hoje injetam água fervente em um produto selado que parece "resto de café usado", como se pode sentir nos aviões modernos. Acabou o charme do café "feito à mão", que provocava filas de passageiros nos corredores!
Título e Texto: Alberto José, 26-4-2019

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Eleitor terrorista

Rodrigo Constantino

O Partido Democrata se transformou num PSOL da vida. Um bando de radicais populistas que ameaçam os valores mais básicos da América

Venho chamando a atenção faz tempo para a crescente radicalização da esquerda americana. Semana passada tivemos um exemplo claro. A CNN realizou um evento com vários pré-candidatos do Partido Democrata que pretendem desbancar Trump em 2020. A estrela era Bernie Sanders [foto], aquele que passou a lua de mel na União Soviética e teceu elogios ao ditador Fidel Castro, mas que nega ser um radical ou defensor do comunismo autoritário.


Pois bem, a jornalista perguntou sobre uma de suas ideias malucas. A de liberar o voto para presidiários. Mesmo aqueles que cometeram crimes terríveis? Mesmo o terrorista da maratona de Boston? E eis que Sanders, sem titubear, disse que sim, que o voto era algo tão importante para a cidadania que não fazia sentido retirar tal direito de absolutamente ninguém, nem mesmo de um terrorista.

O sujeito, quando comete um crime desses, fica privado de vários outros direitos, a começar o de ir e vir, já que fica confinado na prisão. Mas o populismo de Sanders não encontra barreiras na lógica: todos devem votar, ter uma voz sobre o futuro da nação, mesmo quem matou, estuprou ou explodiu crianças.

Como Sanders é o líder nas pesquisas até aqui e como a base democrata foi tomada por extremistas, os demais pré-candidatos precisam copiar o velho comunista. Kamala Harris, que só tem destaque por ser uma mulher negra, recebeu a mesma pergunta e, um pouco mais tímida que Sanders, concordou que o voto é um dos direitos fundamentais e que era preciso, sim, conversar mais sobre esse assunto. Ela aproveitou para declarar que jovens de 16 anos deveriam votar também. É mais fácil seduzir os mais novos com discursos sensacionalistas, afinal de contas.

Arena da Amazônia, em Manaus, vai receber partida entre Vasco e Corinthians

Ingressos vão custar R$ 80, para quem levar 1 kg de alimento não perecível

Foto: António Cruz/Agência Brasil
O jogo entre Vasco e Corinthians, válido pela 3ª rodada do Campeonato Brasileiro, será no dia 4 de maio, às 18h, no estádio Arena da Amazônia Vivaldo Lima, em Manaus. A venda dos ingressos vai começar nesta sexta-feira (26). O prefeito da cidade, Arthur Virgílio Neto, destaca que eventos como esse são benéficos para a economia e turismo da capital amazonense.

Os ingressos vão custar R$ 80, para quem levar 1 kg de alimento não perecível, e podem ser adquiridos na Arena Amadeu Teixeira. As doações serão destinadas ao Fundo Manaus Solidária.
Fonte: Agência Brasil, 26-4-2019

Felipe fala sobre café da manhã com Bolsonaro

Felipe Moura Brasil, junto com Augusto Nunes e José Maria Trindade, dão detalhes do café da manhã do presidente Jair Bolsonaro com jornalistas de diversos veículos.


Os Pingos nos Is, 25-4-2019

Relacionados:

[Aparecido rasga o verbo] Era uma vez a “AMIGA DA AMIGA DO AMIGO DA AMIGA DO AMIGO DE MEU PAI...”.

Aparecido Raimundo de Souza

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
Rui Barbosa

O CASO JÁ PASSOU, muita gente deu em cima, o país se revoltou, meteu a boca no trombone, até que o senhor miSInistro voltou atrás. Revogou. Apesar disso, é sempre bom estarmos atentos. Diz um velho ditado que “lembrar é como desfrutar de um bom prato de canja de bunda de galinha. Nunca faz mal”. O problema é que o fato pode se repetir. Devemos ter em mente, que, embora o deus de toga tenha jogado a toalha, seguimos, a passos largos, voltando indubitavelmente no tempo.

Estamos retrogradando.  Com tantas coisas mais importantes para serem decididas, finalizadas, encerradas, o STF (Superior Tribunal das Falcatruas) através de um de seus representantes, Alexandre de Moraes, decidiu, e colocou sob “CENSURA” por ordem expressa a Revista “Crusoé” e, por extensão, igualmente, o “Antagonista”, sob pena, caso houvesse desobediência, de uma multa de cem mil reais por dia.  Isso porque uma delas citou o nome de outro “jesus cristo” igualmente de meia tigela indevidamente, ou seja, o segundo jesus, o nosso salvador DIAS TOFOLLI.

O cidadão se sentiu como diríamos, melindrado, exasperado, abespinhado, espicaçado, lacerado, contundido em sua moral. Que vergonha! País de safados, de bandidos, de espertalhões, de embusteiros, e os Nossos Representantes Maiores falando, ou melhor, vomitando, no que cognominaram ou taxaram, por conta própria, de “claro abuso no conteúdo da matéria veiculada”, matéria essa, não outra, senão a publicada nas revistas acima citadas. Aliás, faz temmmpooo... o STF mudou o rumo de suas prioridades, ou o que deveria ser entendido, num primeiro momento, como “supremacia”.

Eis a reportagem (na íntegra) escrita pelos jornalistas Rodrigo Rangel e Mateus Coutinho.



O amigo do amigo de meu pai

NA ÚLTIMA TERÇA-FEIRA, um documento explosivo enviado pelo empreiteiro-delator Marcelo Odebrecht foi juntado a um dos processos da Lava Jato que tramitam na Justiça Federal de Curitiba. As nove páginas trazem esclarecimentos que a Polícia Federal havia pedido a ele, a partir de uma série de mensagens eletrônicas entregues no curso de sua delação premiada.

No primeiro item, Marcelo Odebrecht responde a uma indagação da Polícia Federal acerca de codinomes que aparecem em e-mails cujo teor ainda hoje é objeto de investigação. A primeira dessas mensagens foi enviada pelo empreiteiro em 13 de julho de 2007 a dois altos executivos da Odebrecht, Irineu Berardi Meireles e Adriano Sá de Seixas Maia. O texto, como os de centenas de outras e-mails que os executivos da empreiteira trocavam no auge do esquema descoberto pela Lava Jato, tinha uma dose de mistério.

Charada (837)

Qual dos
seguintes
números é
maior
que – 50?

a) – 80;
b) – 70;
c) – 40;
d) – 60.

LIVE com o presidente Bolsonaro, 25 de abril

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Estou de alma lavada

O Globo me ligou para oferecer assinatura. Respondi:

"Meu amigo, sei que você não tem nada a ver com isso, mas eu não confio no Globo. Não quero saber de O Globo, Folha, Estadão... É um bando de fake news. Mentiram um monte na última eleição e eu sou militante do Bolsonaro. Então, não tenho qualquer interesse nesse jornal. Obrigado."
Mission accomplished 🕶️
Título e Texto: Vitor Grando, 25-4-2019



Em encontro, Davi e Bolsonaro conversam sobre reforma da Previdência

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, classificou como “muito bom” o encontro na manhã desta quinta-feira (25) com o presidente da República, Jair Bolsonaro, e com o líder do governo, senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), no Palácio do Planalto. Eles conversaram sobre a conjuntura do país e a aprovação, na terça-feira (23), da constitucionalidade da reforma da Previdência (PEC 6/2019) pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados.

Davi Alcolumbre (ao centro) com o senador Fernando Bezerra Coelho (E), o presidente Jair Bolsonaro e o vice-presidente Hamilton Mourão (de costas) em encontro no Planalto nesta quinta-feira. Foto: Marcos Correa/PR
Davi disse que o Senado está com disposição de dar celeridade a essa proposta “tão importante para o Brasil" e de conscientizar os senadores sobre a importância de o Senado, no âmbito da Comissão Especial de Acompanhamento da Reforma da Previdência (instituída na Casa no dia 10 deste mês), ajudar a comissão especial da  Câmara na formatação da proposta.

— Externei ao presidente da República o entusiasmo e o sentimento dos senadores, que estão dispostos a ajudar o país, têm consciência do tamanho do desafio. 
Título e Texto: Agência Senado, 25-4-2019

Acaba o horário de verão

[Discos pedidos] No tempo da Rua de Santa Catarina, no Porto, já faz um tempinho...

Aos sábados e domingos, com tempo bom, o point era na Rua de Santa Catarina – na calçada da direita, em direção à Praça da Batalha. As ‘raparigas’ desfilavam em grupinhos de três ou mais, os rapazes, encostados às paredes lançavam os piropos. Se colava, iam atrás das meninas. Conversa entabulada, passavam o resto da tarde juntos. Às vezes dava namoro. Como me aconteceu com a São, que morava em Coimbra...


Pois bem, naquela bela época se ouvia:



O medo da liberdade

Paulo Tunhas

O que esta nova esquerda busca não se reduz ao desenvolvimento de um Estado tutelar. É algo que visa a perfeita eliminação da sociedade como realidade distinta do Estado. Basta ouvir Catarina Martins.


Cada época tem liberdades que lhe são próprias, muitas vezes incompatíveis com as liberdades de outras épocas. Tocqueville mostrou-o no que diz respeito ao Antigo Regime e à sociedade pós-revolucionária e, muito mais importante, a experiência da vida mostra-o a cada um de nós: pouco tempo basta para que certas liberdades permitidas pela sociedade desapareçam e outras novas surjam em sua substituição. E, naturalmente, quem tiver crescido com as liberdades antigas sempre sentirá a falta delas, cuja memória as novas não apagarão. Resta aceitar democraticamente o curso dos tempos, procurando preservar pelo menos a memória dessas antigas liberdades contra a força obliteradora do presente.

Dito isto, a par da tendência uniformizadora da democracia, com o fatal aumento da presença de um Estado tutelar, paternal e vigilante e a concomitante infantilização dos indivíduos, há algo que é quase uma perversão dessa mesma tendência e que age, cada vez com menos restrições, no sentido de contrariar as liberdades em geral, ambicionando não deixar praticamente reduto algum em que elas sobrevivam, nem sequer sob a forma da memória, tal como esta se exprime em atitudes, gestos ou palavras. E essa perversão é, nas nossas sociedades, representada por uma certa esquerda, que conjunturalmente parece ter tomado conta do espaço praticamente todo da esquerda tradicional, onde a memória e a prática da liberdade se encontravam ainda vivas e ativas, ao ponto de quem, no interior dos sobreviventes dessa antiga tradição, a procurar ainda preservar, ser condenado, por um processo ao outro, ao silêncio e à irrelevância.

O que esta nova esquerda, que nos seus antecedentes é velhíssima, busca não se reduz ao desenvolvimento de um Estado tutelar. Isso, não apenas a velha esquerda como a maioria da direita o procura também, até porque é algo que acompanha a tendência geral à democratização uniformizadora da sociedade. É algo que visa a perfeita eliminação da sociedade como realidade distinta do Estado, a subjugação dos indivíduos e das suas ações ao controle estrito pelo Estado, sem margem de manobra possível. Ouçam Catarina Martins [foto acima] na televisão, ou qualquer representante da “ala esquerda” do PS, e é exatamente isso que é dito, sem papas na língua.

Pode-se dizer, sem receio de particular injustiça para com Marx, que uma parte desta atitude tem origem no marxismo, mas a verdade é que ela vem de mais longe. À sua maneira, Benjamin Constant já a havia diagnosticado num texto célebre de 1819, Sobre a liberdade dos Antigos comparada com a dos Modernos. Constant identificava os adversários da liberdade individual como os herdeiros da tradição rousseauiana, como Mably, que “detestava a liberdade individual como se detesta um inimigo pessoal”. É esse ódio que é transparente nos discursos da sorridente Catarina e dos seus amigos, não só do Bloco como também da esquerda nova do PS. E não falo sequer do PC, para o qual a liberdade individual é, desde tempos imemoriais, objeto de uma condenação que se ambiciona “científica” e fundada numa filosofia da história de que não se desvia, aconteça o que acontecer, um só milímetro.

As mentiras e as aldrabices das listas de espera

Filomena Martins

O anúncio de que podemos passar a tirar o bilhete de identidade em 5 minutos e o relatório que confirmava que os números das listas de espera tinham sido mascarados tirou-me do sério. E tenho provas.

Odeio que me tomem por parva. Que nos achem burros. E que muitos continuem a cair nas manhas próprias de vendedores de tapetes do grande bazar de Istambul. A técnica não é de agora, é certo. Mas o anúncio de que podemos passar a tirar o bilhete de identidade em 5 minutos e o relatório do grupo independente criado pelo Governo que confirmava que os números das listas de espera para consultas e cirurgias tinham sido mascarados tirou-me realmente do sério. E fiquei ainda mais piursa porque parece que sou das poucas.

Tirar o bilhete de identidade em 5 minutos, em vez dos 15/20 atuais, diz o Governo?! Mas estão a gozar com quem?! Se alguém tiver sorte com o funcionário de serviço, a coisa até pode demorar menos de meia hora… a partir do momento em que nos sentamos na cadeira. O problema é o antes e o depois. Por marcação, a última vez que tentei optar por essa coisa tão moderna e prática, tinha vaga para quase dois meses depois. Num local normal, é preciso tirar senha antes das 8h30 (o mais tardar acabam às 11h00) e depois aguardar duas a quatro horas na fila (com sorte) até aos tais minutos finais. E o mesmo tempo (e processo) para ir levantar o documento. Mas alguém ainda acredita nestas mentiras que nos impingem todos os dias?

Sobre as listas de espera vou usar um outro exemplo concreto e pessoal. Peço desculpa, raramente o faço, mas o caso é tão demonstrativo das aldrabices que têm sido feitas, que é a melhor forma de explicar as coisas. A minha mãe está a aguardar uma cirurgia à coluna há um ano (desde 16 de abril de 2018). É uma operação importante, já que o problema nos discos e na cartilagem tem vindo a degradar as suas condições de vida e a sua mobilidade no dia a dia. A neurocirurgiã que a seguia ainda se ofereceu para o fazer no particular, coisa para seis mil euros. Sem possibilidades financeiras para tal, nem seguro de saúde, nem sequer ADSE (como a maioria dos portugueses que recorre ao SNS), decidiu aguardar o máximo de 6 a 9 meses que lhe deram de média para a intervenção num hospital público ou num privado graças aos também famosos vales-cirurgia.

Ora vamos lá a essa maravilha criada para resolver as inaceitáveis e intermináveis listas de espera que não paravam de aumentar. Estaria a falar a sério agora, porque a ideia é realmente boa, não se desse o caso do que vou contar a seguir. O primeiro vale surgiu em tempo admissível, cinco meses, em setembro, mas com uma armadilha. Os três hospitais privados à escolha ficavam todos acima do Douro quando a senhora vive, sozinha, nos seus 75 anos, muitíssimo abaixo do Tejo. A recusa foi feita com base nessa logística complicadíssima, devidamente explicada e aceite. Veio o segundo vale em novembro, prazo também normal, reconheço, e já só tinha duas possibilidades de opção além Douro… só que a outra era em Lamego! Já conformadas com tal solução, questionamos sobre o acompanhamento, transportes e demais questões práticas. A resposta foi que tal não existia. O vale é apenas para a própria, pelo que era melhor tentar uma terceira vez.

Descrispação: ainda alguém se lembra?

Alexandre Homem Cristo

O fim do mito da “descrispação” está repleto de significado. O PS pode enterrar a fórmula do poder perpétuo que, em tempos, julgara ter encontrado através do controlo hegemônico do Estado e das ruas.

Foi promovida a palavra do ano, em 2016, sob o alto patrocínio da Presidência da República. Palavra inexistente no dicionário, Marcelo apresentou-a para sinalizar a sua prioridade no início do mandato presidencial e celebrar aquela que, para ele, emergiu como a conquista inicial da geringonça enquanto solução governativa: a paz social voltara às ruas. Ora, se já à época era evidente a artificialidade da “descrispação”, agora, perante o endurecer generalizado das greves, não restam vestígios dessa ilusão fabricada por Marcelo. E se isto poderia ser um mero ajuste de contas linguístico, na verdade o seu impacto é muito mais profundo: da mesma forma que a “descrispação” visou elevar a união das esquerdas a único garante da estabilidade política e da paz social (em oposição à coligação da direita), o esfumar dessa ilusão representa uma derrota política da geringonça. Uma derrota pesadíssima, porque decorrida no seu próprio território: a rua, onde a influência da CGTP é hoje menor do que em 2015.


A tese da “descrispação” de Marcelo sempre sofreu de dois problemas estruturais. Primeiro, exaltou uma paz social artificial, obtida por via da pacificação da CGTP através do apoio parlamentar do PCP ao governo (e do silenciamento do BE) – ou seja, a ausência de contestação social não significava ausência de tensões nas várias classes profissionais, que eventualmente encontrariam um escape.

Segundo, eliminou a direita parlamentar como opção governativa, sugerindo que apenas o PS à esquerda conseguiria governar sem contestação, nomeadamente em contextos sociais e econômicos mais difíceis – ou seja, legitimou a ideia de que uma maioria PSD-CDS era indesejável, na medida em que faria elevar os níveis de crispação. Ideia, de resto, que o PS já havia ensaiado em 2002, através de Eduardo Ferro Rodrigues, quando assegurou que o papel do PS era o de contribuir para a “descrispação” do ambiente político. Dito de outro modo, em 2002 ou em 2016, a tese da “descrispação” serviu sempre para posicionar o PS enquanto única fonte de estabilidade política.

Essa tese está hoje completamente refutada. Por um lado, sim, a mordaça sindical que a geringonça impôs à CGTP protegeu o governo e garantiu, sobretudo entre 2016 e 2017, um ambiente de aparente acalmia, apesar da degradação acelerada dos serviços públicos (nos transportes, na saúde, na educação). Mas a insatisfação que a CGTP conteve e deixou de representar no âmbito da Concertação Social originou novos movimentos e sindicatos – menos institucionais, mais radicais e com ações menos imprevisíveis. Estivadores, enfermeiros, professores, motoristas de materiais perigosos, são cada vez mais as classes profissionais que estão a redirecionar as suas lutas para fora da esfera da CGTP e da Concertação Social – isto é, para fora do controlo político e sindical que o PCP sempre se gabou de ter nas ruas. Por outro lado, essas movimentações têm uma dupla consequência negativa para o PS: enquanto governo, não só perdeu o estatuto de garante da paz social, como a sua solução governativa está a originar formas de combate sindical ainda mais agressivas do que as tradicionais. Ironicamente, esta será uma das heranças da geringonça.