sábado, 5 de dezembro de 2015

Fernando Brito ataca Kim Kataguiri. Antes da direita se irritar, poderia assimilar uma lição vital sobre guerra política

Luciano Henrique

Ainda que as declarações de Kim Kataguiri tenham sido logicamente acertadas, foram distorcidas por Fernando Brito. Antes, veja o que Kim afirmou:

Na avaliação do movimento, com o recesso, os deputados voltarão para seus Estados e serão pressionados por suas bases eleitorais. Também haverá mais tempo para a população sentir os efeitos da crise – piorando o humor em relação a Dilma. A população tem que ter esse tempo para compreender o crime fiscal [de que o governo é acusado] e, ao mesmo tempo, sentir as consequências da crise gerada pela própria presidente. E tem mais os desdobramentos da Operação Lava Jato, com novas delações.

Nada de errado, certo?

Porém, Fernando Brito, da BLOSTA, foi para o jogo, como não poderia deixar de fazer. Leiam:

O rapazote que é promovido pela mídia como grande ideólogo “coxinha”, Kim Kataguiri, expôs hoje na Folha a desfaçatez típica do pensamento nazistóide, que encara a população como uma massa a ser impiedosamente manobrada como ferramenta de seus interesses políticos. Ele defendeu – como seus líderes do PSDB fizeram ontem – que os deputados entrem de férias, deixando parado o processo de impeachment, para que, neste tempo “a população (…) possa sentir as consequências da crise”. […] Alguém queria um exemplo mais claro do que é o tal “quanto pior melhor”?  Ou do que é indiferença, falta de compaixão e maldade para com o sofrimento das pessoas humildes? Ou de como uma pessoa jovem pode ter um pensamento velho ao ponto de achar que os pobres merecem é castigo para aprenderem?

O que ele fez aqui?

Simples. Apelou ao coração do povo, rotulou o oponente incessantemente – ou seja, não entrou para o debate político com se estivesse debatendo em Oxford – e, uma bela tacada (que tem sido difícil da direita compreender), apontou a má intenção do oponente. (E pior que nesse caso nem havia a má intenção, mas, Brito, jogo é jogo)

Acho que esta é a lição fundamental a ser tirada.

Nós, da direita, criamos a mania de chamar Dilma de “incompetente” e “uma presidente que cometeu vários erros”. Me desculpem, mas esta é uma avaliação errada e incompetente, uma vez que ela é extremamente competente em seu projeto de saquear o Brasil, afugentar investidores e aumentar o poder de seu partido. Quanto mais a população sofrer, melhor para ela. Quem conquista aquilo que quer não é incompetente, mas o oposto. Dilma é extremamente hábil em toda sua implementação socialista. O sofrimento das pessoas humildes e a destruição do sonho dos brasileiros é tudo aquilo que ela e seu partido depravado querem, pois, sem isso, não consegue concentrar poder. Infelizmente, nada disso existe no discurso de boa parte da direita.

Pode parecer um detalhe, mas o discurso dizendo que “Dilma cometeu erros, desastres e é uma trapalhona” é o oposto daquele que diz que “Dilma destruiu intencionalmente nossa economia”. Ou sua comunicação contém a primeira mensagem, ou contém a segunda. Se for para misturar as duas noções no mesmo conteúdo, o cérebro entrará em curto-circuito.

Quando é aceito pelos seus, o discurso de Fernando Brito consegue causar sensações de repulsa verdadeira. Quando a mesma aceitação ocorre com o discurso que a direita elaborou para definir Dilma como “uma presidente que cometeu muitos erros” – ao invés de definir o colapso econômico como parte de usa intenção -, as sensações geradas incluem repulsa moderada e até uma certa compaixão. Compaixão esta que destinamos, subconscientemente, aos “coitadinhos enganados”, mas não aos mal-intencionados. Ao nos recusarmos a apontar a má-intenção de nossos oponentes, optamos por sensações muito mais brandas contra eles a cada vez que nossa mensagem for aceita.

É uma verdade desagradável, mas, no controle da narrativa, o PT está ganhando de goleada, mais ainda do que aconteceu nas eleições de 2014. Tomara que venha o recesso, pois, principalmente, precisamos melhorar nossa linguagem. Precisamos derrubar o mito da coitadinha enganada, e estabelecer a verdade de que Dilma é cruel, maquiavélica, sórdida, sem compaixão, e, por isso, comanda um projeto para destruir a economia intencionalmente.

Tomar a escolha por este discurso pode fazer a diferença a nosso favor. Ignorá-lo significa já na largada dar vantagens discursivas absurdas ao oponente. A política é bela especialmente por essas escolhas que fazemos.

P.S.: Este post não é um puxão de orelha no MBL, até porque acho que eles, em geral, estão com o discurso mais acertadinho em todos os movimentos de direita. É uma conscientização geral, em larga escala, para todos nós, em diversos movimentos, cenários, ambientes, meios, etc.
Título, Imagem e Texto: Luciano Henrique, Ceticismo Político, 5-12-2015



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