terça-feira, 20 de março de 2018

[Aparecido rasga o verbo] A Confraria dos doze

Aparecido Raimundo de Souza

Há de chegar um tempo em que o amanhecer será, realmente, para mudar, vertendo alívio em voos de pássaros ao sol”.
Vilmar José Matter


OS DOZE APÓSTOLOS DE JESUS CRISTO chegaram a São Paulo um pouco antes da meia noite de uma sexta-feira, montados, três a três, nos quatro cavalos do Apocalipse. Deixaram as montarias na cobertura da Ponte da Casa Verde ladeadas pela Marginal vazia de trânsito intenso àquela hora, e o famoso Rio Tietê e seguiram, logo depois de uma rápida refeição, a pé. Cada um para um determinado ponto.

Combinaram que à mesma hora, uma semana depois, se reencontrariam naquele mesmo lugar, e, então, seguiriam viagem com destino a outro Estado. Pedro, logo que deixou o grupo, se viu às voltas com dois menores infratores recém-fugidos de um Centro de Detenção Provisório. Depois de lhe surrupiarem as coisas poucas que levava nos bolsos da calça, a dupla tomou posse de um carro e fugiu em alta velocidade.

Três horas depois dos moleques infratores, uma galera de desocupados, lá pelas bandas de Santo André o espancou e o matou numa favela da periferia. Não contentes, os infelizes bateram nele e o crucificaram numa cruz tosca de madeira vagabunda. A polícia encontrou Pedro, quase ao meio dia de um sábado maravilhoso e ensolarado, enterrado de cabeça para baixo nas cercanias do Rio Pinheiros, em Cidade Jardim.

Tiago, filho de Zebedeu, o segundo a se ver em apuros. Às primeiras horas de um final de domingo, uma radiopatrulha que fazia a ronda pela região da Barra Funda topou com a sua cabeça perto da estação do metrô. Do corpo, porém, nem sinal.

João, irmão de Tiago, veio a óbito vítima de uma bala perdida, em Osasco, quando caminhava pela Anhanguera, em direção ao SBT.

André, irmão de Pedro, entrou num subúrbio com destino à Itapeví. Confundido com um policial à paisana, quatro assaltantes que entraram no trem, em Presidente Altino, o espancaram e, para não deixar pistas, o crivaram de balas. Testemunhas ouvidas relataram que André partiu desta para melhor, admoestando seus algozes.

Tiago, da linhagem de Alfeu, se viu abatido a golpes de faca numa emboscada perto do antigo presídio do Carandiru.

Mateus, o ex-coletor de impostos, para sobreviver, se vestiu de mendigo e como tal, resolveu bater de porta em porta pedindo restos de comida nas mansões dos ricos, no famoso bairro do Morumbi. Meio assemelhado com um maníaco que atacava mocinhas, acabou numa das celas da polícia civil.

Bartolomeu teve fim trágico. Ao passar defronte a um banco vinte e quatro horas, meliantes o tomaram por um empresário famoso. Por essa razão, sequestraram o desgraçado e o prenderam no bagageiro de uma BMW, acondicionado dentro de um enorme saco plástico. Bartolomeu e o automóvel acabaram no fundo do Rio Mandaquí.

Simão, o Zelote, se enveredou por uma localidade conhecida como Cidade Dutra, e o fez por engano. Ao dar meia volta uma gangue lhe pôs cabo à vida. Entretanto, um jornal sensacionalista de grande circulação em São Paulo, noticiou que um homem conhecido por Simão morreu envenenado à porta de um hospital do SUS em Campo Limpo, Região Sul paulista por falta de socorro médico.

Filipe por seu turno morreu fuzilado ao empreender uma fuga em desabalada carreira. Caiu numa roda de fogo, onde policiais e bandidos trocavam tiros em plena Avenida Paulista.

Judas Iscariotes, irmão de Tiago, se viu detido por uma guarnição da brigada militar por estar vendendo, na Praça da Sé, pingentes com a imagem de Jesus, dizendo que tais penduricalhos operavam milagres divinos. Um louco, que dividia a cela com ele, na segunda noite, o matou a golpes de estilete.

Tadeu se envolveu com uma multidão de pessoas enlouquecidas numa rua movimentada de São Bernardo, região do grande ABC. O povo gritava que ele era o criminoso que agia naquelas redondezas roubando e estuprando mulheres. Por conta, atearam fogo em suas vestes. Em consequência dessas queimaduras morreu antes que os homens da lei e uma guarnição dos bombeiros pudessem prestar algum tipo de ajuda.

Tomé foi o único que saiu, caminhou pela Freguesia do Ó, Brasilândia, Itaberaba e outros bairros próximos e voltou ileso ao local onde se daria a reunião previamente estabelecida. Precisava, como sempre, ver seus amigos, um a um, para crer que estavam bem. Extremamente incrédulo, gastou um tempo enorme olhando de um lado para outro, sem muita esperança e convicção de que um dos onze efetivamente voltasse.

O fato é que nessa agonia esperou horas a fio, durante longos dias e noites. Começava a se aperrear, mas necessitava ver. Dos onze companheiros, nem sombra. Nenhuma notícia. Qualquer sinal de que apareceriam, de repente, sãos e salvos. 

Nos dias que se seguiram à sua chegada ao local pré-estabelecido, o mesmo quadro se repetiu como nos anteriores. Mergulhado nessa incerteza crucial, vários dias e horas intermináveis realmente correram, ou melhor, voaram, sem mudanças fundamentais. Nada, absolutamente nada aconteceu de novo. Passou uma semana, duas, três...  

Debaixo daquele viaduto da Casa Verde, margeado pelo Rio Tietê, Tomé, sentado numa caixa de refrigerante podre, olhava desolado para os cavalos, perfilados, um ao lado do outro, impassíveis, à espera de seus ocupantes. Porém, os amigos não deram sinais de existência. Teriam se perdido em meio à cidade imensa? Estariam feridos, ou em apuros, ou, quem sabe mortos? Tomé não acreditava nessa hipótese, aliás, não se agarrava em suposição nenhuma. Como sempre, para se cumprir a palavra: ver, ver, olhar, PARA, enfim, CRER.

Nesse interregno, sequer havia formado uma conjectura na qual se afeiçoar. Bastava, contudo, ver para crer. Essa maldição o perseguia. Quem sabe, vendo e crendo, crendo e, sobretudo vendo, pressuporia alguma coisa realmente concreta. Para Tomé crer em alguma coisa, carecia literalmente de enxergar, se certificar no preto e branco. Ele, neófito, por natureza, perdido em seus próprios pensamentos e tragédias, realmente, nada viu.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Campinas, interior de São Paulo. 20-3-2018

Colunas anteriores:

Um comentário:

  1. Aparecido, achei genial sua alusão aos personagens bíblicos vivendo nos dias atuais. Seria mais ou menos desse modelo. Seria engraçado não fosse tão trágico.

    ResponderExcluir

Por favor, evite o anonimato! Mesmo que opte pelo botãozinho "Anônimo", escreva o seu nome no final do seu comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente.
Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-