segunda-feira, 8 de outubro de 2018

A transição necessária

Carina Bratt

A morte, ao contrário do que todos pensam, ou imaginam, não é o fim. Sempre restará, no pensar de Ambrose Bierse, “a briga acirrada pelo que o defunto passou a vida toda correndo atrás”.

Viajar desta para melhor, com passagem só de ida, é como nascer de novo, só que em outro mundo ou ao contrário deste. Dizem os que já subiram para o andar de cima, após sepultura, não há preocupações com ônibus lotados, trens atrasados ou metros com pessoas deseducadas que não se levantam para oferecer os assentos para os idosos.

Eles, os finados, não têm preocupações com alimentação, dinheiro, moradia, político corrupto, relógio atrasado, novela chata, filme legendado, tevê em preto ou a cores. O mais importante em ser um “ser passado” é não se preocupar em morrer de novo. Por lá, todos são iguais perante a lei. Sem distinção de raça, sexo, credo religioso e outras baboseiras, questiúnculas que comumente tiram a tranquilidade e a paz de espírito dos que residem neste planeta.


Defunto que se preza, não precisa de celular, tampouco perde tempo tentando ligar para algum amigo ou parente. A vida, do outro lado é justa. Perfeita, harmoniosa, linda, encantadoramente bela e serena. Mais até que a morte.

Com o falecimento cessam os problemas com os vivos. Percebam os que por aqui abundam procuram se livrar rapidinho dos que batem com as doze. Morreu, trata-se logo de manda-lo para o cemitério. Os mortos, mais educados e gentis, pouco se lixam se os vivos estão bem, passando necessidades ou se divertindo numa festinha em algum clube de periferia.

Os mortos são os folgados que não fazem nada, a não ser contar carneirinhos e ouvir CDs com músicas celestiais. Os vivos, como bem ensina o belga Maurice Maeterlinck, são criaturas que se preocupam em viver desfrutando de boas e excelentes férias. O futuro só a Deus pertence após transpor os sete palmos de terra fria no meio da fuça. 

O psiquiatra escocês Laig botou na cabeça que a vida é uma doença sexualmente transmissível que tem cem por cento de taxa de mortalidade. Laig morreu em face de ter perdido o direito de respirar quando ainda podia fazê-lo sem maiores consequências.

Morrer é como alguém inesperadamente, ou seja, um Mané apagar a lâmpada de um quarto sem saída e o cidadão ou a cidadã se pegar no escuro desse cubículo, sem saber para que lado seguir e, “mais mau”, desconhecer quem apertou o interruptor.

Por mais que se procure, em meio ao breu formado, não atinar, frente a frente, com quem lhe desproveu da cálida claridade. Qualquer um, nessa situação, com certeza, adoraria dar uns bons tabefes no engraçadinho. Nessa confusão toda, acreditem a coisa mais deprimente e degradante, não é o se sentir morto, parado, estático, sem poder se mexer, sem poder esticar as pernas, os braços, enfim... é não poder espantar as moscas e mandar os fofoqueiros de plantão calarem a boca.

Não poder, em igual sorte, participar dos choros e lamentações. De ter tempo para consolar a companheira que ficou enviuvada e sem seu cobertor de orelha. Não poder, mesmo norte, mandar o Ricardão baixar em outro terreiro e deixar de dar uma de padeiro e pretender amassar aquele corpinho que você tanto amou.

O ruim de morrer é não poder ir onde bem desejar. A merda toda é ficar a mercê de coveiros de caras enfezadas ou de não poder sair do carneiro para ir até o barzinho ali ao lado e beber uma cervejinha estupidamente gelada. Uma vez cadáver, o fedor é certo.

Nós somos a matéria-prima que encabeçará o futuro extinto. Por tudo o que aqui deixei posto, viva intensamente. Aproveite. Saia, se divirta, ame, se deixe ser amado, fuja dos problemas.

Lembre que não há cura para o fato de estarmos aqui. Depois de se juntar os pés, virar “de cujus”, usufruir de um caixãozinho de terceira, apertado, mal forrado, sem conforto, sem ar condicionado, sem água, sem um bom bife com batatas fritas, não se queixe, nem reclame por não ter aproveitado e usufruído desse belo intervalo que a vida lhe ofereceu de graça dentro de uma bandeja.
Título e Texto: Carina Bratt, Secretária e Assessora de Imprensa do Jornalista e Escritor Aparecido Raimundo de Souza. De Vila Velha, no Espírito Santo. 8-10-2018

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