sábado, 20 de outubro de 2018

O arauto da revolta popular

Jaime Nogueira Pinto


Rejeição. Não é, por enquanto, senão isso. Não pelos reacionários, pelos latifundiários, pelos generais golpistas, pelos fascistas declarados ou encapotados, mas pelo povo brasileiro, que vota agora contra a esquerda dita idealista - e notoriamente irrealista quanto à natureza humana (sobretudo à própria) - que montou um "mecanismo" de enriquecimento ilícito e de perpetuação no poder digno dos piores hábitos do coronelismo e do caciquismo que os seus antepassados ideológicos, de Josué de Castro a Celso Furtado, tanto criticaram. Um povo zangado, enganado, roubado, manipulado pelos fariseus da tolerância, dos direitos humanos e das flores de retórica do melhor dos mundos, pelos donos de tudo - do pensamento único aos recursos do Estado.

Nas suas delirantes interpretações do voto Bolsonaro, incapazes de admitir que o voto também é popular e que boa parte do povo brasileiro - pobre, favelada, trabalhadora - votou nele, os comentadores de serviço dizem que o voto é das elites que não querem perder privilégios (ficamos assim a saber que 47% dos brasileiros são privilegiados). Ou então que se trata de um povo que o colonialismo e a ditadura militar condenaram à ignorância, um povo manipulável pela religião e pelas fake news de redes sociais financiadas por conspiradores internacionais (sempre de direita e nunca de esquerda). Isto sem que a total isenção dos grandes media, bem como a sua proverbial independência de interesses econômicos e de pressões políticas, saiam beliscadas; ou como se a ideologia por eles propagada não igualasse em zelo e em interditos a mais fundamentalista das religiões. Dizem ainda que o PT, que estava muito bem a distribuir recursos, a libertar o povo e a emancipar minorias, foi vítima da perseguição insana de um poder judicial reacionário ao serviço da CIA e "dos americanos" (que terão encontrado na luta contra a corrupção um pretexto para intervir no Brasil) e do "populismo penal" do Lúmpen que semelhante cabala desencadeou. Dizem muita coisa.

Esta esquerda, que há muito se habituou a condicionar as cabeças e os corações dos eleitores, controla o léxico da comunicação, continuando a distribuir qualificativos destinados a acordar fantasmas de tiranias passadas (só as "fascistas") e a toldar a dura realidade das presentes tiranias. Mas se ainda domina nos grandes media, na Academia e até nas Artes, perdeu o domínio do povo. E é isso que lhe dói: deixar de controlar o que deve ouvir, ver, pensar e escolher "o povo".

Estabelecida no poder e corrompida por ele, sem o controlo da nova "rua" ou das novas formas de dissidência, alienada do povo e das suas velhas causas, esta esquerda arrogante, decadente mas habituada a ser campeã da revolta e do progresso, vê-se agora subitamente ancien regime, ortodoxia contra a qual lutam os novos insubmissos e os novos "danados da terra". E é ela que censura e policia o discurso; é ela que rasga as vestes e se escandaliza e se ruboriza com as blasfémias, as barbaridades e as imoralidades proferidas pelos líderes selváticos que o povo, ou parte dele, sem outra escolha, resolve levar em ombros.

Desde 2016 que o sistema estabelecido começou a sofrer derrotas. Por sistema estabelecido entenda-se uma espécie de hipercapitalismo financeiro, burocrático e global, combinado com os novos e coloridos direitos humanos, animais e planetários de uma esquerda que parece ter desistido do velho e humilde "feijão com arroz" para impor ao(s) gênero(s) humano(s) o seu novo cardápio gourmet.

O denominador comum da revolta popular e das alternativas escolhidas é a rejeição do que está, sem medo de correr riscos na alternativa. Por isso, como em todas as revoltas e em todas as revoluções, as escolhas recaem sobre personalidades extremas, como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Que podem não ser uns santos varões, que podem não ser cruzados do novo humanismo, que podem dizer coisas chocantes ou até aviltantes, mas que têm a grande vantagem de não ser nem Hillary Clinton nem Fernando Hadadd, representantes de um sistema oligárquico adocicado pela retórica de quem tira milhões da pobreza... para os pôr na Suíça.

Os pobres honestos do Brasil - que são a maioria - são os mais expostos à brutalidade das máfias que dominam os bairros periféricos e ao crime desorganizado das violações, dos homicídios, do terror cleptocrático. Com mais de 62 mil homicídios em 2016, não admira que os brasileiros queiram mão dura sobre os criminosos. E para os que não vivem em condomínios de luxo nem têm segurança privada, essa mão dura terá necessariamente de vir do Estado e da polícia.

Estes dois fatores - a corrupção de todos, mas sobretudo do PT e a segurança - são sem dúvida os que, pela negativa, penalizam os partidos clássicos e favorecem Bolsonaro. Mas há também fatores que, pela positiva, o favorecem: a afirmação da nação e do seu valor central na equação política e a campanha cultural pelos valores religiosos e familiares contra a pressão intimidatória dos ativistas dos mil "gêneros", que querem transformar uma legítima campanha pelas liberdades e direitos de minorias sexuais numa missionação apostada em elevar a regra condições, opções e costumes minoritários.

A esquerda radical e o centro moderado não têm de se queixar: a arrogância, a impunidade e a agressividade de uns e a cobardia cúmplice de outros, a corrupção ou a tolerância à corrupção de todos e, sobretudo, a hipocrisia levaram o povo brasileiro ao desespero e à revolta. Esse desespero e essa revolta encontraram voz num inesperado arauto: Jair Bolsonaro, 17.
Título e Texto: João Nogueira Pinto, professor universitário e autor, Diário de Notícias, 19-10-2018

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