domingo, 6 de janeiro de 2019

[As danações de Carina] Festa imprevista

Carina Bratt

Dizem a boca escancarada e cheia de dentes, que o “Seguro morreu de velho”. Não acredito nesta hipótese, até porque, ninguém sabe precisar a idade exata do falecido. Se de fato, o senhor Seguro morreu velho, não partiu do nosso meio com menos de vinte ou trinta. A coisa é tão certa como no dizer de Caetano Veloso, “dois e dois são cinco”.

Com vinte, ou trinta, o Seguro seria moço demais e não um idoso na acepção literal da palavra. Vamos supor que fosse aos setenta. Ou oitenta.  Também um desacerto, um disparate, uma asneirice sem tamanho. Na ponta da pistola pronta para atirar, se levarmos em conta a vida do brasileiro, ou a tal sobrevida, tem gente por aí com mais de cem. No papo dos anos, a mentira é o caminho que engana o tempo.

Meu tatatatatataravô, por exemplo, partiu para as nuvens celestes com quinhentos e dois.  Apesar destes janeiros nas costas, não havia um dia que deixasse de correr cinquenta quilômetros na Praia de Ipanema. Comentavam que vinte e cinco de ida e vinte e cinco de volta. Diziam mais, notadamente os que o conheceram e conviveram com ele, atrás de uma garota.

Garota? Na idade dele? Que garota faria um senhorzinho correr assim?! Ainda que ele fizesse parte de um ritual combinado com o Eterno... ah, tá legal, eu conto. A garota era a de Ipanema, logicamente meu parente tatatatatataravozado se dava muito bem com o seu conterrâneo Tom Jobim. 

Danilo Gentili, num de seus programas, o tal “The Noite”, exibido pelo SBT, disse recentemente que o “Seguro morreu de acidente”. Não lembro (e me corrijam se estiver errada) ter lido algo a respeito. Se o Seguro tivesse morrido de acidente, daria IBOPE.

Passaria em todos os noticiários, inclusive no Jornal Nacional. Bonner não deixaria um “furo” destes passar em branco. Seria realmente um furo. Um rombo maior que o provocado no casco do Titanic, antes mesmo de ele estar nos sonhos secretos de Joseph Bruce Ismay.

O Seguro não é um bosta qualquer, um Mané sem eira nem beira. Não vive de azaração. Não paga mico. O Seguro é importante, todo mundo sabe disto. A galera, em peso, corre atrás dele, feito o diabo da cruz. Até paga uma boa grana mensalmente para ter a sua proteção vinte e quatro horas.  

Em Brasília, no circo armado da posse do novo governo (para quem teve o desprazer de assistir), o Seguro estava por toda parte. Dos seus olhos crepitavam labaredas fumegantes. Havia um Seguro de tocaia, como um estandarte vigiando outro Seguro.

Espreitando para que este não ficasse dessegurado, ou pior, DESASSEGURADO.  Bato o pé quando digo que o Danilo Gentili não foi nem um pouco gentile em ter espalhado por aí que o “Seguro morreu de acidente”.

Ainda que hipoteticamente fosse verdade, que tipo de acidente? Aéreo? De carro, de ônibus? De moto? De lambreta? Atropelado? Vítima de bala perdida? Claro que existem os contra. O Seguro, dizem eles, é um risco. Risco anunciado. É doloso, irresoluto, indeciso, ineficiente, infiel, às vezes titubeante, a tal impertinência de deixar alguém famoso levar uma facada do nada.

“Mais mau”, nisto, taxar, como taxaram, a coisa como “ATENTADO”. Seria mais bonito e digerível rotular como uma agressão, uma investida, uma insolência. Mas atentado... vamos e convenhamos, conversa pra elefante dormir e roncar. Observando a coisa por outra ótica, quem deu a facada igualmente se viu assegurado pela lei.

Esqueceram? O cidadão da facada conseguiu arrebanhar proeminentes advogados, pelo menos para deixar registrado que o Seguro, embora seja, às vezes displicente, protege os seis lados.  Segundo “a lêndia”, seguro que se preza, e tem nome a zelar, não nos deixaria assim, num espirro, tampouco se tomasse um susto, vítima de briga de cachorros numa esquina de nossa bela e aconchegante cidade.

A pergunta que gostaria de deixar suspensa, como os jardins babilônicos da Casa da Dinda frenteada com o Lago Norte na capital do país: será que o Seguro vive com um olho na missa e outro no padre?  É um sujeito sério? Não correria da Raia, acaso ela aparecesse com dois celulares nas mãos e o Edson a tiracolo?

Estaria o Seguro em cima do muro, como um corvo de mau agouro? Seguro, até onde sei, não trepa em muro. Vive aos acordes dos enredos. Li numa revista francesa que o Seguro tem parentesco com gato.

Seria “acasoamente” com o bichano preto do Sétimo Guardião da trama das vinte e uma horas da emissora dos Marinhos? – O que mais me intriga nesta pergunta: por que gato? Possivelmente em face da consanguinidade com a cantora e compositora canadense Alanis Morissette.

Alanis bateu com as doze sete vezes. E retornou sem um arranhão. Se ela resolvesse comer capim pela raiz de novo, sem azeite, vinagre e sal, tipo o Seguro que ela paga rigorosamente em dia, cobriria a sua ida definitiva para a terra santa dos pés juntos?!  Depende da seguradora. Não propriamente do vendedor, ou corretor, mas da seguradora.

Quanta bobeira, meu Deus! Falei, divaguei, esperneei... contudo não expliquei os motivos a que vim. Nada de concreto. Direi agora. O Seguro, foco do texto, não morreu de velho, nem de acidente, nem caiu de cima do muro.  O Seguro não perde a vida, a cor, o brilho, a pose, a postura, a estrela. É imorredouro. Isto é perfeito, tanto quanto os lados de um triângulo escaleno são iguais.

Idênticos, a bem da verdade, porque a área de circunferência quadrada da pirâmide é o dobro do raio que o parta. Fiz me entender? “Escrevinhado” de forma mais coerente. É imorredouro, como os imortais de qualquer academia, ainda que esta associação não seja de letras.

Ao comprido estafante das tristezas e dissabores do dia a dia, o cotidiano do senhor Seguro se reveste de um heroísmo à moda Super-Homem. Bastou precisar dele, para vê-lo escapar por entre os dedos, voando por aí. Pela janela. De preferência, a criatura costuma pular de um prédio extremamente alto.

O morcego Batman, coitado, com seu sofisticado Batmóvel a trezentos por hora, não conseguiria se colocar em seus rastros, ainda que fustigasse os calcanhares até sangrarem.

O certo é que o recado que eu queria dar, se funda (não na funda com a qual Sansão não matou um leão) num pequeno e quase insignificante empecilho. Moramos no Brasil. O Brasil é uma Gothan City onde prevalecem os mais altos índices de criminalidade do mundo.

Além dos ladrões que precisamos nos esquivar deles o ano inteiro, quando deixamos a sutileza de nossas casas, ou topamos com uma centena de vilões, os mais cabeludos e endiabrados.

Entre eles, o ex-cachaceiro louco, o Coringa (quem seria o Coringa de agora?), o Charada (quem você batizaria neste momento como o Charada da vez?), e claro, as kikikikikiki... as eternas Arlequinas e etc. etc. etc. Em resumo, nesta maçaroca toda, nesta porção de fios enrolados prefiro ficar com o pensamento vivo do gaúcho Mário Quintana.

“O Seguro – na visão dele - morreu de guarda-chuva”. O resto são ablepsias e desvairamentos obsessivos de uma jovem senhorita que não tem nada, absolutamente nada a fazer. A não ser, danar.
Título e Texto: Carina Bratt, São Paulo Capital, 6-1-2019

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3 comentários:

  1. Prezada Carina ,

    Parabéns , pelo texto ,ficticio ,bem humorado , com toques de " non sense",
    como o extraido à seguir;

    "Vamos supor que fosse aos setenta. Ou oitenta, …”,” Na ponta da pistola pronta para atirar..."

    Isto dá nova esperança á nós todos, que já,digamos, perderam o “trato com a coisa” , e ficaramos só na saudade!
    Sei que a maioria dos leitores “veteranos” vai se indignar dizendo “eu não!”, mas estamos na fase em que se abandona a prática e passamos para a teoria.
    Ou seja abandonamos o esporte ,mas insistimos em ficar na ativa!
    Pelo menos como treinadores!
    Trocamos a “prática” e a substituímos por um bom livro!
    E como cantado em versos pelo mundo afora, confirma-se que a garota de ipanema era “aficionada” , e com um gosto por sexo geriátrico , não bastassem Vinicius e Jobim ,"cercava" todos velhinhos sapecas de Ipanema!
    Como seu tatatataravô!

    Para os “mais vividos’ é um deleite , porque amor com velha...é como comer bife de da semana passada!

    RSRSRS


    paizote

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  2. Carina, você a cada dia me surpreende. Talvez o amor da sua vida começe com a letra EUZINHO. Que Gadu te guarde e esqueça onde. Às vezes penso que você será a minha fortaleza. Ceará??!!

    Aparecido Raimundo de Souza, de Fortaleza, no Ceará.

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  3. Ah... entendi. Você não quis começar porque o meu começe foi assim e não assim. Juro que coloquei esse começe para ser um comece diferente, igualmente a letrinha EUZINHO. Como você não respondeu, magoei!

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