quarta-feira, 31 de julho de 2019

Sucesso e ressentimento

Jordan B. Peterson

Jordan B. Peterson

Se você ler os psicólogos analíticos – Freud e Jung, por exemplo, assim como seu precursor, Friedrich Nietzsche –, aprenderá que há um lado sombrio em tudo. Freud investigou profundamente o conteúdo latente e implícito dos sonhos, que geralmente pretendiam, em sua opinião, exprimir algum desejo inadequado. Jung acreditava que todo ato de adequação social era acompanhado por seu gêmeo mal, sua sombra inconsciente. Nietzsche investigou o papel desempenhado pelo que ele chamou de ressentimento na motivação de ações ostensivamente egoístas – e, frequentemente, exibidas publicamente.

Seja o homem salvo da vingança; é esta para mim a ponte da esperança superior, e um arco-íris anuncia grandes tormentas. As tarântulas, todavia, compreendem de outra forma. “Justamente quando as tempestades de nossa vingança enchem o mundo, é quando nós dizemos que há justiça.” Assim falam elas entre si. “Queremos executar nossa vingança e lançar nossos ultrajes sobre todos os que não são semelhantes a nós outras.” Isso juram entre si as tarântulas. E acrescentam: “Vontade de igualdade, isto será daqui por diante o nome da virtude, e queremos o grito contra tudo que é poderoso!” Sacerdotes da igualdade: a tirânica loucura da vossa impotência reclama em brados a “igualdade”, por detrás das palavras de virtudes esconde-se a vossa mais secreta concupiscência de tiranos! (N.T.: Trecho extraído do livro Assim falava Zaratustra. Grandes obras de Nietzsche. Nietzsche, Friedrich. Tradução de José Mendes de Souza – 2ª edição – Editora Nova Fronteira.)

O incomparável escritor inglês George Orwell conhecia muito o tema. Em 1937, escreveu Caminho para Wigan Pier, que em parte fazia um mordaz ataque aos socialistas de classe alta na Inglaterra (apesar de ele mesmo ser inclinado ao socialismo). Na primeira metade do livro, Orwell retrata as terríveis condições enfrentadas pelos mineradores britânicos na década de 1930.

Vários dentistas já me disseram que, nas regiões industriais, pessoas com mais de trinta anos que ainda conservam seus dentes estão se tornando uma raridade. Em Wigan várias pessoas me disseram que o melhor é “se livrar” dos dentes o mais cedo possível. “Os dente é só sofrimento”, me disse uma mulher. (N. T.: Trecho extraído do livro O Caminho para Wigan Pier. Orwell, George. Tradução de Isa Mara Lando. Editora Companhia das Letras).

Um minerador de carvão de Wigan Pier tinha que caminhar – rastejar seria a palavra mais adequada – até quase 5km debaixo da terra, no escuro, batendo a cabeça e ralando as costas, apenas para chegar ao seu local de trabalho para o turno de sete horas e meio de trabalho extenuante. Depois disso, ele rastejava de volta. “Isso pode ser comparado, talvez, a escalar uma pequena montanha antes e depois de sua jornada de trabalho”, declarou Orwell. Esse tempo gasto rastejando não era remunerado.

Orwell escreveu O Caminho para Wigan Pier para o Left Book Club, uma editora socialista que lançava um volume escolhido por mês. Depois de ler a primeira metade do livro, que trata diretamente das circunstâncias pessoais dos mineradores, é impossível não sentir compaixão pelos pobres trabalhadores. Somente um monstro seria capaz de não se apiedar depois dos relatos de vida descritos por Orwell:

Não faz muito tempo, as condições das minas eram piores do que hoje. Ainda estão vivas algumas mulheres muito velhas que na juventude trabalhavam nas galerias subterrâneas com um arreio amarrado na cintura e uma corrente que passava entre as pernas, avançando de joelhos, puxando vagonetes de carvão. E faziam isso até quando estavam grávidas.

Na segunda metade do livro, porém, Orwell muda seu foco para um problema distinto: a relativa impopularidade do socialismo no Reino Unido na época, apesar da clara e dolorosa desigualdade vista por toda parte. Ele concluiu que os tipos de reformistas sociais em suas roupas de tweed, filosofando no sofá, identificando vítimas e distribuindo pena e desprezo, frequentemente não gostavam dos pobres, como alegavam.

Em vez disso, eles apenas odiavam os ricos. Eles disfarçavam seu ressentimento e inveja com piedade, hipocrisia e falso moralismo. As coisas no inconsciente – ou no âmbito socialista da distribuição da justiça social – não mudaram muito hoje. Por causa de Freud, Jung, Nietzsche – e Orwell – sempre penso: “Contra o que, então, você se opõe?” sempre que ouço alguém dizendo bem alto: “Eu apoio isso!” A pergunta parece especialmente relevante se a mesma pessoa está reclamando, criticando ou tentando mudar o comportamento de outra.

Creio que foi Jung quem elaborou a máxima psicanalítica mais cirurgicamente ferina: se você não é capaz de entender por que alguém fez alguma coisa, observe as consequências – e infira a motivação. Isso é um bisturi psicológico. Nem sempre é um instrumento adequado. Ele pode cortar fundo demais, ou nos lugares errados. Talvez seja uma opção de último recurso. No entanto, há ocasiões em que sua aplicação se prova esclarecedora.

Se as consequências da instalação de skatestoppers nos canteiros de plantas e nas bases das esculturas, por exemplo, são rapazes adolescentes infelizes e uma estética brutalista de desconsideração da beleza, então talvez esse tenha sido o objetivo. Quando alguém alega estar agindo movido pelos princípios mais elevados, pelo bem dos outros, não há razões para presumir que os motivos daquela pessoa sejam genuínos. Pessoas motivadas a tornar as coisas melhores normalmente não estão preocupadas em mudar outras pessoas – ou, se estão, assumem a responsabilidade de fazer as mesmas mudanças em si (e primeiro). Por trás dessa elaboração de regras para impedir que os skatistas pratiquem coisas de altíssima habilidade, corajosas e perigosas, vejo a atuação de um espírito insidioso e profundamente anti-humano.
Título e Texto: Jordan B. Peterson, “12 regras para a vida”, páginas 298, 299 e 300. Alta Books Editora.
Digitação: JP, 31-7-2019

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