quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

[Livros & Leituras] Jordan B. Peterson: “12 regras para a vida”

Comecei a ler... vou gostar!

Do prefácio de Norman Doidge:

“(...)
Ideologias são ideias simples, disfarçadas de ciência ou filosofia, que pretendem explicar a complexidade do mundo e oferecer soluções para aperfeiçoá-lo. Os ideólogos são pessoas que fingem saber como “fazer um mundo melhor” antes de organizarem o próprio caos interior. (A identidade de guerreiro outorgada por sua ideologia encobre esse caos.) Isso é arrogância, é claro, e um dos temas mais importantes deste livro é “arrume sua casa primeiro”, para o que Jordan fornece conselhos práticos.

As ideologias substituem o conhecimento verdadeiro, e os ideólogos são sempre perigosos quando ganham poder, pois um comportamento simplista e sabe-tudo não é páreo para a complexidade da existência. Além disso, quando suas engenhocas sociais não funcionam, os ideólogos não culpam a si mesmos, mas a todos que desmascaram suas simplificações.

Outro grande professor da Universidade de Toronto, Lewis Feuer, em seu livro Ideology and the Ideologists [“A deologia e os Ideólogos”, em tradução livre], observou que os ideólogos reestruturam as mesmas histórias religiosas que julgavam capazes de suplantar, mas eliminam a narrativa e a riqueza psicológica.

Tal qual o Comunismo, uma história emprestada dos Filhos de Israel no Egito, com uma classe escravizada, perseguidores ricos, um líder, como Lenin, que vai ao exterior, vive com os escravizadores e então guia os escravizados à terra prometida (a utopia; a ditadura do proletariado).

Para entender a ideologia, Jordan leu extensivamente não apenas sobre o gulag soviético, mas também sobre o Holocausto e a ascensão do Nazismo.

Eu nunca havia conhecido alguém que, nascido cristão e de minha geração, fosse tão completamente atormentado pelo que aconteceu com os judeus na Europa e que houvesse se esforçado tanto para entender como isso pôde ocorrer. Eu também havia estudado com essa profundidade. Meu próprio pai sobreviveu a Auschwitz.

Minha avó estava na meia-idade quando ficou face a face com o Dr. Josef Mengele, o médico nazista que conduziu experimentos indescritivelmente cruéis em suas vítimas, e ela sobreviveu a Auschwitz ao desobedecer à sua ordem para entrar na fila com os mais velhos, grisalhos e fracos, e, em vez disso, enfiou-se na fila dos mais jovens.

Ela escapou das câmaras de gás uma segunda vez ao negociar comida por tintura de cabelo, para que não fosse morta por aparentar ser muito velha.

Meu avô, o marido dela, sobreviveu ao campo de concentração Mauthausen, mas morreu engasgado com o primeiro pedaço de comida sólida que recebeu bem próximo do dia da libertação.

Conto isso pois, muitos anos após termos nos tornado amigos, quando Jordan assumiu uma posição liberal clássica a favor da liberdade de expressão foi acusado pelos extremistas de esquerda de ser um fanático de direita.

Permita-me dizer, com todo o cuidado possível: no mínimo, mínimo, esses acusadores simplesmente não fizeram seu dever de casa. Eu fiz. Com um histórico familiar como o meu, qualquer um desenvolve não apenas um radar, mas um sonar subaquático que detecta o fanatismo de direita; mas, ainda mais importante, aprende a reconhecer o tipo de pessoa com compreensão, ferramentas, boa vontade e coragem para combatê-lo, e Jordan Peterson é essa pessoa.
(...)”

Do primeiro capítulo:

“(...)
PÁSSAROS — E TERRITÓRIO
Meu pai e eu fizemos uma casinha para as cambaxirras quando eu tinha dez anos. Parecia uma carroça coberta, e tinha a entrada principal do tamanho de uma moeda. Com isso, tínhamos uma casinha boa para as cambaxirras, que são pequeninas, mas nada boa para os pássaros maiores, que não conseguiam entrar.

Foto: João Pedro Caminha

Minha vizinha, uma senhora idosa, também tinha uma casinha de pássaros, que havíamos feito para ela naquela mesma época usando uma velha bota de borracha. Tinha uma abertura grande o suficiente para um pássaro do tamanho do pintarroxo. Ela esperava ansiosa pelo dia em que a casa seria ocupada.

Um dia, uma cambaxirra descobriu nossa casinha e ali fez seu lar. Podíamos ouvir seu canto longo, vibrante e contínuo durante o início da primavera. No entanto, depois que havia construído seu ninho na carroça coberta, nossa nova inquilina aviária começou a carregar pequenos gravetos para a bota da nossa vizinha. Ela a encheu com gravetos de modo que nenhum outro pássaro, grande ou pequeno, conseguisse entrar.

Nossa vizinha não gostou dessa atitude preventiva, mas não havia nada que pudesse fazer. “Se tirarmos a casinha”, disse meu pai, “limparmos e a colocarmos de volta na árvore, a cambaxirra vai enchê-la de gravetos novamente”.

As cambaxirras são pequenas e lindinhas, mas impiedosas.

No inverno anterior eu havia quebrado minha perna esquiando — tinha sido minha primeira vez esquiando morro abaixo — e recebido um dinheiro de um seguro escolar destinado a recompensar crianças sem sorte e desastradas. Comprei um gravador de fita cassete (uma tecnologia de ponta na época) com o dinheiro. Meu pai me deu a sugestão de ficar sentado no jardim e gravar o canto da cambaxirra, e depois tocar a gravação e ver o que aconteceria. Lá fui eu sob os belos raios do sol da primavera e gravei alguns minutos da cambaxirra soltando seu clamor furioso pelo seu território através da música. Então, fiz com que ela escutasse a própria voz. Aquele passarinho, um terço do tamanho de um pardal, começou a atacar o toca-fitas e a mim, investindo para frente e para trás a centímetros da caixa de som.

Vimos esse tipo de comportamento várias vezes, mesmo sem o gravador. Se algum pássaro maior sequer ousasse sentar e descansar em qualquer uma das árvores perto da nossa casinha de pássaros, havia uma boa chance de que fosse abatido do seu poleiro por uma cambaxirra kamikaze.

Ora, cambaxirras e lagostas são muito diferentes. As lagostas não voam, cantam ou se empoleiram. As cambaxirras têm penas, e não cascas duras. Elas não podem respirar embaixo d´água e quase nunca são servidas com manteiga. No entanto, são similares de maneiras importantes. Ambas são obcecadas por status e posição, por exemplo, como muitas outras criaturas.

O zoólogo e psicólogo comparativo norueguês Thorlief Schjelderup-Ebbe observou (em 1921) que mesmo as galinhas comuns de quintal estabeleciam uma “hierarquia”. A determinação de Quem é Quem no mundo das galinhas tem implicações importantes para a sobrevivência de cada uma das aves, especialmente em tempos de escassez. As aves que sempre têm acesso prioritário a qualquer comida que for jogada no solo pela manhã são as galinhas celebridades.

Depois delas, vêm as do banco de reservas, as bajuladoras e as aspirantes. Então, vêm as de terceira classe e assim por diante, até chegarem as miseráveis, feridas e quase depenadas que ocupam a camada mais baixa e desprezível da hierarquia.

As galinhas, assim como as pessoas da cidade, vivem em comunidade. Os pássaros, como a cambaxirra, não, mas ainda habitam uma hierarquia de dominância. Ela apenas está espalhada em uma área maior.

Os pássaros mais astutos, fortes, saudáveis e afortunados ocupam o território nobre e o defendem. Por causa disso, há uma chance maior de que atraiam parceiras de alta qualidade para gerarem uma ninhada de filhotes que vai sobreviver e crescer. Estar protegido do vento, da chuva e de predadores, assim como ter acesso fácil à alimentação melhor, proporciona uma existência muito menos estressante.

O território é importante, e há pouca diferença entre direitos de território e status social. Geralmente é uma questão de vida ou morte. Se uma doença aviária se espalhar em uma comunidade de pássaros bem estratificada, serão os pássaros menos dominantes e mais estressados, que ocupam os degraus mais baixos do mundo dos pássaros, que terão mais chances de adoecer e morrer.

Isso também vale para as comunidades humanas, quando os vírus aviários e outras doenças se espalham pelo planeta. Os pobres e debilitados sempre morrem primeiro e em maior número. Eles também são muito mais suscetíveis a doenças não infecciosas, como câncer, diabetes e doenças cardíacas. Como dizem, quando a aristocracia pega um resfriado, a classe trabalhadora morre de pneumonia.

Uma vez que o território é crucial e que os melhores locais são sempre mais escassos, a busca por território entre os animais produz o conflito. Por sua vez, o conflito acarreta outro problema: como ganhar ou perder sem que as partes discordantes incorram em grande perda. Esse último ponto é particularmente importante. Imagine que dois pássaros comecem uma disputa por uma área desejável para fazer seu ninho.

A interação pode facilmente se transformar em combate físico. Sob tais circunstâncias, eventualmente um pássaro vai ganhar, geralmente o maior — mas mesmo o vencedor pode sair ferido da luta. Isso significa que um terceiro pássaro, sem ferimentos, esperto e observador, pode oportunamente se apresentar e derrotar o vencedor, que agora está ferido. Com certeza isso é um mau negócio para os dois primeiros pássaros.”


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3 comentários:

  1. O LIVRO DEVE SER BOM, POIS O PRÓLOGO É EXCELENTE...
    Ideologias são ideias simples, disfarçadas de ciência ou filosofia, que pretendem explicar a complexidade do mundo e oferecer soluções para aperfeiçoá-lo. Os ideólogos são pessoas que fingem saber como “fazer um mundo melhor” antes de organizarem o próprio caos interior. (A identidade de guerreiro outorgada por sua ideologia encobre esse caos.) Isso é arrogância, é claro, e um dos temas mais importantes deste livro é “arrume sua casa primeiro”, para o que Jordan fornece conselhos práticos.

    As ideologias substituem o conhecimento verdadeiro, e os ideólogos são sempre perigosos quando ganham poder, pois um comportamento simplista e sabe-tudo não é páreo para a complexidade da existência. Além disso, quando suas engenhocas sociais não funcionam, os ideólogos não culpam a si mesmos, mas a todos que desmascaram suas simplificações.

    Outro grande professor da Universidade de Toronto, Lewis Feuer, em seu livro Ideology and the Ideologists [“A Ideologia e os Ideólogos”, em tradução livre], observou que os ideólogos reestruturam as mesmas histórias religiosas que julgavam capazes de suplantar, mas eliminam a narrativa e a riqueza psicológica.
    FUI...

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