terça-feira, 28 de agosto de 2018

Mussolini: o pai do fascismo e filho dileto do socialismo

Jonah Goldberg

A resposta reside no fato de que o fascismo nasceu de um ‘momento fascista’ da civilização ocidental, quando uma coalizão de intelectuais com denominações variadas – progressistas, comunistas, socialistas, e assim por diante – acreditou que a era da democracia liberal estava chegando ao fim.

Estava na hora de o homem deixar de lado os anacronismos – lei natural, religião tradicional, liberdade constitucional, capitalismo e coisas assim – e assumir a responsabilidade de refazer o mundo à sua própria imagem. Havia muito que Deus estava morto, e já passava da hora de o homem assumir Seu lugar.

Mussolini, um intelectual socialista durante toda a vida, era um guerreiro nessa cruzada, e seu fascismo, uma doutrina que ele criou a partir do mesmo material intelectual que Lenin e Trotsky usaram para criar as suas, foi um grande salto na direção da era da “experimentação” que varreria para longe todos os velhos dogmas e inauguraria uma nova época.

Isso era, em todos os aspectos significativos, um projeto de esquerda tal como entendemos o termo hoje, e assim era compreendido por Mussolini e também por seus admiradores e detratores.

Com frequência, ele declarava que o século XIX havia sido o século do liberalismo e que o século XX seria “o século do fascismo”. Somente examinando sua vida e seu legado é que podemos ver em que medida estava certo – e o quanto à esquerda se encontrava.

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Benito Amilcare Andrea Mussolini recebeu seu nome em homenagem a três heróis revolucionários. Benito – um nome espanhol, diferente do seu equivalente italiano, Benedetto – foi inspirado por Benito Juárez, o revolucionário mexicano que virou presidente e que não apenas derrubou o imperador Maximiliano, mas o mandou executar. Os outros dois nomes foram inspirados por hoje esquecidos heróis do anarquismo-socialismo, Amilcare Cipriani e Andrea Costa.

O pai de Mussolini, Alessandro, era um ferreiro e um socialista ardente com inclinação anarquista. Foi membro da Primeira Internacional, ao lado de Marx e Engels, e serviu no conselho socialista local. “O coração e a mente de Alessandro estavam sempre cheios e pulsantes de teorias socialistas”, registrou Mussolini. “Suas intensas simpatias misturavam-se a doutrinas e causas socialistas. Ele as discutia à noite com os amigos, e seus olhos enchiam-se de luz.” Em outras noites, o pai de Mussolini lia para ele passagens de O capital. Quando as pessoas da aldeia traziam os seus cavalos para ferrar na oficina de Alessandro, parte do pagamento era ouvir o ferreiro despejar suas teorias socialistas. Mussolini era um congênito agitador das massas. Aos 10 anos, o jovem Benito liderou um protesto contra sua escola por servir comida de má qualidade. No curso secundário, designava-se socialista, e aos 18 anos, quando trabalhava como professor substituto, tornou-se secretário de uma organização socialista e começou sua carreira como jornalista esquerdista.

Não há dúvida de que Mussolini herdou o ódio de seu pai pela religião tradicional, especialmente pela Igreja católica. (Seu irmão Arnaldo recebeu o nome em homenagem a Arnaldo de Brescia, um monge medieval executado em 1155 que era venerado como herói local por ter se rebelado contra a riqueza e os abusos da Igreja.) Quando Mussolini tinha 10 anos, os padres da sua escola tinham de arrastá-lo para a missa aos chutes e berros. Mais tarde, como estudante ativista na Suíça, granjeou fama por regularmente ofender devotos cristãos. Ele gostava, particularmente, de ridicularizar Jesus, descrevendo-o como um “judeu ignorante” e afirmando que, em comparação com Buda, era um pigmeu. Um de seus truques prediletos era desafiar Deus publicamente para que o fulminasse com a morte – se Ele existisse.

Retornando à Itália como um emergente jornalista socialista, repetidamente acusava os padres de torpeza moral, denunciava a Igreja das mais variadas maneiras e chegou mesmo a escrever um romance popular com cenas de violência sexual chamado Claudia Particella, a amante do cardeal, recheado de insinuações sexuais.

O desprezo nietzschiano de Mussolini pela “moralidade escrava” do cristianismo era tão apaixonado que ele tomou providências para expulsar os cristãos de todos os postos que ocupavam no socialismo italiano. Em 1910, por exemplo, num congresso socialista em Forli, ele apresentou e defendeu uma resolução segunda a qual a fé católica – ou qualquer outra denominação monoteísta – era incompatível com o socialismo, estabelecendo que qualquer socialista que praticasse uma religião ou mesmo a tolerasse em seus filhos deveria ser expulso do partido.

Mussolini exigia que os membros do partido renunciassem ao casamento religioso, ao batismo e a todos os outros rituais cristãos. Em 1913, escreveu outro livro contra a Igreja chamado Jan Hus, o honesto, contando a vida de Jan Hus, o herege nacionalista tcheco. Pode-se dizer que ali estavam as sementes do futuro fascismo de Mussolini.

O segundo grande tema na vida de Mussolini foi sexo. Aos 17 anos, em 1900, no mesmo ano em que se afiliou ao Partido Socialista, perdeu a virgindade com uma prostituta mais velha “que vertia gordura de porco por todas as partes de seu corpo”. Ela cobrou cinquenta centavos. Aos 18 anos, teve um caso com uma mulher cujo marido estava ausente, no serviço militar. Disse ele: “Eu a acostumei ao meu amor exclusivo e tirânico: ela me obedecia cegamente e me deixava dispor dela da forma que eu quisesse.” Gabando-se de ter tido cento e sessenta e nove amantes ao longo de sua carreira sexual, Mussolini também era, pelos padrões contemporâneos, um tipo de estuprador.”

De fato, ele foi um dos primeiros símbolos sexuais modernos, preparando o caminho para a deificação sexual de Che Guevara. A celebração propagandística do regime italiano em torno de sua “masculinidade” tem rendido mil seminários acadêmicos. Inúmeros intelectuais celebraram Mussolini como o representante ideal da nova era. Prezzolini escreveu sobre ele: “Este homem é um homem, e destaca-se ainda mais num mundo de meias figuras e consciências tão descartáveis como gomas-elásticas usadas.”

Leda Rafanelli, uma intelectual anarquista (que mais tarde dormiu com Mussolini), escreveu depois de ouvi-lo falar pela primeira vez: “Benito Mussolini... é o socialista dos tempos heroicos. Ele sente, ele ainda acredita, com um entusiasmo cheio de virilidade e força. Ele é um Homem.”

Mussolini cultivava a impressão de ser casado com todas as mulheres italianas. O investimento se provou rentável quando a Itália sofreu sanções por causa da invasão da Etiópia e Mussolini pediu aos italianos que doassem seu ouro para o Estado. Milhões enviaram suas alianças de casamento, duzentas e cinquenta mil mulheres somente em Roma.

Tampouco eram imunes a seu charme as senhoras da alta sociedade. Clementine Churchill havia ficado bastante seduzida por aqueles “belos olhos castanho-dourados, penetrantes” quando o encontrou em 1926. Ela ficou encantada quando ganhou dele uma foto autografada como lembrança. Lady Ivy Chamberlain, por sua vez, guardava sua braçadeira do Partido Fascista como recordação.

Em 1902, quando flertava com as esposas de outros homens, devia dinheiro, enfurecia as autoridades locais e estava se aproximando da idade de alistamento, Mussolini achou que seria sábio fugir da Itália para a Suíça, que era, na época, a Casablanca europeia para radicais socialistas e agitadores.

Ele tinha duas liras na carteira quando chegou, e, conforme escreveu a um amigo, o único metal que soava em seu bolso era um medalhão com a efígie de Karl Marx. Lá (na Suíça) ele se misturou com a previsível multidão de bolchevistas, socialistas e anarquistas, inclusive intelectuais como Angelica Balabanoff, filha de aristocratas ucranianos e velha amiga de Lenin. Mussolini e Angelica foram amigos durante décadas, até que ela se tornou a secretária do Comintern e ele virou um apóstata socialista, ou seja, um facista.

Título e Texto: Jonah Goldberg, in “Fascismo de esquerda – a história secreta do esquerdismo americano”, Editora Record, 2009, páginas 41 a 49.
Digitação: JP, agosto de 2018

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