segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Cinco a Zero


Maurício Barra
A apresentação política da gestão governativa que o Governo fez este fim-de-semana, enquadrado pelos grupos parlamentares do PSD e CDS, foi um dos mais excepcionais actos de comunicação do Governo desde que tomou posse. E aqui sou forçado a retirar a minha reiterada crítica sobre a insuficiente e deficiente comunicação do Governo tem tido com os portugueses.
Com esta acção colocou-se a ganhar cinco a zero no debate político. Vejamos.

COMUNICAÇÃO
A propriamente dita. Ultrapassou o handicap de um ano, com os ministros a serem esclarecedores sobre “o quê e o porquê” das suas políticas, falando directamente para os portugueses. A eficiência foi tanto mais notória quanto o foi a imediata contra-informação fabricada nos “sítios do costume”, ressuscitando o caso Relvas na tentativa de atenuar o impacto da comunicação.

IMAGEM
O tropeção táctico do Governo com a questão da TSU e do IMI foi ultrapassado, e parcialmente esquecido, pela capacidade de demonstrar que tem elasticidade política para procurar outras soluções dentro do caminho estreitíssimo que é o PAEF, e que o Tribunal Constitucional tornou ainda mais difícil de atravessar. Mesmo para quem, contrariado, vai sofrer as consequências do IRS e IMI, hoje é claro que não há alternativas óbvias neste momento dentro do quadro europeu.

CONSISTÊNCIA GOVERNATIVA
Juntar os grupos parlamentares do PSD e CDS numa acção comum, demonstrando uma unidade responsável perante a difícil situação que o país enfrenta, eliminou o conteúdo e retirou dos holofotes a campanha de Mário Soares (prestamente convidado por Maria Flor Pedroso para uma entrevista na RTPN “em cima do acontecimento”) e das outras “vozes” (adoro esta expressão do Expresso numa exibição canhestra não jornalística de “atirar barro à parede” para divulgar notícias sem consistência política) que davam seguimento à campanha iniciada no Público de que “ este Governo estava acabado “ e que o “Presidente tem de tomar conta disto “.

RENOVAÇÃO ESTRATÉGICA
Ao lançar o tema da “refundação”, o Primeiro-ministro comunica ao país que este orçamento para 2013 é um ponto de partida, não um ponto de chegada. Que este Governo não vai ser simplesmente os “fixers” do descalabro do anterior governa socialista. Demonstra que este Governo cumprirá o Programa de Ajustamento até ao momento em que terá a credibilidade suficiente para negociar novos parâmetros com o BCE e EU (o FMI, aparentemente, já está disposto a tal) que permitam a Portugal ressurgir com medidas efectivas de suporte ao investimento, criação de emprego e no suporte à importantíssima gestão política do desemprego.
Ao ter deixado “libertar a informação” de que o Governo vai negociar com a EU a permissão de que os novos investimentos possam ter um período de carência prolongado de redução do IRC para 10%, demonstrou-se com um exemplo o que é a “refundação”: é a criação de novos parâmetros que permitam libertar Portugal das regras negociadas em condições severas que resultaram da bancarrota que o anterior governo nos deixou.

LIDERANÇA POLÍTICA
Com o PS preso aos serôdios complexos ideológicos herdados do PREC de que não permitirá alterações constitucionais que ponham em causa o seu “estado social dos socialistas”, o Governo fica com o caminho livre para liderar politicamente esta questão no próximo futuro.
Porque a questão não é pôr em causa o Estado Social. É provar que o Estado Social dos Socialistas colocou Portugal na bancarrota e levou os portugueses à maior perca de rendimentos da sua história recente. E que os portugueses merecem e devem ter um Estado Social idêntico aos modelos europeus testados com sucesso, articulando a participação pública e privada, e proporcional à sua capacidade de criação de riqueza, libertando-os da asfixia taxativa que lhes retirou o conforto económico e pôs em causa a estabilidade das suas famílias. E que esse Estado Social deve ser eficiente e bem gerido “ para os portugueses”, sobretudo dos mais desprotegidos, e não em projectos “em nome dos portugueses” que serviram para a ocupação do Estado por parte de uma “nomenklatura” política, tal como o foi durante mais de 15 anos.
Título e Texto: Maurício Barra, Forte Apache, 29-10-2012

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