Cinco
anos de decisões que mexeram no tabuleiro, um Supremo em guerra interna e uma
campanha que desidrata. Faltava só uma desculpa. E ela acabou de ser
protocolada
Rogerio Pires
Ele citou a Romênia. Citou a sessão do
Supremo de dois dias antes, em que ministros associaram a crise do caso Master
a uma trama contra a democracia. E disse ter levado a preocupação a integrantes
do governo Trump.
Foi chamado de alarmista. De exilado
ressentido. De quem enxerga fantasma em tudo.
Seis dias depois, o fantasma ganhou
número de processo.
O que foi protocolado
Na quarta-feira, dia 23, a onze dias
do primeiro turno, a coligação de Lula, “Brasil Pronto pra Mais”, entrou no TSE
com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral contra Flávio Bolsonaro, o vice
Alfredo Gaspar e o próprio Eduardo. O processo é o de nº 0602222-72.2026.6.00.0000
e está com o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva.
A acusação é de abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação. A tese central é uma só: interferência estrangeira. Segundo a coligação, Flávio e Eduardo teriam transformado sanções, tarifas e ataques às urnas, articulados com autoridades americanas, em armas contra Lula.
Para sustentar isso, a ação cita a
Rockbridge Network, organização conservadora americana que tem o
vice-presidente JD Vance entre os fundadores e cujo articulador no Brasil,
segundo a petição, trabalha no comitê de Flávio em São Paulo. Cita um estudo sobre
terras raras, sob a suspeita de que o patrimônio mineral brasileiro estaria
sendo oferecido em troca de apoio eleitoral. E cita a fala de Flávio a
embaixadores sobre a origem das urnas e uma live de Eduardo com o consultor
argentino Fernando Cerimedo.
Os pedidos vêm em escada: depoimentos,
ofícios ao Itamaraty, à PF e às big techs e, depois, quebra dos sigilos
bancário e fiscal. No fim da escada, a cassação do registro ou do diploma de
Flávio e de Gaspar e a inelegibilidade de Flávio e Eduardo por oito anos.
No mesmo dia, o PT foi ao Supremo
pedir inquérito da Polícia Federal sobre “interferência estrangeira”, com
possibilidade de busca e apreensão na campanha de Flávio e na sede nacional do
PL. A base apresentada foram posts de perfis estrangeiros no X, publicados
entre 18 e 21 de setembro, favoráveis a Flávio. O próprio partido admite que
não conseguiu identificar quem pagou, e se houve algum pagamento por eles. A
campanha de Flávio diz desconhecer as publicações.
A receita que já funcionou uma vez
Quem acompanhou 2023 vai reconhecer os
ingredientes. Embaixadores. Desconfiança nas urnas. Uso de uma estrutura que
não pertence ao candidato. Foi com essa receita que o TSE tirou Jair Bolsonaro
da disputa.
Segundo o Conjur, a petição resgata
até a tese do 7 de Setembro de 2022, aquela em que o tribunal decidiu que abuso
de poder alcança também “o poder indevidamente apropriado por terceiro”. Foi o
argumento que condenou Braga Netto, que não tinha cargo público. Agora ele
reaparece para dizer que Flávio e Eduardo, sem cargo no Itamaraty, se
apropriaram da diplomacia brasileira.
O roteiro que eliminou o pai está
sendo reciclado para o filho.
O juiz com nome e sobrenome
O detalhe mais revelador, porém, não
está no conteúdo. Está no endereço.
O pedido de inquérito no Supremo não
foi sorteado. Foi pendurado num processo que já tinha relator: a ADPF 1178, uma
ação proposta em 2024 pelo Instituto Brasileiro de Mineração para impedir que
municípios processem empresas em tribunais no exterior. Mineração. Prefeituras.
Cortes estrangeiras. Nada que tenha a ver com urna ou campanha.
O relator é Flávio Dino, ex-ministro
da Justiça de Lula, indicado por ele ao Supremo. O gancho é uma decisão dele,
de agosto de 2025, que declarou sem efeito no Brasil atos unilaterais
estrangeiros. O PT quer estender essa tese à eleição. Segundo o blog de Caio
Junqueira, na CNN, a ideia dos governistas é justamente driblar o comando do
TSE, hoje nas mãos de Kassio Nunes Marques e André Mendonça, dois ministros que
não foram indicados pelo PT.
Bucareste, dezembro de 2024
Eduardo citou a Romênia por um motivo.
No dia 6 de dezembro de 2024, o
Tribunal Constitucional romeno anulou o primeiro turno da eleição presidencial,
vencido pelo candidato de direita Călin Georgescu com cerca de 23% dos votos.
Faltavam dois dias para o segundo turno. O fundamento foram relatórios de
inteligência sobre uma campanha coordenada no TikTok atribuída a um ator
estatal estrangeiro.
Milhões de romenos acordaram sabendo
que o voto deles não valia mais nada. Não houve tanque na rua. Houve um
acórdão.
O golpe do século XXI não precisa de
farda. Precisa de uma narrativa, de uma petição e de um tribunal disposto a
aceitá-la.
A régua que muda de lado
No mês de maio de 2025, em Nova York,
Luís Roberto Barroso contou que, quando presidia o TSE, pediu três vezes ao
governo americano declarações de apoio à democracia brasileira, uma delas ao
Departamento de Estado. E explicou: os militares brasileiros, disse ele, não
gostam de se indispor com os Estados Unidos.
O presidente da Justiça Eleitoral
buscou uma potência estrangeira para produzir efeito sobre as Forças Armadas do
próprio país, com Joe Biden na Casa Branca. Aquilo se chamou defesa da
democracia.
Hoje, com Donald Trump no poder,
aproximação com Washington virou motivo para cassar chapa. O ato é o mesmo.
Mudou quem se beneficia dele.
Um tribunal que já mexeu no tabuleiro
Nada disso nasce do zero. Em 2021, o
STF anulou as condenações de Lula por uma questão de competência e devolveu a
ele a urna. Em 2022, o TSE atuou como nunca na campanha, e na diplomação de
Lula o então corregedor Benedito Gonçalves foi flagrado dizendo “missão dada é
missão cumprida” a Alexandre de Moraes na cerimônia de posse de Lula. Barroso
soltou o “perdeu, mané” em Nova York e, depois, num evento da UNE, disse que
“derrotamos o Bolsonarismo”. Em 2023, veio a inelegibilidade de Jair. Em 2025,
a condenação a 27 anos e 3 meses e a prisão.
Cada uma das decisões formam um padrão
que o eleitor comum enxerga sem diploma em Direito: a Corte deixou de ser
árbitro e passou a ser jogador.
A Corte ferida
Só que 2026 trouxe algo novo. O
Supremo está sangrando.
Desde 1º de setembro, quando Mendonça
tornou público o relatório da PF sobre o celular de Daniel Vorcaro, dono do
Banco Master, a Corte vive a pior crise da sua história. Segundo a imprensa, o
material mostra mensagens do banqueiro para um contato salvo como Alexandre de
Moraes e indica que o ministro editou o contrato de cerca de R$ 131 milhões
entre o Master e o escritório da esposa, Viviane Barci. Dias Toffoli já tinha
deixado a relatoria em fevereiro, depois de reportagens sobre a empresa da
família e um resort ligado ao entorno de Vorcaro. Mensagens do mesmo celular
citam ainda pagamentos associados ao filho de Kassio Nunes Marques, que nega
qualquer serviço ao banco.
Na sessão de 15 de setembro,
transmitida ao vivo, houve bate-boca, impedimentos, suspeições e nenhuma
decisão. No dia 10, Lula já tinha ido ao SBT dizer que Fachin precisava “pegar
esse processo e trazer pra ele” e “colocar ordem na casa”. Um presidente candidato
dando nota, em rede nacional, ao presidente do Supremo.
Por que isso importa para o seu voto
De um lado, uma campanha que
desidrata. A maioria das pesquisas, mesmo com todas as suas tendências e vieses
já conhecidos, mostram Flávio numericamente à frente de Lula.
Do outro, um tribunal acuado, dividido
e com a credibilidade no chão, que precisa urgentemente voltar a vestir a capa
de guardião da democracia.
No meio, a narrativa que serve aos
dois ao mesmo tempo: a narrativa de ameaça estrangeira. Ela dá à campanha um
argumento para depois da urna. E dá à Corte um inimigo externo capaz de fazer o
país esquecer o Master.
Há ainda o TSE, que o PT tenta
contornar mas que vai julgar a ação contra a chapa de Flávio. Sua presidência
está nas mãos de Kassio, pressionado publicamente pelas mensagens do celular de
Vorcaro. Tribunal sob pressão é tribunal vulnerável, venha a pressão de onde
vier.
Eu não estou afirmando que a eleição
será anulada. Estou dizendo que o alerta de Eduardo deixou de ser especulação.
O manual existe, foi testado na Europa, e as primeiras páginas da versão
brasileira foram protocoladas ontem, com data, número e relator escolhido.
Nos próximos dias, eu vou observar
três coisas: a velocidade com que Dino tratar o pedido de inquérito, o
andamento da ação no TSE e, principalmente, se a expressão “interferência
estrangeira” começar a aparecer em decisões depois de 4 de outubro.
Os romenos descobriram tarde demais
que o voto pode ser desfeito sem um único tiro. Nós ainda temos dez dias para
prestar atenção.
Em 2026, o grande teste da República
talvez não seja a nossa controversa urna eletrônica. Talvez seja o que alguns
ministros estarão dispostos a fazer depois que ela for aberta.
Título, Imagem e Texto: Rogerio
Pires, Timeline,
25-9-2026, 12h10
“Sou seu irmão”: a amizade de Alcolumbre e Vorcaro
24-9-2026: Oeste sem filtro – Roberta Luchsinger determinou pagamentos a Lulinha + PT escolhe Dino para julgar “interferência estrangeira” nas eleições + Lula quer acabar com as bets para catar votos a dez dias do pleito
Ameaça de proibição das bets comprova: não é seguro investir no Brasil

Essas pesquisas novas expõem o fracasso do lulismo em conquistar a maioria absoluta depois de anos de governos petistas.
ResponderExcluirLula, que já deveria estar aposentado da política após condenações e o desastre econômico de seus mandatos anteriores, sobrevive graças ao ativismo judicial que o “descondenou”.
Flávio, apesar das críticas que se possa fazer ao sobrenome, representa a única alternativa real contra a volta do petismo gastador, corrupto e intervencionista.
O eleitor precisa rejeitar o populismo fiscal de Lula e apostar em quem ao menos critica o STF ativista.