sábado, 7 de novembro de 2026

«A ladainha da 'Frente Ampla'»


Marcelo Guterman

O advogado Miguel Reale Júnior se admira pelo fato de que “60 milhões de eleitores optaram por ter Flávio Bolsonaro como presidente, apesar da divulgação pelas redes sociais de quem ele era”. Assim, a seco, o nobre causídico atribui a totalidade dos votos em Flávio a uma preferência positiva, e não a uma ojeriza maior ao seu adversário. Da mesma forma, poderíamos dizer que “64 milhões de eleitores votaram em Lula, apesar da divulgação, pelas redes sociais, de quem ele era”, uma afirmação tão imprecisa e injusta quanto a primeira.

Reale Júnior cita uma conversa caricata entre “dois ricos rapazes” (claro, não poderia faltar esse toque de luta de classes em um texto de um monopolista do bem), pedindo a intervenção de Trump nas eleições, como se representasse o pensamento de 60 milhões de eleitores. Chega a ser triste o grau de indigência intelectual de uma figura pública tão importante.

Poderíamos, na mesma linha adotada pelo advogado, dizer que 64 milhões de eleitores sufragaram a tese de “golpe de Estado” no impeachment de Dilma Rousseff. Afinal, Lula e o PT nunca abdicaram dessa narrativa. Estaria o Reale Júnior de hoje apodando de golpista o Reale Júnior de 10 anos atrás ao votar em Lula? Obviamente não. O advogado ponderou prós e contras e optou, legitimamente, pelo voto no atual presidente, muito em função de seu adversário. Mas falta essa boa vontade a Reale Júnior, que coloca os 60 milhões de votos em Flávio no mesmo saco de maldades.

Mas o pior do artigo não é nem essa generalização preguiçosa. O pior é a ladainha da “frente ampla”. Lula, segundo o articulista, deveria governar com “a sociedade que saiu à ruas”. Ou seja, todos os que votaram no presidente, mesmo não sendo petistas. Parece reprise de filme ruim. Os artigos de opinião em 2022, logo após a vitória eleitoral de Lula, pregavam a mesmíssima coisa. É de se espantar que ainda reste alguma ilusão a homens inteligentes e experientes de que, dessa vez, poderia ser diferente.

Reale Júnior fez campanha e sufragou o nome de Lula nas urnas, com tudo o que isso significa. Não cabe a ninguém julgar o voto de ninguém, cada um vota com a sua consciência. Também não é verdade que o voto em um candidato impeça que se critique as ações do eleito. A crítica é direito originado da cidadania, não do voto. O que não dá é alimentar uma ilusão juvenil de que o candidato eleito não fará aquilo que dele se espera. Lula governará com o PT, só com o PT, e com vista exclusiva aos interesses do PT, como sempre fez. Esperar algo diferente chega a ser risível.

Imagem e Texto: Marcelo Guterman, Facebook, 7-11-2026, 11h

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