Marcelo Guterman
O advogado Miguel Reale Júnior se
admira pelo fato de que “60 milhões de eleitores optaram por ter Flávio
Bolsonaro como presidente, apesar da
divulgação pelas redes sociais de quem ele era”. Assim, a seco, o nobre
causídico atribui a totalidade dos votos em Flávio a uma preferência positiva,
e não a uma ojeriza maior ao seu adversário. Da mesma forma, poderíamos dizer
que “64 milhões de eleitores votaram em Lula, apesar da divulgação, pelas redes
sociais, de quem ele era”, uma afirmação tão imprecisa e injusta quanto a
primeira.
Reale Júnior cita uma conversa
caricata entre “dois ricos rapazes” (claro, não poderia faltar esse toque de
luta de classes em um texto de um monopolista do bem), pedindo a intervenção de
Trump nas eleições, como se representasse o pensamento de 60 milhões de
eleitores. Chega a ser triste o grau de indigência intelectual de uma figura
pública tão importante.
Poderíamos, na mesma linha adotada pelo advogado, dizer que 64 milhões de eleitores sufragaram a tese de “golpe de Estado” no impeachment de Dilma Rousseff. Afinal, Lula e o PT nunca abdicaram dessa narrativa. Estaria o Reale Júnior de hoje apodando de golpista o Reale Júnior de 10 anos atrás ao votar em Lula? Obviamente não. O advogado ponderou prós e contras e optou, legitimamente, pelo voto no atual presidente, muito em função de seu adversário. Mas falta essa boa vontade a Reale Júnior, que coloca os 60 milhões de votos em Flávio no mesmo saco de maldades.
Mas o pior do artigo não é nem essa
generalização preguiçosa. O pior é a ladainha da “frente ampla”. Lula, segundo
o articulista, deveria governar com “a sociedade que saiu à ruas”. Ou seja,
todos os que votaram no presidente, mesmo não sendo petistas. Parece reprise de
filme ruim. Os artigos de opinião em 2022, logo após a vitória eleitoral de
Lula, pregavam a mesmíssima coisa. É de se espantar que ainda reste alguma
ilusão a homens inteligentes e experientes de que, dessa vez, poderia ser
diferente.
Reale Júnior fez campanha e sufragou o
nome de Lula nas urnas, com tudo o que isso significa. Não cabe a ninguém
julgar o voto de ninguém, cada um vota com a sua consciência. Também não é
verdade que o voto em um candidato impeça que se critique as ações do eleito. A
crítica é direito originado da cidadania, não do voto. O que não dá é alimentar
uma ilusão juvenil de que o candidato eleito não fará aquilo que dele se
espera. Lula governará com o PT, só com o PT, e com vista exclusiva aos
interesses do PT, como sempre fez. Esperar algo diferente chega a ser risível.
Imagem e Texto: Marcelo
Guterman, Facebook,
7-11-2026, 11h
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