quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Das implicações epistemológicas da seleção natural

Vitor Grando
É talvez possível que o processo de seleção natural poderia selecionar mecanismos cognitivos confiáveis na produção de crenças verdadeiras em virtude de sua aparente vantagem em termos de adaptação e reprodução. Ao menos, isso seria possível em relação àquelas crenças que teriam valor adaptativo, isto é, crenças relativas à realidade física num sentido geral.

Charles Darwin

A dificuldade aumenta quando se abandona as restrições da realidade e das regras de indução lógica em nós embutidas pelo processo evolutivo de tentativa e erro em prol de especulações de natureza mais abstrata. A primeira conclusão que extrairíamos disso é que nossas especulações devem estar perfeitamente adequadas à realidade concreta. Isso por si só é um enorme problema para teses que pressuponham alguma forma de construtivismo social, afinal existe uma realidade concreta e nós fomos formados em contato direto com ela. A segunda conclusão é quanto à imprescindibilidade da adequação das nossas especulações às leis gerais da lógica e da matemática, o que privilegiaria a tradição da filosofia analítica em detrimento da filosofia continental.

Em sendo verdade que o processo de seleção natural nos formou de tal modo a termos crenças razoavelmente confiáveis em relação à realidade externa e ao método de raciocínio indutivo, disso podemos concluir que (1) a ciência natural é a forma mais adequada para se chegar ao que podemos chamar de conhecimento objetivo da verdade e (2) as ferramentas da ciência natural, como o raciocínio indutivo, devem servir de fundamento para as ciências de cunho mais especulativo. Não é sem razão que nas ciências humanas não faltam exemplos de teorias absurdas completamente desconectadas da realidade humana e que ensejaram verdadeiras catástrofes sociais: nossas faculdades cognitivas não foram criadas para essa forma de abstração.

A formação evolutiva de nossas crenças se deu em grande parte através da experiência empírica. As crenças coerentes com a experiência empírica tendem a favorecer a sobrevivência ao passo que as crenças que vão de encontro a ela tendem a inaptidão e, portanto, são eliminadas. Deste modo, as faculdades cognitivas humanas têm seu funcionamento excelente alcançado quando coerentes com a experiência humana e quando a levam em consideração. Junto disso vem nossa capacidade de raciocinar indutiva e dedutivamente, processos sem os quais nossa coerência com a realidade seria impossível. Em sendo assim, segue-se que a objetividade da experiência humana não pode ser desprezada, sob pena de adentrarmos um mundo para o qual nossas faculdades cognitivas não foram preparadas. 
Título e Texto: Vitor Grando, 18-11-2015

2 comentários:

  1. Belo texto... É fato, a teoria evolucionista de Darwin foi um marco na História do conhecimento humano. A partir daí explica-se muita coisa sobre a origem das espécies e do próprio homem. É claro, a teoria darwinista está em constante aperfeiçoamento com o aparecimento da ciência genética. Darwin se insere na filosofia analítica ou insular (Inglaterra) com forte apelo empírico e, portanto, demonstrável indutivamente a evolução dos seres vivos como tendo uma origem em comum. Cai, assim, por terra o criacionismo bíblico radical de que Deus criou todos os seres vivos como se encontram neste momento da História. Inclusive há estudos de cientistas de que a crença em Deus faz parte da evolução. O ser humano teria adquirido o gene divino em seu processo evolutivo... (confira Dean Hamer, neuroteologia, Dawkins, etc.)...
    Valdemar

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  2. Já foram encontradas bactérias com forma diferente de vida em meteoritos.
    Isso ninguém fala.
    A última descoberta é uma bactéria com 4 genomas independentes que se auto acostuma com qualquer ambiente produzindo outras bactérias com genomas diferentes e incompletos para formar nova espécie de vida.
    Ninguém fala porque isso prova veementemente que há vida diferente no universo, que não somos os únicos.
    Todas as formas de vida conhecidas até hoje — plantas, animais e micro-organismos — dependem de seis elementos químicos para construir as moléculas que compõem seus corpos:
    - oxigênio, hidrogênio, carbono, fósforo, enxofre e nitrogênio.
    A bactéria descoberta pela equipe de cientistas liderada por Felisa Wolfe-Simon, do Instituto de Pesquisa Geológica dos EUA e do Instituto de Astrobiologia da Nasa, é a primeira exceção à regra, substituindo o fósforo pela arsênio.

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