quarta-feira, 8 de março de 2017

A infantilidade anda à solta

Pedro Bazaliza

Por vezes vou-me questionando sobre as razões porque nestes tempos os nossos políticos de serviço insistem na ilusão e no vício como forma de condução dos assuntos sérios. Vejo pessoas com cabelos brancos, engravatados, uns com ares distintos e outros a acharem-se, professores universitários, semblantes graves, engenheiros sociais, resolutos, ministros, doutores, especialistas, vendedores de banha da cobra, sindicalistas, etc., a passarem sinais de que o crescimento económico é função da dimensão do coração de quem tem poder para decretar amanhãs que cantam a partir de um qualquer ministério. Olho para toda esta mole humana viciada, espessa e inerte, qual pedregulho intransponível, e não consigo entender como tantos que já deviam ter mais do que idade para ter juízo ainda aprovam e convivem com mentiras, esquemas, infantilidades, patranhas, malícias, e outras velhacarias ao serviço de uma quimera que não tem pernas para andar. Porquê?

Por não existir racionalidade que explique a inconsciência que nos querem vender, creio bem que é na ilusão que reside a explicação para o charco onde estes inúmeros batráquios chafurdam e brincam. Na impossibilidade de conviverem com a realidade sob pena de atraiçoarem os seus credos que falharam, os intérpretes de serviço servem-se de qualquer margem de manobra deixada pela sensatez para tentarem salvar o seu ego e acautelarem o tempo que lhes resta, numa clara atitude egoísta para com as gerações futuras.

Um caso revela bem a infantilidade de termos vendedores de ilusões como principais atores políticos. A inconsciência com que se aceita a diminuição do investimento e a subida acelerada dos juros com que nos financiamos por troca de benefícios imediatos sem garantias de continuidade, bem como a abdicação em empreender uma qualquer reforma, por mais urgente que ela seja, é prova que a tolice marca o ritmo. Este princípio, a que usualmente na vida privada associamos a pessoas mais vulneráveis e sem capacidade de discernimento, está em vigor na intelligentsia que se julga.

Outro caso, o da CGD, é revelador do mundo em que vivem os representantes de serviço. O amadorismo com que o assunto foi conduzido e o argumentário do chefe da banda para justificar todas as trapalhadas subsequentes diz bem sobre a impunidade reinante, aspecto típico de quem se sente livre como um passarinho para a prática de ilusionismo sem limites.

Temos ainda a gabarolice patética com que o distribuidor de amendoins cantou vitória sobre o crescimento de 1,4% para 2016 quando para um mesmo nível de crescimento em 2015 desdenhou o número. Mais uma vez praticou “poucochinho”, o que aliás vai sendo um clássico e bem revelador da falta de vergonha da peça. Estes contorcionismos com que se baba permitem-lhe achar-se um príncipe da política, e o silêncio cúmplice e agachado do resto da banda e o interesse vindo de além-fronteiras só lhe consolida o vício. Nada que não sirva de grande inspiração aos chicos espertos espalhados por aí.

E por fim, como aliás não poderia deixar de ser, temos o fatal consumo interno. Num país com uma escassez dramática de capital, endividado até ao pescoço, seja o Estado, Empresas ou Famílias, falar em consumo interno como fator dinamizador de crescimento económico num mercado de 10 milhões quando a taxa de poupança sobre o rendimento disponível é de cerca de 3,5% raia a loucura. Só uma grande dose de inconsciência não permite desafiar esta ilusão do consumo interno. Mas como é aqui que moram os votos até na direita isto não é ainda muito bem compreendido.

Assim vai o Portugal em 2017. Mas para que o Portugal de 2018 e seguintes dê continuidade a estas e outras ilusões há que começar a preparar o afastamento daqueles que podem atrapalhar a brincadeira. Não é por acaso que os órgãos institucionais menos receptivos a entrar no jardim-de-infância como os tutelados por Teodora Cardoso e Carlos Costa estão agora sobre escrutínio dos mais radicais da seita. Nem que para isso se tenha de atropelar a democracia, o que receio venhamos a testemunhar.

No turbilhão natural dos acontecimentos, a que a falta de rumo e o excesso de ilusões tratam complicar, não vão faltar ocasiões para que se revele com mais detalhe a matéria de que é feita esta tribo impreparada que nos pastoreia. Tudo isto é evidentemente perigoso senão mesmo meio amalucado, e temo mais uma vez não ser com argumentos que se altere o caminho para o precipício.

Julgava eu que pessoas experimentadas e em lugares de responsabilidade não se exporiam a reincidir no erro e aprenderiam com a experiência. Senão com a deles, pelo menos com a dos outros. E nem era difícil. Bastava para isso não trazer de volta os ilusionistas para o palco. Mas não é assim. Há qualquer coisa de psicótico em vigor neste Portugal que impede que se aprenda com os erros e que por oposição teima em dar constantemente luz verde ao vício.

Desde o início da década de 90 do século passado que Portugal vive no mundo de ilusão, mas parece que o sobressalto de 2011 não foi suficiente para pôr as almas em sintonia com a realidade. Na primeira oportunidade isso revelou-se.
Título, Imagem e Texto: Pedro Bazaliza, Convidado Especial, Corta-fitas, 8-3-2017

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