segunda-feira, 6 de março de 2017

Maçãs podres: o complexo colonial do MPLA

Rui Verde


Por estes dias, o MPLA recuperou a voz do seu fundador e primeiro presidente da República de Angola, Agostinho Neto, que causticava os seus compatriotas por estarem permanentemente dependentes de Portugal.

Alertava o Dr. Neto:
Há muitos dos nossos compatriotas que estão sempre a sonhar com umas feriazinhas em Portugal. E quando não têm direito a férias, querem ir comprar isto ou aquilo.
Para passar férias (…), temos boas terras no Huambo, na Huíla, em Moçâmedes, em Malanje.
Temos, no nosso país, um clima admirável.
E em Moçâmedes também há uvas, também há azeitonas, também há maçãs.
Não é preciso ir a Portugal para comer maçãs!
Aqui, em Angola, temos de tudo!

Dizia bem o líder máximo do MPLA: em Angola há de tudo. Não há é nada para os cidadãos angolanos, graças ao excelente trabalho dos herdeiros políticos de Neto.

Não se percebe por que o MPLA está agora a recuperar as palavras do seu falecido líder, tanto mais que — com é bem notório — os atuais dirigentes do partido não as têm em consideração. Hoje, as elites dirigentes angolanas são luso-dependentes.

Quantas casas compraram, em Portugal, Manuel Vicente, Kopelipa, Pitra Neto? Que altos quadros angolanos não têm uma segunda casa em Portugal, onde vão passar férias, ou (benditos sejam!) usufruir de longos e tórridos fins-de-semana com as amantes?

De Isabel dos Santos todos sabemos: ela comprou edifícios, casas e empresas em Portugal. E tornou a Sonangol uma coutada dos gestores portugueses, que ali vão aplicar as receitas que falharam em Portugal.

E quanto ao sucessor do presidente Neto, o camarada José Eduardo dos Santos?

Em 38 anos de poder, já alguém ouviu falar das férias que o presidente da República passou numa província de Angola? Usufruiu ele dos bons ares do Huambo? Apreciou as vistas de Lubango, uma das belas cidades de Angola? Banhou-se nas águas cálidas do Namibe (ex-Moçâmedes), ou descansou nas margens do rio Kwanza? Pois é, nada. Na realidade, até o gerador do presidente é mantido por um técnico português…

Nesse aspecto, a independência conduzida pelo MPLA travestiu-se num complexo colonial inultrapassado. O partido continua a necessitar da antiga potência colonial para tudo: para fazer leis, para reestruturar empresas, para tratar da saúde, para descobrir modelos de negócio. Passados todos estes anos, apenas mudaram umas quantas caras — as dos governadores portugueses — pelas dos governantes angolanos, mas a dependência aumentou.

E é isso que explica o barulho que se ouve em Angola quando algo corre mal em Portugal. A elite dirigente começa a ver a “vida a andar para trás”, com medo de perder as suas casas, os seus carros de luxo, os seus depósitos bancários. A elite angolana depende totalmente de Portugal.

E as uvas, as azeitonas e as maçãs do Namibe, estão à venda em Luanda? Abundam no Candando de Isabel dos Santos? Pois é, fizeram aquele foguetão [Mausoléu] estranho para o camarada Agostinho Neto, mas levaram-no tão alto, que deixaram de lhe ouvir as palavras.

Infelizmente, as maçãs que se encontram em Luanda são as maçãs importadas e as podres das lixeiras no meio das ruas, e não as saborosas maçãs do Namibe.
Título, Imagem e Texto: Rui Verde, Maka Angola, 4-3-2017

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