domingo, 22 de outubro de 2017

[Para que servem as borboletas?] Os artefatos humanos...

Valdemar Habitzreuter

O ‘guarda-chuva’ sob o qual tudo se abriga chama-se Ser. Tudo o que existe está sob sua jurisdição e nada lhe escapa. No absoluto do ser tudo se move, embora ele próprio seja um conceito de imutabilidade e permanência. Há várias ontologias do ser. Na contemporaneidade há uma no sentido de se restringir o ser/ente à categoria da ação artefactual. Tudo o que há não passa de um movimento, de um processo sob a égide da ação, agência, perfazimento; isto é, no mundo não há propriamente coisas feitas, o que há é ação no seio da qual se processa a transformação e evolução do mundo que percebemos como real; as coisas concretas da natureza não passam de recortes ficcionais dessa ação que, no entanto, são meios para prosseguir desenhando o mundo com entes.

Sob esse ‘guarda-chuva’ do ser está também o ‘ser-aí’ humano que percebe esse processo evolutivo do mundo. Ele mesmo está sob o élan da ação e vai perfazendo-se, desenvolvendo-se cultural e tecnologicamente. O ser humano, nesse sentido, é um agente mental que produz artefatos próprios que por sua vez também refletem uma ação, ou ação em curso. Uma cadeira que o homem fabrica não é uma mera coisa da natureza, é um artefato com intencionalidade servindo de assento; cadeira e homem tem seu aspecto intencional; a intencionalidade do homem é no sentido de fabricar um artefato para sentar, e a da cadeira no sentido de servir para sentar. Uma pedra bruta na natureza não é um artefato do homem, mas se ele a esculpe e a utiliza para sentar nela passa a ser um artefato, pois tornou-a intencional.

Daí os artefatos humanos pertencerem à categoria da ação ou agência que implica uma intencionalidade, e intencionalidade nada mais é que uma ação em curso. A mente humana é intencional e transfere intencionalidade aos objetos fabricados, que por sua vez retribuem a presteza de terem sido fabricados. Como se uma cadeira convidasse o seu autor: “senta-te”...

Não que os artefatos sejam sujeitos pensantes, mas carregados de propósitos que impulsionam ativamente o modus vivendi natural do ser humano. Já se imaginaram sem luz elétrica, sem rádio, sem televisão, sem internet, sem carro, sem bola a rolar nos campos de futebol, sem quadra de tênis... sem fogão e panelas, pratos... Enfim, toda a parafernália tecnológica que está a nossa disposição no dia a dia? Tudo isso são artefatos do homem com propósitos próprios que interferem na vida do ser humano.

Os artefatos não são entidades passivas, mas há nelas um quê de autonomia agenciadora, embora não independente, que vai moldando nosso modo de vida. E se um dia ficarmos totalmente dependentes dos artefatos humanos, como, por exemplo, de robôs ultra inteligentes, teremos, talvez, uma população frankensteiniana dominando a humanidade...
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 22-10-2017

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Um comentário:

  1. Para memória futura
    António Costa: “Admito que tenha errado na forma como contive as emoções”
    Morrem mais de cem pessoas em incêndios, o funcionamento das autoridades foi calamitoso e António Costa acha que errou na forma como conteve as emoções.

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