terça-feira, 20 de março de 2018

2018: ano de maratona eleitoral na América Latina

Sören Soika - Fundação Konrad Adenauer/Cesar Maia

1. A América Latina se encontra em uma etapa de mudanças políticas que mostra sinais que dão ânimo e outros que trazem incerteza. A chamada onda progressiva, presente no subcontinente desde 2000 e que fez com que governos populares de esquerda chegassem ao poder em Caracas, Buenos Aires, Brasília, La Paz, Quito e Manágua vem enfraquecendo desde 2015. Em novembro daquele ano, o candidato a presidência liberal-conservador, Mauricio Macri, conseguiu chegar ao poder na Argentina. Em agosto de 2016 houve um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff no Brasil e, no final de 2017, no Chile, o ex-presidente e empresário Sebastián Piñera venceu as eleições. Todos esses eventos fazem com que seja percebido o início de um novo movimento político que se afasta das forças da esquerda.

2. O ano de 2018 mostrará se esse movimento se tornará realidade ou não. Com certeza podemos falar de um ano cheio de eleições importantes. No total, onze eleições terão lugar em oito países. Em seis casos, são eleições presidenciais (isto não inclui a "eleição" do sucessor de Raul Castro como chefe de Estado de Cuba). As eleições, tanto em países pequenos, como nos dois líderes da região - Brasil e México - marcarão a tendência para os próximos anos. Várias das eleições neste importante ano são caracterizadas por candidatos diversos e resultados quase imprevisíveis.

3. Mais fácil de prever é o resultado das eleições presidenciais na Venezuela, que deverão ocorrer em dezembro de 2018. O governo de Nicolás Maduro, e as autoridades eleitorais que estão sujeitas a ele, se beneficiarão do desacordo na aliança da oposição Tabela de Unidade Democrática (MUD) para avançar nas eleições do mês de maio. Embora Maduro tenha levado um país, que era rico no passado, a uma crise humanitária, a vitória eleitoral provavelmente será o seu agradecimento à mídia controlada pelo Estado e à criatividade para assediar a oposição e seu eleitorado.

4. O início da maratona eleitoral foi na Costa Rica, com o primeiro turno das eleições em 4 de fevereiro. No segundo turno - no início de abril – se enfrentarão Carlos Alvarado, candidato do partido do atual governo, e Fabricio Alvarado. Alvarado, no primeiro turno, se posicionou contra a decisão tomada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sua vitória no primeiro turno das eleições mostra um crescimento preocupante de forças conservadoras e tendenciosas a uma interpretação literal da Bíblia, que também estão presentes em outros países da região.

5. Algo não tão comum na América Latina provavelmente será observado no Paraguai em abril, quando dois candidatos de partidos tradicionais se enfrentam nas eleições presidenciais: Mario Abdo Benítez, filho do antigo secretário particular do ditador Stroessner e que representa a direita do Partido Colorado, e Efraín Alegre, candidato do Partido Liberal, que tem uma aliança com o ex-presidente de esquerda, Fernando Lugo, derrubado em 2012.

6. Com particular interesse, a região e o mundo irão dirigir sua atenção para as eleições presidenciais na Colômbia, que provavelmente acabarão com um decisivo segundo turno em junho. O Tribunal Constitucional colombiano declarou que os próximos três governos estarão ligados ao tratado de paz de 2016 com as FARC. No entanto, dependerá das próximas eleições a maneira como o futuro governo concretizará este tratado de paz e como as negociações continuarão com o ELN, o segundo maior grupo guerrilheiro. Os candidatos à presidência não podem ser mais diferentes entre si, e vão desde candidatos críticos do tratado de paz, que fazem parte do entorno político do ex-presidente Álvaro Uribe, até Humberto de la Calle, que negociou o referido tratado de paz.

7. Na segunda metade do ano, seguem os dois pesos pesados da América Latina: primeiro o México em 1º de julho, quando poderá se observar uma disputa entre três candidatos, que será decidida no primeiro turno com relativa maioria. De acordo com as pesquisas, quem está na frente é Andrés Manuel López Obrador, que deseja, depois de uma carreira profissional como prefeito da Cidade do México e várias derrotas nas eleições presidenciais, morar em Los Pinos, residência oficial do Presidente do México. Até que ponto o populista vai levar o país para a esquerda depois de uma vitória é uma questão aberta que não diz respeito somente à indústria. Um oponente promissor é Ricardo Anaya, cujo conservador Partido Ação Nacional (PAN) tem uma aliança incomum com o seu antigo oponente, o esquerdista PRD. O candidato do partido do governo, PRI, José Antonio Meade, dispõe de uma estrutura com muito poder, apesar do descontentamento com o atual governo, e ainda não desistiu.

8. No Brasil, de acordo com as pesquisas, o ex-presidente Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), e Jair Bolsonaro são os líderes. Se esses dois candidatos chegarem ao segundo turno das eleições em outubro, o Brasil poderá escolher entre um político antigo sem um plano para o futuro e envolvido em vários casos de corrupção e um populista de direita - melhor dizendo, um extremista de direita - que ama a ditadura militar brasileira. Se a candidatura de Lula não for possível devido aos processos judiciais pendentes contra ele (sua condenação por corrupção foi confirmada em segunda instância há alguns dias, mas ele tem a possibilidade de recorrer novamente), seria apresentada uma nova constelação que daria chance a um candidato moderado de centro.

9. Antes que o eleitorado argentino possa decidir em 2019 a respeito de uma decisiva reeleição de Mauricio Macri, a paisagem política na América Latina já poderá ter mudado significativamente.
Título e Texto: Sören Soika - Fundação Konrad Adenauer Cesar Maia, 20-3-2018

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