domingo, 21 de outubro de 2018

[Pensando alto] Meus amigos policrômicos: o paraíso e os porquinhos tristonhos

Pedro Frederico Caldas

Uma das riquezas da vida são os amigos. Falar de todos seria tarefa enciclopédica, seria trabalho para um Diderot; mas, como a vida é longa, little by little, chegaremos lá.

UM DIA NO PARAÍSO

Estamos, Nêga e eu, às portas do paraíso. Nêga, suponho que já saibam, é a mulher que me mantém sob ordem e controle. Dito isso, voltemos ao começo: Estamos às portas do paraíso e, como vocês já sabem, há uma liturgia para ser admitido. São Pedro, Pedro como eu, diz a crônica cristã, tem as chaves da admissão. Estamos no requintado bairro de Higienópolis, a Jerusalém paulista. Justamente no caso e nas atuais circunstâncias, essa figura sacrossanta é o porteiro chamado Deusarino dos Santos, importado do Ceará. Desconfiado, como deve ser todo porteiro que se preze, pergunta sobre o alvo da minha visita. Anuncio: Senhor Oswaldo Salazar Caldeira Marques e Dona Gabriela Ferro Caldeira Marques. O inquérito continua: A quem devo anunciar? Respondo: José Dirceu, eis que sempre oculto minha identidade sob o nome de alguém acima de qualquer suspeita, além de servir de uma espécie de password para Salazar. Meio ressabiado, o São Pedro de condomínio faz o anúncio do pretendente. Recebe de volta o consentimento movido a gargalhadas do consultado.

Doravante, em homenagem ao português castiço do amigo Salazar, elevo meus substantivos, adjetivos, orações sindéticas ou assindéticas, coordenadas ou subordinadas, ao último e mais nobre andar do edifício linguístico da “última flor do Lácio”, tudo movido, à moda salazarense, à castiça forma de tratamento na segunda pessoa do plural, oh, pá! Quem conhece essa ilustre figura lusitana, herdeiro direto de Camões, sabe que sua língua foi purificada na leitura, dentre outros clássicos, de Padre Antônio Vieira, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz, com abluções realizadas nas salas, nos corredores e na linda biblioteca da egrégia Universidade de Coimbra.

Portão aberto, com a devida vênia do São Pedro retirante, já prelibando as iguarias a serem degustadas, deslizo até ao elevador, em êxtase, a três palmos da superfície do solo pátrio.

Chegados à porta do ninho fraterno, lá estão aqueles braços abertos de um redivivo Cristo Redentor para nos acolher com o calor e a exaltação que só a amizade pode explicar. Beijos e abraços trocados, contemplado aquele sorriso de Buda feliz, desfaço-me de todo e qualquer protocolo, viro à direita e ultrapasso os umbrais daquela sacrossanta cozinha. Levito, à altura de meio metro, a tampa da primeira panela: Lá está a me fitar, com o olhar gélido do Mar do Norte, um bacalhau banhado no mais puro azeite português, apavorado pela certeza da presença do seu mais voraz predador. Deixe-o com os seus temores, que será devorado sob a escolta de “batatas ao murro”. Dirijo-me reverente à segunda panela e, tampa içada, contemplo costelinhas de porco, entre cozidas e assadas, de textura alçada a um estado da matéria sem explicação plausível quer pela física quer pela mecânica quântica, tudo preparado pelas mãos da Gabi, nascida Gabriela, que tem sob sua custódia os mais bem guardados segredos da inigualável cozinha lusitana, conduzidos do passado para o presente e a serem levados ao futuro por sussurros soprados ao pé do ouvido, de mãe para filha.

As escaramuças que antecedem a batalha gastronômica têm início a golpes de vinho alentejano, bombardeio de bolinhos de bacalhau, untuosos e macios, trincheiras cavadas em torno de chouriço português grelhado, ali, à minha frente, ao vivo e em cores, na cachaça de bagaceira, numa peça de louça em forma de porquinho. E... Preencham os claros com a vossa imaginação, eis que estamos no reino de todas as possibilidades, abertas por um banquete que só se pode rotular de opíparo, oh, pá!

E tudo isso embalado pelo linguajar culto de Salazar, parecido sair das páginas da bíblia e dos sermões de Vieira, a quem passo a palavra:
“-Quereis mais isso, cometereis mais aquilo.”  “Esse vinho sabe a rolha?”  “Embora digais satisfeito, vos invito a mais uma taça de champanhe.”  “Não deveis temer a gordura que um homem bonito é um homem farto.”  “Reconciliai-vos com esse queijo amanteigado da Serra da Estrela.”  “Vos concito a sorver esse primoroso Juca Pato.”  “Atiçar-vos-ei o paladar com essas anchovas...”  “Se quiserdes sereis prebendado com...”

Os pratos vinham em catadupa e minha boca incontrolável passava de uma oferenda para outra, quebrando meus próprios recordes nessa Olimpíada gastronômica, como se envergando as cores biafrenses estivesse.

Cometidos todos os excessos, ia ensarilhar talhares quando Gabi trouxe pezinhos de porco à coentrada, do que há de melhor da mesa algarviense, pontuando que a receita lhe fora secretamente passada por dona Celeste, sua amadíssima mãe. Proclamei que ia soçobrar, mas Salazar sublinhou: “Deveis considerardes um almirante holandês que julga ser o fundo do oceano o único túmulo digno de um almirante batavo.” Sucumbi, embevecido, aos pezinhos à coentrada; depois vieram os pasteizinhos de Belém, os papos-de-anjo...
              
Enlevados e fartos, voltamos para casa, eu sob repreensões de Nêga, vazadas em libelo acusatório das demasias cometidas à mesa, como se eu tivesse devorado toda uma província de Portugal. Já de noitezinha, em estado de gostosa depressão pós-prandial, adormeço. Em transe, vejo um anjo com espada em riste a me ordenar deixar o paraíso e descer ao inferno, pelo meu mau comportamento e falta de temperança no comer. As portas do inferno se abrem e, como diria Dante, não mais bacalhau, não mais vinho alentejano, não mais português castiço, não mais esperança. Para meu pavor, um imenso e carrancudo bacalhau, com voz tonitruante, anuncia a sua vingança. Fixa aquele olhar glacial do Atlântico Norte e, em reproches à minha gula, recita Provérbios 23:20-21: “Não estejas entre os bebedores de vinho nem entre os comilões de carne. Porque o beberrão e o comilão caem em pobreza; e a sonolência vestirá de trapos o homem”.

Apavorado, sinto que vou ser devorado por aquele peixe enorme para purgação do meu delicioso pecado venial; de repente, passo do pesadelo ao sonho ao ouvir a delicada voz da Gabi: “mais uma costelinha?”.

OS PORQUINHOS TRISTONHOS

Os amigos não cessam de nos visitar; os parentes, nem se diga. É sempre uma alegria imensa compartir a casa e a mesa com os a quem estimamos.

Dentre os que ainda não nos deram o prazer, há um especial, gozador que só ele, falto nas promessas de nos visitar, que todo ano assoalha cumprirá, mas sempre postergando duas, às vezes três datas aprazadas. Nunca cumpre o prometido. Já fiz de tudo para que viesse. Agora mesmo, vi as fotos dele, todo serelepe, na cidade do Porto em visita à filha, e também todo gaiato em Vila Nova de Gaia, do outro lado do Douro. Vista apurada, olho com mais acuidade as fotos e vejo que os seus três protegidos estão lá. O tesouro de sua vida. São somente três fios de cabelo, tratados como filhos diletos. Nada como ver Pedro Flávio sacar um pente para ajeitar, enfileirando, um ao lado do outro, os três sobreviventes de uma cabeleira que já foi vasta, mas agora limitada a dois tufos remanescentes que protegem os hemisférios de sua rósea cabeça.

Um dia de farra com ele equivale a um descarrego. É só descontração e alegria. Quem o conhece sabe que estou falando a mais pura verdade. Estamos aguardando ele e “Benínho” para nos desincumbirmos de grandes embates e transformar em pó os provérbios recitados soturnamente pelo monstruoso bacalhau do pesadelo.

Quando encontra com um amigo meu em Itabuna, indagado se tem notícias minhas, questiona, com a cara mais lisa, se o amigo não foi por mim procurado. Ante a negativa, olhar sério, afetando surpresa, diz que eu lá estive por alguns dias e que juntos fizemos boas farras. O amigo sai chateado por uma desconsideração que não tive. O cara não tem jeito. Só “Benínho” mesmo para tolerar a peça.

Uma grande alma, amigo leal, de bem com a vida e, além disso, a pessoa mais engraçada que jamais vi. Onde está, só há alegria e bons momentos, fomentados por risadas provocadas pelos seus chistes e pelas estórias que conta. A sua performance para narrar estórias é inigualável.

Tudo isso sem prejuízo da traça do empresário nato que é. Não lhe falta iniciativa e está sempre envolvido nos mais diferentes negócios e empreendimentos.

Certa feita iniciou uma pocilga na fazenda. Comprou porquinhos da raça landrace. Como ele, o landrace está entre o louro e o cor-de-rosa. Tratava os porquinhos a pão de ló; mimava-os como uma verdadeira mãe. Junto dos porquinhos, com eles era confundido, eram da mesma cor e pareciam da mesma linhagem. Busquem a foto de um pequeno landrace e comparem. Segundo Eduardo Fontes, guardião das bizarras estórias grapiúnas, entre Pedro Flávio e os porquinhos não havia relação de propriedade, era simplesmente a manifestação de uma paternidade responsável. Quando ia à fazenda fazer pagamento da folha, de lá saía abalado ao se despedir dos porquinhos, que, por sua vez, ficavam tristonhos.

Chegada a época do descarte, foi um deus nos acuda! Não queria matar o porquinho de jeito nenhum. O que foi apartado do rebanho para o sacrifício, intuindo a sorte madrasta esperada, trocava olhares com ele. Aos prantos, foi levado a um canto da fazenda para não assistir à imolação do bichinho. Retornado ao ponto do sacrifício e deparado com o porquinho já abatido, inerme, atirou-se aos prantos sobre o cadáver, colocou-o no colo e não permitiu fosse retalhado.

Com ele também choravam os trabalhadores ante aquela imagem que mais parecia a da Pietà. Exauridas as lágrimas, tomou uma decisão e assim foi feito: deu enterro cristão ao porco!

Alguns amigos me contaram que - não posso jurar ser verdade, mas podem perguntar a Eduardo Fontes-, um fim de semana, nosso herói, por motivo de viagem, não podendo ir pagar a folha, mandou “Benínho” em seu lugar. Pra quê! Quando “Beinho” entrou na pocilga, os porquinhos, muito tristonhos, em coro, reclamaram: “Não é a mamãe, não é a mamãe...”.

EPÍLOGO
As pessoas rezam e pedem a Deus para ir para o paraíso quando morrer; de minha parte, prefiro ir para a casa de Salazar.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, Aventura, EUA

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