quinta-feira, 11 de outubro de 2018

[Pensando alto] Problemas brasileiros, vontade política e o coronel Libânio das Pacas

Pedro Frederico Caldas

O Coronel Libânio das Pacas ostentava o título de coronel porque comprara a patente da Guarda Nacional, na primeira metade do século passado; já o das Pacas foi-lhe aditado ao nome pelo fato desse roedor fazer parte de sua dieta. Seu pai, um homem lido, lhe incutira o gosto pela lógica. Leu o Organon de Aristóteles e gostava de Sócrates, embora baralhasse um pouco os conceitos. Adorava aplicar a Maiêutica socrática para desmontar o raciocínio dos adversários. Sua lógica era, se assim se pode dizer, meia truncada e, acima de tudo, cabocla. Morava na sede de enorme fazenda, dentre outras de seu acervo, a poucos metros de um vilarejo. 

Para melhor entender essa figura bizarra, vamos aos fatos. Um dia um fiscal do Ibama bateu por lá para apurar essa estória de predileção por pacas. O coronel era temido não só pela sua fúria bíblica, mas também por estar sempre “assessorado” por Tico Carabina, tão hábil com a dita cuja que ninguém sabia se o seu corpo era uma extensão da arma, ou se esta era um alongamento do seu corpo: um tiro, uma queda! O fiscal, um tanto inseguro, começou com uma “conversa de cerca Lourenço”: “Pois é, coronel, esse seu nome das Pacas é sinal de que o senhor caça o roedor?”. Com sua lógica cortante o coronel aplica a Maiêutica: “Então se o meu nome fosse Pinto do Rego o senhor se arriscaria a passar por estas bandas?”. O fiscal, meio desconcertado, disfarça e pergunta: “O senhor come paca?”. O coronel respondeu que comia. O fiscal perguntou por que ele comia e ele respondeu que homem come paca e paca não come homem. O fiscal ponderou que era contra a lei caçar; ele respondeu que comer não era caçar. O fiscal continuou insistindo que era contra a lei. Como costumava fazer quando a pessoa não aceitava sua lógica, ele passou um rabo de olho para Tico Carabina, encarou o interlocutor teimoso e, já irritado, estourou: “Vá cagar!”.

Gostava de sentar no passeio de uma vendinha do arruado próximo à sede da fazenda. Alcebíades, seleiro das cercanias, se aproxima da rodinha em torno do coronel e diz que ia chover. O coronel diz que não ia chover porque a umidade do ar estava baixíssima e apontou para um pedaço de jornal, no meio da rua, rachando de seco. Argumento lógico e irrefutável. Alcebíades retorquiu: “Vai chover, sim, coronel, pois estou de nariz constipado”. O coronel, com o ar de lógico, pergunta qual a correlação entre nariz constipado e chuva. Alcebíades diz que toda vez que Dozinho estava com o nariz constipado, chovia. O coronel então pergunta qual a correlação do nariz dele com o de Dozinho, já se sentindo vitorioso na discussão. Alcebíades, que não queria saber de lógica, diz: “Vai chover, sim, coronel!” E o coronel, já irritado com a irracionalidade de Alcebíades, como de costume: “Vá cagar!”.

Deixemos o Coronel Libânio das Pacas de lado e vamos cuidar do que interessa.

José Genoíno era deputado federal por São Paulo e assinava, acho que semanalmente, um artigo no Estadão. Num desses artigos, abordou um dos problemas do país e disse que o governou não resolvia o problema por “falta de vontade política”. Embora fosse sempre um argumento terçado pelo PT como um todo, o Genoíno era o rei do argumento de que faltava ao governo, qualquer que fosse o problema, “vontade política” para resolver isso ou aquilo. Nesse artigo, ele dava os números do orçamento federal. Eram números imensos. O número que ele dava da receita da União era quase igual ao PIB brasileiro! Daí ele sacava que, com tamanho orçamento, o tal problema, que por ora não me lembro qual era, só não era resolvido por “falta de vontade política”! Não se tratava de qualquer pessoa, mas de uma das três mais importantes pessoas do PT e que já se prenunciava candidato ao governo de São Paulo, como veio realmente a ser, perdendo a eleição, felizmente, para Geraldo Alckmin. Realmente, olhando para o montante da receita, segundo os números por ele declinados, parecia que a verba para resolver o problema não era tão significativa. Mas, nos números dados por Genoíno, havia um erro abissal de interpretação do orçamento da União. Vou tentar explicar da forma mais simples possível, um problema um tanto complicado de contabilidade pública.

Por exemplo, o produto interno bruto (PIB) do Brasil deve estar, este ano, em torno de 6 trilhões de reais e a dívida, perto dos 5 trilhões (80% do PIB).  Digamos, somente para fins de raciocínio, que a receita da União seja de 1,5 trilhão. Já sabemos que desse montante nem um centavo estará disponível para pagar os juros da dívida, quanto mais da parcela de principal da dívida a vencer no exercício. Digamos, ainda, que se vença, neste exercício, parte da dívida equivalente a, também, 1,5 trilhão. Como o governo não tem recursos para pagar a dívida que se vencerá, terá que emitir títulos públicos, em valor equivalente, para pagar esse 1,5 trilhão. Assim, os novos títulos emitidos entrarão no orçamento como receita e os títulos pagos como despesas. Equivale dizer que, para fins meramente contábeis, a receita atingirá 3 trilhões (1,5 trilhão como receita de tributos e outras rendas, mais l,5 trilhão como receita do títulos emitidos para rolagem da dívida) e, a despesa, também orçará pelos 3 trilhões (as despesas correntes, funcionalismo, custeio, obras etc. de 1,5 trilhão, mais títulos rolados da dívida de valor também de 1,5 trilhão).

Genoíno, candidato a governador de São Paulo, cargo que pode levar qualquer político para a Presidência da República, comete, em artigo, como dito, erro tão monumental, tomando a nuvem por Juno.

Abismado com o disparate, fiz uma extensa carta ao Estadão demonstrando a enormidade cometida por Genoíno. O Estadão publicou a carta. Genoíno, que me lembre, daí por diante, nunca mais escreveu sobre finanças públicas.

De outra feita, fui convidado por uma pessoa, minha parente, para um almoço na casa dela, em Itabuna, para entreter conversa com um comensal, candidato a deputado federal do PT da Bahia. Conversamos muito sobre problemas brasileiros. Ele me dizia que se Lula fosse eleito criaria, dentre outros ministérios tolos, o da pesca. Lula, dizia ele, considerava que tendo o Brasil uma costa enorme, deveria ter pescado suficiente para alimentar todos os brasileiros e excedente exportáveis. Acrescentava, concordando com Lula, como usava dizer os corifeus do PT, que isso não acontecia por “falta de vontade política”. Fiz ver a ele, que pela dimensão continental do Brasil, a nossa costa era até pequena. Acrescentei que a Marinha, em conjunto com o Instituto Oceanográfico, tinha terminado estudos e pesquisas de cerca de vinte anos sobre a potencialidade de nossa costa e que chegara à conclusão de que o Brasil não era um país piscoso. Isso se devia ao pouco plancto existente pelo fato de nossas águas serem quentes. As águas quentes produzem peixes finos, mas não produzem grande volume, pois o plancto, alimento para os peixes, por esse mesmo motivo, não era de grande quantidade. Acrescentei que o maior volume de pesca se concentrava ao Sul, onde as águas eram mais frias e, ipso facto, tinham mais plancto.

Lula foi eleito, o ministério foi criado e o volume da pesca continuou modesto. Ou seja, mais cargos foram criados e mais dinheiro do contribuinte depredado a troco de nada.

Toda vez que você ouvir um político falar que os problemas brasileiros, para serem resolvidos, só dependem de “vontade política”, pode ter certeza que você está ouvindo um ignorante ou um farsante. Se você der explicações técnicas demonstrando quais são as raízes dos problemas e quais as soluções tecnicamente viáveis e ele, sem maiores fundamentos, continuar batendo na tecla da “falta de vontade política”, aí só resta você olhar para ele, e, como o Coronel Libânio das Pacas, dizer: “Vá cagar!”.    
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, Aventura, E.U.A.

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