domingo, 27 de janeiro de 2019

[Pensando alto] De compadres e de alucinações

Pedro Frederico Caldas

Nada como um dia antes do outro.
Dilma

Não zombe das bobagens que os outros dizem. Podem representar uma oportunidade para você.
Winston Churchill

Tenho vários compadres. Não digo isso com afetação, ou como se fosse um privilégio. Acho que a maioria das pessoas tem. Mas os meus são diferentes. Um não tem nada a ver com outro.

Tenho compadre, tipo assim, porco capitalista. Só pensa em novos negócios. Na área de transportes é um bambambã. Discutimos muito a respeito do assunto. Vez por outra pergunto a ele por que não assume uma postura política de sustentação do capitalismo, para ouvir sempre a mesma resposta. Sempre sou posto contra a parede ao ouvi-lo dizer que o papel dele é empreender, gerar riqueza. Quanto mais rico ele fica, mais ganha a sociedade. É mais produção, mais gente empregada, mais imposto. É como se tudo fosse um círculo virtuoso. Ele sempre arremata que somente pessoas afetadas de algum intelectualismo têm mania de ficar teorizando uma coisa que só se constrói na prática. Sempre me pergunta se alguém pensou ou bolou o capitalismo. Digo que não para ouvir sempre o seu reparo: “compadre, capitalismo não se pensa, se faz; deixamos os intelectuais sempre com a obsessão de criar um mundo perfeito, enquanto fazemos um mundo melhor”. Digo que gostaria de ser como ele, um empreendedor. Mas meu conhecimento teórico briga com a prática. E exemplifico. Pensei em comercializar camarão seco para fazer vatapá, no sul da Flórida, mas, estranhamente, os mercadinhos daqui nem deram bolas para minha proposta. O comentário dele foi curto e grosso: “lógico, compadre, não há essa demanda por aqui”. Pensei em outra coisa. Revelei meu segundo plano. Abrir uma rede de barbearias na Arábia Saudita, país de homens barbados. Abateu com um tiro de lógica minha boa intenção: “são proibidos de fazer barba, compadre”. Olhou para mim e sacou uma frase profunda: “onde as necessidades do mundo e o seu talento se cruzam, aí estará a sua vocação, compadre”. Repliquei que a profunda frase era de Aristóteles. Ele respondeu: “não importa, continue a não fazer nada, que isso é o que você faz muito bem”. E assim meus projetos empresariais foram abatidos no nascedouro.

Tenho um outro que é capitalista virtual. Não tem empreendimentos, só aplica em ações da Cervejaria Brahma. Para confirmar a regra, caiu na exceção de comprar uma fazenda de cacau. Para incentivar a alta das ações, até na hora de vistoriar a fazenda para ver como iam os trabalhos, carregava um isopor com várias latas produzidas pela empresa de seus sonhos. A cada cajazeira, jequitibá, ou jaqueira, parava para degustar uma lourinha gelada. Quando indagado pelo administrador por que não esperava voltar para a sede da fazenda para a degustação, respondia que precisava assegurar a alta das ações, que fazenda de cacau era coisa de besta.
               
Um outro, petista de carteirinha, gosta de me passar esbregues. Dia desses, me fez ver que eu estava obcecado com o PT, Dilma e Lula. Disse que eu não deveria escrever mais sobre o assunto porque poderia estar ferindo os sentimentos de petistas, lulistas e dilmistas. Reconheci que estava me excedendo, mas que não conseguia me libertar disso, pois era influenciado por um tal de Odilardo e um tal de André Nelinho, além de dois outros infiltrados de nomes estranhos, Azin e Siderval, creio sejam codinomes de agentes da CIA. De bate pronto, revelou-me que os quatro já estavam curados dessa terrível síndrome, inclusive o primeiro deles chegou a romper com a patotinha dos contra, até simulou uma operação para se afastar desse grupo subversivo. O segundo, muito perigoso, foi desterrado com toda a família para Portugal. Até Lício e Eduardo Fontes já estavam libertos! Fiquei abismado e perguntei como eles conseguiram se libertar dessa terrível doença. Respondeu que tinham feito terapia na APTA. Deu-me um cartão com nome, endereço e tudo mais. Sob a promessa de que ficaria curado em três semanas, fui para o tal Associação de Antipetistas Anônimos (APTA).

Sentei numa cadeira, formando um círculo de umas dez pessoas. Cada um contava como chegou a se transformar num antipetista. O primeiro disse que trabalhou de graça para o partido, deu dinheiro, balançou bandeirinha na rua, carregou Suplicy nos ombros, não recebeu nenhum cargo, isso tudo para descobrir que a turma estava passando a mão no dinheiro do povo enquanto ele ficava chupando dedo. Feita a catarse, foi rapidamente convencido pelos já curados que, se voltassem ao poder, isso não mais aconteceria, haveria dinheiro para todos.
               
Chegada a minha vez, confessei que obsessão, obsessão mesmo, eu só tinha pela Dilma. Fiquei invocado pela sua confusão mental e como ela tentava se explicar etecetera e tal. Fui esclarecido que ela não era assim. Aquela performance confusa era uma tarefa dada pelo partido para atrair os confusos, que não são poucos. Com aquele linguajar e raciocínio febril conseguira atrair milhões para as hostes petistas, afinal, obtemperaram dialeticamente que a soma das minorias forma a maioria.
               
Três semanas depois, submetido a muitas pajelanças e aparentemente curado, deixei o grupo.
               
Passei vários dias sentindo um alívio, uma espécie de ascese. Não mais pensava em PT, Lula e, especialmente, em Dilma, minha ex-obsessão. Se sentia que poderia ter uma recaída, chupava uma bala, olhava para a paisagem, pensava na dor de uma topada, um chute nos países baixos, ou assobiava “a umbigada que o Sabino mandou dar”. Um alívio, estava finalmente curado: não mais papo com Josuelito Britto, Eduardo Abreu, Romildo Pessoa, J. Matheus, Cézar Leite e outros decaídos políticos.
               
No domingo, após saborear um ragu de ossobuco com linguini, um manjar para deuses somente materializável pelas mãos dessa maga chamada Nêga, acompanhado de um divino The Prisoner, 2015, do Napa Valley, tomei um cálice de Tokay, categoria 6 puttonyos, e acendi um charuto, eis que era dia de extravagância, afinal me libertara do antipetismo, melhor dizendo, do antidilmismo. Bateu a depressão pós-prandial, aquela sensação gostosa de torpor, de estar deitado numa nuvem, no paraíso. No caso, a tal nuvem era minha espreguiçadeira de gravidade zero, já de vocês conhecida. Aqui abro parênteses para dizer que já tem gente querendo vir do Brasil só para dar uma cochilada em minha espreguiçadeira, bolada por um nerd da NASA, e contemplar o Atlântico Norte.
               
Naquela penumbra entre o entardecer e o anoitecer, senti que alguém sentou na espreguiçadeira ao lado e pegou delicadamente minha mão. Perguntei se era Dilma. Ela respondeu que era e que eu jamais conseguiria me libertar dela. Aí, como fraqueza é fraqueza, nossos seis neurônios começaram a brincar de cirandinha. Ela disse que minha obsessão só podia ser amor e perguntou se eu a amava. Perguntei-lhe o que era o amor e ouvi uma definição maviosa: “Amor, meu querido, é um sentimento de compressão descomprimida, de tensões distendidas, maravilha maravilhada, ao mesmo tempo importante e desimportante porque há em abundância no mundo, mas, todavia e por que não, devendo por todos os amantes ser saudado, assim como saudamos a mandioca”.
Quanta sapiência e sensibilidade, pensei. Já curado, tudo que vinha daquela cabecinha me parecia fantástico.
               
Aí veio a pergunta à queima-roupa: “Quer casar?”. Casar?, perguntei. Sim, casamos e vamos para as ilhas Seychelles.
               
Eu disse que não tinha dinheiro para uma viagem tão cara e me parecia que nas atuais circunstâncias ela também não deveria ter. Não se fez de rogada, deu um sorriso maroto, disse que quem tem Janot e Fachin não morre pagã, e propôs: “Assaltamos um banco”. Eu disse que não sabia assaltar banco. Mas não adiantou, porque ela respondeu que tinha know-how. Eu disse que era perigoso. Ela respondeu: “Não, se for o BNDES”. Então, senti algo muito quente entre o tórax e o pescoço. Em seguida, ouvi uma voz maviosa, de cotovia do sertão:
               
- Nêgo, a brasa do charuto vai te queimar.
Um bom domingo para todos.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, Aventura, EUA, 29.6.2017

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