sábado, 22 de dezembro de 2018

[Pensando alto] O natal, o bem, o mal e o racional

Pedro Frederico Caldas

O significado da vida é a mais urgente das questões.
Albert Camus

Por que aqui estamos? O acaso nos trouxe até aqui? Permaneceremos indefinidamente existindo, ou nosso tempo está apenas correndo para uma conclusão final? Essas indagações podem ser resumidas na afirmação de Camus de que o significado da vida é a mais urgente das questões.

A afirmativa de Camus não passa de uma angustiosa petição para o desate de questões encadeadas: quem somos, de onde vimos e para onde vamos, resumível a um só problema: faz sentido a nossa existência?

Por vários milênios a resposta parecia simples. Vivíamos uma vida terrena e breve por desiderato divino, e, por esse mesmo desiderato, teríamos uma outra vida eterna, boa ou ruim, a depender do mérito de cada um, aferível pela obediência a um decálogo estabelecido por Deus.

Pela dissertação sagrada, passada oralmente e por escrito ao longo da história, Deus criara o universo e a terra, aqui apascentara o seu rebanho para, por seletiva pescaria, coletar para uma vivência eterna, junto a Ele, aquelas almas que viveram uma vida quase sacra, chumbada à obediência ao prefalado decálogo.

Veio o Iluminismo, veio o avanço assombroso da ciência e o tempo bíblico, contado, desde a gênese e por gerações, a partir de Adão, por cerca de seis mil anos judaicos, foi jogado, pelos cálculos dos astrofísicos, para a casa dos quatorze bilhões de anos, lá para os confins da história, quando teria havido uma grande explosão (o Big Bang) de energia altamente concentrada, dando origem a tudo que existe. Assim, tudo aquilo que parecia simples foi colocado em xeque.

E o que ficou ruim piorou com a afirmativa darwiniana de que nem da criação do homem Deus se incumbira. Passamos de filhos de Deus à degradada condição de filhos de um macaco, segundo uma hipótese que nem goza do prestígio de ser uma teoria.

Que seja! Mas nada disso resolve o grito angustiado de Camus: qual o significado da nossa existência?

Mas, gente, ainda há esperança. A ciência mesma não sabe o que havia antes da explosão, antes do Big Bang. E aí, mesmo no campo da ciência, todas as hipóteses estão abertas, e Deus, sob os olhares atônitos dos “doutos”, pode ser reentronizado criador de tudo, concedendo-se foros de verdade à palavra bíblica, mesmo ao custo de considerá-las, na forma, revestidas de caráter alegórico.

Os materialistas, tomados de saber e soberba, afirmam que não há racionalidade na crônica sagrada, que os elementos lógico-científicos não autorizam o remonte, ponto por ponto, da história que nos foi narrada pelos profetas, chegada até nós através de gerações e gerações de fiéis e suas igrejas, arcanas das verdades eternas. Martelam que a razão, à luz dos dados científicos conhecidos e provados (?), colocam em dúvida toda a narrativa bíblica e evangélica.

Acontece que a verdade bíblica não está sujeita a entes de razão. Ela decorre de enunciação divina. Deus, dentro da tradição judaico-cristã, usou Abraão e Moisés, e outros mais, como seus porta-vozes. A verdade divina veio aos homens por revelação. Tendo como fonte a divindade, não precisava dos ritos que o racional advoga. A divindade é a própria racionalidade, não está subalterna ao entendimento humano, assim como o milagre, tantas vezes registrado, não precisa da causalidade mundana, que ele é, em si mesmo, um efeito sem causa. Deus não se explica, Deus É.

A religião busca extirpar a maldade do ser humano, procura catequizá-lo para o bom caminho, o caminho da compaixão e da misericórdia. E não há nada mais compassivo e misericordioso do que o ensinamento cristão, banhado nas águas lustrais da tradição judaica, base moral sobre que descansa a nossa portentosa Civilização Ocidental, de que devemos muito nos orgulhar; civilização que colocou o homem no centro das coisas, que reabilitou o papel da mulher, colocando-a no mesmo plano de igualdade e importância do homem.

Essas bênçãos de bondade, compaixão e misericórdia, de olhar o outro como um igual e também abençoado pela graça de Deus, faz a diferença e foi, a pouco e pouco, no curso dos acontecimentos, se revelando como elemento fundante do reconhecimento da dignidade humana, sem o que não acabaríamos com a escravidão e com o papel subalterno da mulher.

Dizer que a razão também pode criar e introjetar no ser humano e na sociedade esses valores não esgota o tema. Tais valores estão no plano da moral, não estão no plano raso da lógica. E se a razão pode levar ao bem, o mal também se faz de forma racional. Por que a razão nos levaria a socorrer o próximo com diminuição do nosso cabedal? Por que colocaríamos nossa vida em risco para socorrer uma criança que se afoga? A razão nos diria que não deveríamos sofrer qualquer desfalque, ou colocar a segurança em risco, em proveito de um terceiro, muitas vezes desconhecido. Deixados à razão, não interferiríamos em algo que não nos traz proveito material.

O mal causado pelo Comunismo e pelo Fascismo não foi ditado pela loucura. Foi tudo racionalmente planejado e executado. Ideias e entes de razão foram construídos para justificar racionalmente todo o mal praticado. A eliminação de crianças deficientes, judeus e ciganos pelos nazistas seguiam todo um protocolo racional, executado por milhares e milhares de pessoas envolvidas em todo esse processo macabro e intrincado.

A morte e o sacrifício de milhões de pessoas sob o domínio comunista têm toda uma justificativa racional e ainda hoje é defendida pelos seguidores desse ideário nefasto. Levantem a questão do fuzilamento, em anos recentes, autorizado por Fidel Castro, de pessoas cujo crime era tentar fugir do totalitarismo cubano, para verem quantos defensores vão aparecer nas redes sociais.

Razão não é sinônimo do bem. Tanto o bem quanto o mal podem ter bases racionais. O bem, o reto, está em outro plano, está no plano moral, está fundado no substrato de nossa tradição judaico-cristã.

O religioso pode, sim, defender a sua crença na existência de Deus e de outra vida, a vida eterna, a ser vivida por aqueles que vivem submissos e pautam suas condutas pelos ensinamentos de sua religião.

Se assim você acredita, se assim você age, você já tem a resposta para a questão colocada por Camus, você já sabe qual o significado de sua existência.

Defenda sua fé, não se dobre à razão, não se dobre à ciência, que estas operam no campo das coisas materiais, faltas que são de regras e fórmulas para as coisas do espírito. Não nos esqueçamos que a geometria pitagórica, que era uma verdade absoluta, passou a uma verdade doméstica, aplicável somente nas coordenadas de nosso planeta, imprestável no plano universal, presente, por exemplo, a realidade de que uma reta não pode ser traçada no universo, que nele tudo se curva, até o tempo.

Celebre junto aos familiares e aos amigos, com muita alegria, esses dois mil e dezoito anos do nascimento de Cristo, que veio ao mundo para salvá-lo e dar sentido a sua existência. Siga todo o ritual que lhe foi passado por seus ancestrais; festeje com alegria Aquele que veio lhe trazer a boa nova da salvação, que veio dar significado a sua vida, e, se possível, faça, nestes dias, caridade, um bem que não desfalca o seu cabedal e o enriquece.

Não se esqueça: quem não crê não tem essa segurança que o crente tem. O crente tem uma finalidade existencial, não precisa de amparo psíquico, que amparado está em si próprio, na certeza de que sua vida faz sentido.
Em nome de Cristo, um feliz Natal para todos.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas

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