domingo, 9 de dezembro de 2018

[Pensando alto] A minha loucura no divã

Pedro Frederico Caldas

Aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.
Nietzsche

Nos indivíduos a loucura é algo raro – mas, nos grupos, nos partidos, nos povos, é a regra.
Nietzsche

Chegado ao Brasil, tomei um choque e conclui que estava padecendo de um grande mal. Fui a um clínico famoso, doutor Chagas. Paguei a consulta e, pouco depois, sem aperto de mãos e trocado um mero boa tarde, sentei-me frente a ele.

No princípio houve um certo embaraço. Embora em direção ao seu rosto, meu olhar era difuso, quase desinteressado, contra o olhar firme e compassivo do médico que parecia me chamar para a realidade, para o planeta terra. Aquele breve e perscrutivo silêncio foi quebrado pela esculápia indagação: o que o senhor sente?

Então, mais atento, olhei firmemente e respondi: sinto nada.

- Nada!?, indagou o médico. Reafirmei que nada sentia e que justamente isso deveria ser meu problema.

Por três vezes, o doutor bateu de leve na mesa a caneta que tinha entre os dedos. Olhou com certa benevolência para mim e perguntou de onde eu era. Respondi-lhe que a minha origem era irrelevante perante a gravidade da situação. Em seguida, ante aquele clima embaraçoso, disse-me que o objeto das preocupações dele eram os sintomas, como eu não sentia nada, mandaria devolver o valor da consulta paga e me aconselhou a procurar um psicanalista, aduzindo que havia um muito bom, um tal de doutor Altamirano Pomponet, no andar de baixo.

Cerca de duas horas depois, lá estava eu frente ao famoso Dr. Altamirano Pomponet, barba freudiana, encimada por olhos azuis penetrantes, em contraste com a pele bem morena, num misto de indiano e escandinavo.

O embaraço inicial foi maior ainda. Não sei por que cargas d´água psicanalista tem mania de quase não falar.

Ficamos os dois silentes, por alguns minutos, sem que uma só palavra fosse proferida. Era como se tivéssemos apostado quem piscaria primeiro. O silêncio foi quebrado por ele, com voz gutural e arrastada: o doutor Chagas me disse que o senhor está mal, mas que nada sente, está completamente assintomático, é isso?

Respondi que era.
- Se o senhor não sente nada, por que estaria mal?
- Aí é que está o problema, doutor, não sinto nada, mas sei que há algo errado comigo, é como se eu estivesse na contramão e achasse que os outros é que estavam dirigindo no sentido errado. Acho que estou maluco.
- Como assim? Dê um exemplo.
- Votei no Trump.
- E isso é sinal de loucura?
- Qual o percentual de gente que não bate bem, de uma forma ou de outra, doutor?
- Não chega a dez por cento, talvez uns oito por cento.
-Tá vendo, doutor, que tenho razão... No Brasil somente oito por cento votariam no Trump, na Hillary, noventa e dois por cento. Por exemplo, o senhor votaria em quem?
- Votaria na Hillary, claro, que não sou doido.
- Viu que há algo errado comigo?
- Como consta da ficha que você mora lá, talvez você esteja muito influenciado pelo imperialismo americano. Trump veste bem a roupagem imperialista com essa mania de “America First”, “America Great Again”.
- Como você tem certeza que a América é imperialista?
- Na faculdade todo mundo sabia e dizia isso. Por isso mesmo de vez em quando a gente tinha que gritar “Americans, go home!”.

Ilustração: Bernard Wiseman

- E eles obedeciam, iam embora?
- Como iam embora, se não estavam aqui! A gente gritava por gritar, alguém sempre puxava o coro. Se não gritasse a pessoa era considerada como se estivesse... isso que você se acha agora, na contramão.
- Sim, mas Trump foi eleito.
- Então por que você se acha com distúrbio?
- Só me acho quando venho ao Brasil. Aqui eu estaria entre aqueles oito por cento de lunáticos.

- Seu caso está bem diagnosticado, trata-se de Trumpismo Disfuncional Periférico. Você tem que gritar ao menos três vezes ao dia: never Trump, go home Trump! Entretanto, sob o ponto de vista da psicanálise tropicalista, a cura definitiva está em não votar mais nele nas próximas eleições. E lembre-se sempre: a América é imperialista e não é um ambiente bom para nós, latinos. Não deveríamos ir ou morar lá.
- Okay, doutor, muito obrigado, vou tentar me redimir e voltar à normalidade.
- De nada, nos veremos em dezembro, nas minhas férias.
- Nos veremos em dezembro?
- Claro, vou tomar um vinho em sua varanda, vou passar as férias na América, que não sou doido. Afinal, como diz Trump, America first.

Da nova varanda e na condição de doido manso, desejo um bom domingo para todos.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, 17-8-2018

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2 comentários:

  1. kkkk. Bom texto, parece Veríssimo. Bom para se ler sem se aprofundar em tentar achar verdades absolutas e se descontrair, mas com algumas verdades parciais.

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  2. Não sei se dá para rir ou para chorar, caro Unknown. É melhor dar um risada. Obrigado.

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