sábado, 22 de dezembro de 2018

A febre amarela

Alberto Gonçalves

A que propósito os portugueses se envergonhariam do prof. Marcelo se se podem envergonhar do sr. Trump e do sr. Bolsonaro? A que propósito lamentariam os mortos do SNS se há inúmeros sobreviventes?

Marquês do Pombal, Lisboa, 21-12-2018, foto: JP
2h15 – Após verificar que os protestos dos coletes amarelos deixaram o governo atento, a GNR atenta, a PSP atenta e a Força Aérea atenta, decido permanecer também atento e acompanhar em pormenor o dia do anunciado Apocalipse. Garanto a mim mesmo que ao longo de 24 horas não pregarei olho, a vigiar a partir do computador o caos que ameaça o meu querido país.

2h25 – Adormeço.

5h20 – Acordo e faço café.

5h30 – Acedo ao manifesto dos coletes amarelos. Infelizmente, a internet destruiu-nos a capacidade de concentração e, logo ao fim de dois parágrafos, dou por mim a desistir da leitura para comprar sapatos num site de vendas. Vale que não preciso de ler o manifesto para compreender no que consiste o movimento. Aos poucos, e sempre entre sites de sapatos, relógios e peúgas desportivas, vou espreitando o que inúmeras pessoas esclarecidas disseram acerca dos prometidos tumultos. O sr. Arménio da CGTP, por exemplo, uma personalidade inegavelmente equilibrada, revela que a coisa não passa de um bando de arruaceiros que “querem instabilidade para dar força à extrema-direita”. Ai, os marotos. Deve a isto que o dr. Ferro Rodrigues, sujeito impecavelmente asseado, chama o “mau cheiro populista que sopra da Europa”. Ainda que figurativo, o fedor incomoda-me. Volto a adormecer.

7h00 – A hora marcada para o início do tsunami amarelo. Continuo a dormir.

12h15 – Acordo às 12h15. Vejo que são 12h15 e entro em pânico: decerto a vaga de extrema-direita já levou tudo à frente e as comunicações caíram. As comunicações não caíram. No Facebook, circula uma fotografia, tirada não sei onde, em que duas dúzias de coletes amarelos se veem rodeados por uns cinquenta polícias (se descobrisse as armas de Tancos, o Exército não faltaria). Achei o policiamento escasso e preocupante: a fúria fascista exige, no mínimo, uma proporção de 5 para 1 e, idealmente, 5 para 0. Num desses programas de “debate” em que, graças a Deus, todos concordam, um comentador isento e avençado do regime pedira “ação direta”, leia-se bordoada na ralé.

12h35 – Ligo o televisor, que não acolhe canais “tradicionais” há meses. A RTP faz um “direto” dos protestos. Por acaso, são na Catalunha. A TVI 24 mostra os manifestantes no Marquês de Lisboa. Gritam “O povo unido jamais será vencido”, ou seja, a extrema-direita recorre a slogans dos comunistas chilenos, blasfêmia que prova a ignorância cega dessa gente. A repórter fala em “tensão” e “confusão”. Há notícias de três detidos. Aparentemente, não sobraram muitos mais.

13h00 – Leio algures que velhos organizadores de rebeliões boas (“buzinão”, “geração à rasca”) abominam a “falta de politização” dos coletes amarelos (rebelião má), que não traduzem uma agitação “orgânica” e desejam abolir os partidos, os partidos que, coitados, tanto se esforçam pelo bem comum e por alguns bens incomuns. A extrema-direita, sete ou oito biltres, tem imensa lata. Na CMTV, uma jovem manifestante critica “a porcaria que tomou conta do país”. No sofá, peço retoricamente à sirigaita que dobre a língua quando se referir a uma nação que já ocupa o 16º posto no PIB per capita da zona euro e, não esquecer, é a 21ª economia com maior crescimento na UE. E isto antes de as forças progressistas que nos governam acabarem de enxotar o que resta do investimento estrangeiro e imperialista.

13h28 – Em Faro, 20 ou 30 insurrectos (os demais, informa o repórter, foram almoçar) vagueiam numa rotunda. Erguem cartazes contra a corrupção. Corrupção? O prof. Freitas, personalidade inapelavelmente digna, veio há dias assegurar a honestidade do ex-banqueiro Salgado. E o dr. Pinho aparece agora na TVI a assegurar a inocência do dr. Pinho nos “casos” (fictícios) EDP e BES. Corrupção?  Só se for a das “toupeiras” do Benfica ou não sei quê, assunto que, na prioridade dos canais, sucede à devastação populista que assola Portugal.

13h30 – O primeiro-ministro deseja que os protestos continuem a correr com “tranquilidade”. O dr. Costa padece de excessiva tolerância. Em paragens completamente democráticas, como em Cuba, na Coreia do Norte, na Venezuela e na saudosa comuna de Jonestown, não há resmungos: há a gratidão dos súbditos perante líderes virtuosos. Apesar de a maioria dos portugueses ser grata, e proceder com respeito e juizinho, pairam por aí “criminosos e infratores” (palavras da radiosa ministra da Saúde) que se queixam de barriga cheia, desafiam o poder e fomentam desavenças. As cadeias servem para quê, afinal? Imito (cruz, credo) os coletes amarelos e parto para almoço, com oração prévia a louvar os senhores que nos tutelam.

15h00 – Regresso à vigilância. Nas televisões há azáfama e excitação. Assusto-me, convencido de que a extrema-direita adotou a luta armada e desatou a rebentar com propriedade sortida. Imagino helicópteros do INEM a cuidarem do resgate de inocentes, certos de que cada despenhamento abrirá concursos de apuramento da verdade, custe o que custar. À cautela, consulto preços de voos para Caracas (1.026€). Não concluo a transação porque descubro a tempo que o rebuliço televisivo se prende com o Benfica, prestes a perceber se é, ou não é, corrupto. Respiro de alívio.

16h23 – Noto que, a bem da estabilidade, os coletes amarelos sumiram da atualidade noticiosa, com excepção do vídeo em que um PSP despe o colete (de cor distinta) para insultar e oferecer porrada a uns idosos extremistas. Aquele coração mole não os abateu ali, e foi pena.

17h10 – Volto às televisões e aprendo que, à semelhança do dr. Salgado, do dr. Pinho e outros enormes vultos, o Benfica é igualmente inocente. Ao que tudo indica, a extrema-direita bateu em retirada de vez (numa carrinha de nove lugares).

17h15 – Sem querer comentar os coletes amarelos, Sua Excelência, o Presidente da República comenta os coletes amarelos: “Os portugueses não trocam a segurança da democracia pelo aventureirismo de experiências marginais e anti-sistêmicas”. Pois não. A que propósito os portugueses trocariam? A que propósito os portugueses reclamariam das estradas que se esfarelam se têm estradas que continuam inteiras? A que propósito os portugueses lamentariam os mortos do SNS se há inúmeros sobreviventes? A que propósito os portugueses arrasariam à paulada a Proteção Civil que não auxilia nos desastres se esta nos aconselha a vestir agasalhos no Inverno? A que propósito os portugueses chorariam o dinheiro que o Estado lhes tira se podem celebrar o dinheiro que o Estado lhes permite reter? A que propósito os portugueses se envergonhariam do prof. Marcelo se se podem envergonhar do sr. Trump e do sr. Bolsonaro? A que propósito os portugueses protestariam uma situação que é a cara chapada deles próprios? Quanto à liberdade, os portugueses são livres – de obedecer. E quase todos obedecem com gosto a quem os protege do mundo, incluindo das hordas de extrema-direita. O fascismo não passará. Aqui, aliás, não passa nada.

21h10 – Cruzo-me na estrada com um ajuntamento de coletes amarelos. Sinto um nó na garganta. Depressa constato tratar-se de um acidente rodoviário. Fico contente.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 22-12-2018

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