sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

[Aparecido rasga o verbo] Natal

Aparecido Raimundo de Souza

OUTRO DIA ME PERGUNTARAM se eu gosto do Natal. A minha resposta foi taxativa. Lacônica. Fria. NÃO! De fato, este dia deixou, faz tempo, de fazer parte do meu mundo particular, da minha concepção como pessoa, ressaltando, entretanto, nada a comemorar apesar de ser católico fervoroso.

O “Vinte e Cinco de Dezembro”, para mim, é um dia como outro qualquer. Nada a ver, vejam bem, nada a ver com a data magna do Ilustre Aniversariante que, acima de qualquer coisa, tem meu respeito e gratidão “ad aeternum”.

O Natal, em si, me traz um rosário enorme de tristezas. Lembranças que não me fazem nem um bocadinho alvissareiro trazer à tona. Entretanto, para não deixar o assunto no vazio das divagações, devo dizer apenas que a noite de Natal me leva de volta à infância. Traz à memória o tempo em que meu padrasto Jorge era vivo.

Todo ano, nesta noite, ele fazia questão de reunir a família em volta da grande mesa montada na sala enorme. Encabeçando, sentava numa ponta, mamãe, ao lado, eu, meus irmãos Claudio, Rogerio, André, Dulcinha, Jorginho Júnior e Jorcimar. Cada um com suas respectivas namoradas ou esposas e filhos. Outros familiares também marcavam presença, como tios, tias, primos, primas, avós e amigos.

Neste tom de alegria incontida, a noite de Natal se fazia constituída de uma mesa bonita, repleta de guloseimas, refrigerantes, vinhos e muita comida. Sem falar na euforia reinante da galera em polvorosa, irmanada em torno dos sorrisos que se alegravam e expandiam pelos quatro cantos da moradia espaçosa.

Com o falecimento do velho Jorge (O “Bodi”, como eu carinhosamente o chamava), a mesa perdeu o luxo da fartura, a exuberância da fecundidade e o charme da energia positiva. Deixou de ter a família à centelha peculiar do patrono que a capitaneava com a sua magia.

Feneceu o alvor e a celebridade que reverberavam em cada coração ali presente. Tudo virou uma nostalgia enorme que se tornou depois, nos natais subsequentes, um pesar de ausência insubstituível. Não só insubstituível, impiedoso, maçante.

Os natais a partir de então, se quedaram num vazio púmbleo. Um devoluto inexpugnável, irredutível, doente, gordo de quimeras prazerosas e de pequenos mimos a serem lembrados. A estirpe, a casta genealógica, depois que o “Velho Bodi” bateu as botas, como que se desagregou se dissolveu. Os vínculos biológicos se divorciaram de vez. Esdruxulamente, escafederam. 

Os irmãos foram, cada um, para seu lado. E todos para lugar nenhum. Hoje, raro vê-los ao redor de alguma coisa. Mesmo às mesas de suas próprias casas, quando às vezes nos encontramos, por acaso. Assuntos corriqueiros, temas mesquinhos, repelentes.

O que ainda, até pouco tempo nos mantinha por perto, certamente a matriarca sobrevivente, Mamãe. Mas ela também se foi. Partiu, de repente, num abrupto inesperado, num inopinado sem retorno.

Mamãe, verdade seja dita, cansou de viver, de lutar, de dar murros em pontas de facas, de chorar pelos cantos, de aturar os netos desprezados (malcriados e sem o mínimo de compostura) pelos pais que despejaram em sua casa, sem pedir licença, como se o seu cantinho de descanso fosse um depósito de moleques endiabrados.

Mamãe, dentro de seu lar, vivia uma espécie de hospício entre quatro paredes infestadas de desassossegos. Como “não há mal que sempre ature, nem bem que nunca se acabe”, a mamata acabou. Cada um teve que assumir a sua encrenca pessoalmente, ao vivo e a cores. Outros mandaram seus queridinhos para a escola pública do mundo.

Temo por estes meus irmãos que agiram assim e pior, receio, igualmente, pelos que fizeram de mamãe uma válvula de escape. Um brinquedo. Estes crápulas não foram homens de verdade, ou machos suficientes para assumirem os problemas que criaram. Irmãos (se é que posso chamá-los assim) não tinham, ou melhor, ainda não têm vergonha para reconhecerem seus atos danosos.  Dona Ana que se fodesse.

Mamãe, infelizmente, não está mais entre nós. Às vezes penso, foi bom, descansou. Virou estrela num céu distante que ela fazia questão de olhar todas as noites da varanda de seu apartamento (quando tinha alguma folguinha) de frente para o mar. De lá de onde está agora, não tem mais que se preocupar com os netos chatos e birrentos que lhe atazanavam a humildade de ficar quieta e calada. 

De aguentar inconvenientes que lhe carcomiam a pachorra da ociosidade. Não mais que se desgastar com o André (o filho drogado) criador de mil problemas.  Tampouco com o outro que, junto com a mulher, vinham para sua casa para lhe “afanar”, verdade!, afanar pequenas coisas.

Tudo se extinguiu. Acabou. Encerrou. Os meus natais de ontem, portanto, ficaram no passado. Nos natais de agora, procuro passar com meus filhos, netos, ex-mulheres. Uma relação de cumplicidade mútua que não some que não se acaba. Tampouco se desvanece. Tento de alguma forma, me fazer presente. O mais que posso. 

Procuro alimentar este vago audacioso, pernicioso, imensurável que resguarda, que obstina, teima, machuca e entristece. Sobretudo, que ainda faz sangrar meu íntimo, que corrói meu ser, e que estranhamente não sara. Ferida aberta, ainda agora contunde, aniquila, mata aos poucos, devagar, em câmera lenta.

Mas deixa pra lá. Passado, passado. Enterrado. Bola pra frente.  Esta, Amados e Amadas, a mensagem simples que gostaria de deixar relacionada aos meus natais de ontem. Espero, em Jesus Salvador, que os próximos me sejam melhores.

PS: A todos os meus leitores e amigos, um FELIZ NATAL.
SAÚDE, GRAÇA E PAZ!


Título, Vídeo e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Vila Velha, no Espírito Santo. 21-12-2018

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6 comentários:

  1. Assim é a vida...
    Lindo texto!

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  2. Amiga de verdade foi minha mãe. Aquele doce de pessoa faleceu ao tempo de uma longa jornada neste mundo. Saudades eternas.
    Amiga de verdade hoje somente a máquina de lavar e quando a amiga quebra vou na loja e compro outra.

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  3. AVISO A TODOS OS NAVEGANTES. A PARTIR DESTE TEXTO SÓ RESPONDEREI AOS LEITORES E AMIGOS QUE VIEREM IDENTIFICADOS, COM A FOTO DE ROSTO, NOME COMPLETO E E-MAIL. AINDA ASSIM, DEPOIS QUE MINHA SECRETÁRIA IDENTIFICAR A AUTENTICIDADE DO E-MAIL. QUE ME PERDOEM OS "ANÔNIMOS". NADA CONTRA. EU MESMO SOU UM "ANÔNIMO" IDENTIFICADO. (APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA, DE VILA VELHA, NO ESPÍRITO SANTO - aparecidoraimundodesouza@gmail.com. FELIZ NATAL A TODOS. SAÚDE, GRAÇA E PAZ!

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    1. Muito inteligente...mas como é bravo esse homem!

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    2. Mas então quando Vossa Senhoria escreverá um texto sobre o seu vizinho médium João de deus? Que dinheiro é aquele compadre? Se até nos meus centavos a Receita Federal passa a peneira? PQP, PQP, PQP, PQP, PQP, PQP...

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  4. Pergunta: Em Abadiânia inexistem a Vigilância Sanitária e Anvisa? A situação por aí é séria e muito perigosa!

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