domingo, 16 de dezembro de 2018

Como é bela a vida num país sem populismo

Helena Matos

O PR comenta os descarrilamentos dos eléctricos. Os hospitais públicos recusam doentes. Saída para a crise? Adotar uma coelha selvagem e também um ex-criador de vacas reconvertido energeticamente.

Foto: Maria Miguel Cabo/TSF
Terça-feira, 11.
O tiroteio voltou a eclodir e a matar. Desta vez foi num mercado de Natal, em Estrasburgo. A cada atentado terrorista temos uma espécie de guião: quem começa por matar é o tiroteio.

Depois admite-se que alguém terá segurado a arma. Em seguida temos um razoável compasso de espera até que se avançam os elementos que confirmam o que já se suspeitava: o autor do atentado é muçulmano e fez questão de o sublinhar, no momento em que matava.

O Estado Islâmico também celebra a mortandade, mas, segundo o novo mantra jornalístico, não estamos perante um verdadeiro terrorista islâmico. A questão do “verdadeiro terrorista islâmico” está a tornar-se uma espécie de alargamento do conceito de denominação de origem dos vinhos e enchidos àqueles que, além da infelicidade de não consumirem os produtos atrás citados, passam à prática o seu desejo de matar em nome de Alá. Por mais que o terrorista islâmico grite que “Alá é grande!” enquanto dispara sobre os desgraçados que se cruzam no seu caminho temos de evitar a expressão “terrorista islâmico”.

Por fim, mas não menos importante, com 29 anos e 27 processos judiciais em França e na Alemanha, Chérif Chekatt   classificado como “S”, ou seja, como perigoso para a segurança da França, estava, contudo, em liberdade. Como é que isso é possível? O enquadramento legal na UE não está feito para responder ao terrorismo: mesmo com ficha “S”, um estrangeiro que tenha conseguido a nacionalidade francesa  dificilmente pode sequer ser expulso para o seu país de origem.


Como de costume acenderam-se velas e fizeram-se as declarações piedosas do costume sobre as vítimas de mais este incidente. Até que um novo tiroteio volte a eclodir e a matar voltaremos a ignorar o assunto.

Quarta-feira, 12.
Um doente com uma lesão grave numa mão, decorrente de um acidente de trabalho com uma rebarbadora, foi enviado do hospital de Setúbal para o hospital de São José, onde deu entrada cerca das 18h. No Hospital São José estava avariado o equipamento necessário à cirurgia e foi decidida a transferência do doente “para outra instituição com capacidade para a intervenção”.

O Hospital de S. José tenta transferir o doente para Santa Maria. Mas Santa Maria recusou. Ou melhor dizendo, não o recusou, mas também não o recebeu. Como explica a sua administração, Santa Maria nega ter recusado o doente, simplesmente não o conseguiu atender porque estão  “a atravessar um período que não é de funcionamento normal”. (Traduzindo, os enfermeiros estão em greve). O hospital de S. José tentou de novo transferir o doente, agora para S. Francisco Xavier mas esta unidade tinha uma intervenção a decorrer e não pôde também receber o doente. Pelas 21h, ou seja, três horas depois de o doente ter dado entrada em S. José, chega um sim:  o serviço de cirurgia plástica de Vila Nova de Gaia aceitou receber o doente. Pelas 22h35 foi  determinada a transferência do doente para Gaia. Às sete horas da manhã do dia seguinte o doente acabou finalmente por entrar no bloco operatório em Gaia.

… É isto: tornamo-nos reféns do Estado! A verba disponível vai para as suas corporações e a cada dia que passa essas corporações reforçam o seu poder através do monopólio da prestação de serviços: este homem não poderia ter sido operado num hospital privado de Lisboa? Aliás, para lá do sofrimento a que foi sujeito nesta longa espera, não se gastou muito mais dinheiro ao SNS levando-o para Gaia? Quem disse que o SNS implica sermos tratados num hospital público e não naquele que melhor se ajusta naquele caso?

O que está em causa na perseguição aos privados na área da Saúde (tal como na da Educação) é a transformação dos utentes em escudos humanos nas guerras sindicais. Logo, ou se põe fim a este entendimento de que o SNS presta serviços exclusivamente nos hospitais públicos ou, recusados de hospital em hospital, acabaremos a dar a volta a Portugal para sermos atendidos.

E no fim, ainda teremos de ouvir que não fomos recusados simplesmente, como explicou a administração do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, que integra o Santa Maria, “a avaliação feita foi essa e o doente foi tratado com o que de melhor há no Serviço Nacional de Saúde (SNS)” Imagine-se onde teria acabado o doente se tivesse sido tratado com o pior! Quiçá na Venezuela!

Quinta-feira, 13

Convenhamos que o comunicado deve ter sido redigido pelos “dois gatos (casal)” (curioso este detalhe informativo sobre a conjugalidade dos gatos, mas convém não aplicar a heteronormatividade aos felinos: estes constituirão  um casal hétero ou homo?) e pela “coelha selvagem adotada” seja isso o que for do ponto de vista da coelha (se é coelha não é adotada porque adotadas são as crianças, e se é selvagem o seu lugar não é ao pé das pessoas) pois não só não se percebe se  Francisco Guerreiro lê nas florestas e apanha lixo nas praias, o contrário ou nada disso.

Mais misteriosamente ainda sabemos que uma das filhas nascerá “estima-se, a 5 de março”, mas ficamos sem saber se a outra filha já nasceu ou se ainda não tem data estimada para o nascimento. Convém, contudo, que não nos deixemos iludir pela ignorância e apalhaçamento deste tipo de prosas, pois aquilo que delas sobressai é uma visão arrogantemente urbana da sociedade.

Esta elite urbana, os urbanitas, chamam-lhe os espanhóis, de que o PAN representa o lado mais histriónico, está a perseguir o mundo rural, para o efeito cada vez mais apresentado como ignorante.

Não por acaso as vacas substituíram os cafés no discurso do Portugal atrasado que o progressismo vai combater: nos governos Sócrates o então responsável pela ASAE anunciava o fim de metade dos cafés “por não cumprirem a legislação comunitária ou por não terem viabilidade económica”.

Agora é o ministro do Ambiente e da Transição Energética (só o nome deste ministério é um programa!) a declarar necessária uma redução entre 25 a 50 por cento de bovinos para “descarbonizar o país”.

Em conclusão, ou se metem os urbanitas na ordem ou o mundo rural, o tal para que os urbanitas aprovam tantos planos de apoio e repovoamento, vai acabar a ser alvo de campanhas de adopção do tipo “Adote uma coelha selvagem e também um ex-criador de vacas agora reconvertido energeticamente à neutralidade carbónica.” Vai ser um sucesso. Em Lisboa, claro.

Sexta-feira, 14. 
Um eléctrico da Carris descarrilou na zona da Lapa, em Lisboa, causando 28 feridos ligeiros. O facto em qualquer outro lugar do mundo seria da competência dos técnicos de transportes e da responsabilidade da empresa ou instituição que gere esses transportes. Em Portugal não.

De imediato, vindo desse local misterioso onde parece estar em estado de vigília constante à espera de um facto para comentar,  surgiu o Presidente da República e logo desatou a falar naquele estilo “assim e o seu contrário”: “Felizmente houve uma capacidade de resposta imediata e muito eficiente e o número de pessoas que já foi resgatado é muito superior àquelas que falta desencarcerar”.

Continuando neste registo de “explicador para tontos” o Presidente da República acrescentou ou minguou que no caso vai dar ao mesmo:  “Vamos esperar, a ver se o saldo global é um saldo que não tenha vítimas que não sejam feridos”, “Estão em curso ainda muitas diligências, primeiro em relação ao número de pessoas que estão a ser desencarceradas”.

A esta intervenção efetivamente esclarecedora juntou-se a decisão da Junta de Freguesia da Estrela de garantir apoio psicológico aos sinistrados e suas famílias. Perante tanta palavra do PR e iniciativa da junta, o que disse o presidente da CML que desde há dois anos tem a tutela da Carris? Nada.

O que explicou o vereador Miguel Feliciano Gaspar que tem os pelouros da Mobilidade e Segurança? Nada.

Finalmente, a Carris, empresa responsável pelo eléctrico, anunciou laconicamente que vai abrir um “inquérito minucioso” para apurar quais as razões que levaram ao descarrilamento. Nem sei se teremos tempo para ler tanto inquérito; assim que me recorde temos a leitura prometida e adiada do inquérito sobre as “armas roubadas/afinal não roubadas/talvez desviadas/quiçá devolvidas” de Tancos mais o inquérito ao desvio de meios corrido em 2017 nos fogos de Mação. Mas parafraseando o nosso Presidente da República: vamos esperar pelo desencarceramento dos inquéritos.

Em resumo, Portugal é um país a salvo do populismo. Ou melhor dizendo, um país em que os populistas que nos governam conseguem não ser contestados pelos populistas na rua.
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 16-12-2018

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