sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

[Aparecido rasga o verbo] De novo, o doce veneno do escorpião

Aparecido Raimundo de Souza


SÃO PEDRO ORDENA A UM DE SEUS ANJOS (aliás, o mais bonito de toda a falange, pertencente à linhagem da Segunda tríade, esta trinca composta pelos príncipes da corte celestial), que vá até o prédio (uma construção moderna, com várias salas, ar condicionado, água gelada, cafezinho e televisão, erigida à entrada principal do paraíso), receber as novatas que acabaram de chegar da terra. Estas almas estão no que o Pai Maior batizou com o nome de Centro de Triagem. Neste espaço as criaturas que morreram recentemente estão à espera para a entrevista temerosa – e, a partir dela, serem aceitas junto ao Eterno, ou recambiadas para as profundezas de Lúcifer.

O galã saradão e queimado de sol (assim, grudadinho com Jesus Cristo, filho do homem), adentra no recinto e se senta pomposo, num trono quase todo encoberto por nuvens brancas como flocos de neve. Ao lado esquerdo dele, se posta Sara, uma querubina sumariamente vestida deixando entrever, por debaixo de um baby-doll transparente, um sutiã recheado com seios fartos e uma calcinha minúscula, cobrindo uma maçã adocicadamente perfumada e saborosa.

O sutiã e a calcinha (é bom deixar explicado) são azuis. A beldade traz nas mãos uma caneta e várias folhas de papéis presas numa prancheta cor de rosa. Algumas destas folhas são pretas e as outras, em igual número de páginas, vermelhas. Quem tiver o nome gravado nas folhas vermelhas, estará a salvo. Gozará da bem-aventurança. Contudo, a infeliz que for grafada nas pretas, descerá diretamente para as profundezas. A prestimosa traz, ainda, uma pequena arca toda trabalhada em madeira de lei, repleta de chaves. Deposita todo este conjunto de bugigangas sobre uma mesa redonda também à esquerda do sólio. Após este pequeno ritual, faz um sinal com o indicador para que a cabeça da fila se levante e dê um passo à frente.

Antes que a primeira mulher apontada abra a boca, o charmoso se adianta e cumprimenta a todas:
- Bom dia, amadas. Sejam bem-vindas. Meu nome é Michel sem o Teló claro, e esta aqui ao meu lado é Sara a Prometida. Não sei a quem, mas não importa. Passemos ao que, de fato, viemos fazer aqui.  Serei breve. Atenção. Apenas duas perguntas. A seguir, ditarei a sentença e Sara entregará a chave correspondente a cada uma de vocês, rumo à eternidade, ou não. Muito bem. Posto isto, você aí, que acabou de se levantar. Como é seu nome e o que a senhorita fazia na terra?
- Bom dia. Meu nome é Wanda. Era vendedora de sapatos num shopping.
Imediatamente o anjo emite uma ordem a Sara que é atendida de pronto:
- Dê a ela a chave da fábrica de sapatos.

A fila começa a andar:
- E você, seu nome e o que fazia?
- Bom dia, seu Michel. Meu nome é Carla Regina. Dava banhos em defuntos frescos recém-chegados ao necro.
- Necro? Que venha a ser necro?
-Necrotério, senhor.
Acabada esta explicação, o formoso anjo pede a Sara que seja entregue a ela a chave da capela do velório.

E segue em frente, sem mais demora:
- Sua vez, moça dos olhos verdes claros.
A moça dos olhos verdes claros se aproxima e explica:
- Primeiramente bom dia. Meu nome é Terezinha. Eu exercia a profissão de enfermeira.
- Ok. A partir de agora cuidará dos pacientes com a saúde precária.  Sara, dê a ela a chave do hospital.

Outra se achega receosa:
- E você, seu nome e do que se ocupava?
- Bom dia. Meu nome é Rachel. Era funcionária pública.
- Sara, passe para ela a chave onde ficam os sacos. Pode começar a coçar a partir de agora. Funcionário público por aqui só coça o saco.
- Você, com esta tesoura e pente?
- Desculpe. Meu nome é Wanderléia. Eu era cabeleireira. Bom dia, para o senhor também.
- Sara, manda ela para o salão do reino.
Sara fica na dúvida. Indaga:
- Das Testemunhas de Jeová?
- Não, sua anta. Estou me referindo ao coiffeur de Maria Madalena, a samaritana que Jesus perdoou e se casou com ela algum tempo depois, embora ninguém admita esta passagem tão esdruxulamente correta.

Dito isto, o aprazente progride com a missão dada por São Pedro:
 - Você, de cabelo vermelho. Pode se aproximar. Nome e o que fazia na Terra?
- Bom dia. Me chamo Lucíola. Era corretora de imóveis.
- Ótimo. Legal, Lucíola. Vou deixar aos seus cuidados a chave da imobiliária. Temos uma vila de casas, prédios e mansões celestiais com ruas de ouro, sem falar nos condomínios fechados, circuitos internos de tevê, seguranças vinte e quatro horas, etc. etc... Próxima!
- Um bom dia cheio de paz para o senhor. Sou Sabrina. Eu era psiquiatra.
- Sara, dê a ela a chave do manicômio.

- Atrás da Sabrina, sua vez. O que fazia na terra?
- Bom dia. Meu nome é Suzane. Era assassina fria e calculista. Matava por gosto. Mandei pras cucuias meus pais, ajudada nesta empreitada pelos parceiros de fé, os irmãos Cravinhos.   O charmoso anjo se levanta do trono, encara Sara e, logo em seguida, fixa seus lindos olhos em Suzane.
- Lembro do caso.  Richthofen.  Von Richthofen. E qual o gosto de matar?
- Depende do sujeito que pretendia despachar. Executei meus pais por causa de herança. Acabei, como pode ver, na merda. Se o cidadão aí tiver alguém que queira ver o capeta mais cedo...
- Estou fora, moça. Está na merda? Bem feito!  E continuará. Sara, dê a ela a chave da ala “A”. Caderno preto nela.
Sara quase tem um piripaque:
- Tem certeza, Michel? Na ala “A” estão todos os tarados, os assassinos, os facínoras e estupradores que subiram anteontem...
- Por isto mesmo! Não discuta. Obedeça. Dê a chave a ela e anote na folhinha preta. Chega pra cá, você aí, calada e aparentemente insegura: nome e o que fazia na Terra?

- Bom dia. Sou Ana Carolina. Era jornalista.
- Li tudo sobre sua morte. Afinal, você se suicidou a si mesma ou seu namorado Hamison...?!
- Desculpe. Não gostaria de voltar a este assunto...  
- Tudo bem. Vamos respeitar o seu silêncio. Sara, por gentileza. Passe a ela a chave da sala dos fofoqueiros. Quem é a próxima?

- Eu!
- Seu nome e o que fazia?
- Aceite meu efusivo bom dia. Sou Gleisi Hoffmann. Era senadora da república.
- Senadora?
- Sim senhor. E presidenta do PT.
- Sara, por gentileza, dê a Gleisi a chave da ala dos picaretas.

A fila deflui normal e sem maiores novidades:
- Sim?
- Bom dia, simpático. Meu nome é Maria.  Eu era costureira.
- A senhora costurava em casa ou dava umas quebras de asas por fora?
- Vamos dizer que eu adorava dar meus pulinhos. 
- Vou lhe delegar a chave da alfaiataria. Sara...

Pinta uma morena que faz o anjo tremer ligeiramente na base. Ele fica por alguns minutos apatetado, boquiaberto. Por fim, consegue retomar o controle da situação:
- Deixa adivinhar. Você tem ares de ser secretária executiva.
- Bom dia. O senhor quase acertou. Eu era assistente social. Ah, quase me esquecia. Meu nome é Tereza.
- Seja bem-vinda.  Sara, dê a ela a chave do INSS.
Sara com um sorriso contagiante lembra ao ameno que o INSS já tem alguém respondendo pela chave.
- Meu gato... perdão... Michel, no INSS temos a...
- Esquece. Tira a merda que ficou até agora. Substitua imediatamente. Precisamos reformar a previdência. Urgente! Próxima, por gentileza.

- Seu anjo, meu nome é Lauriete.  Bom dia. Eu era faxineira.
- Passe a ela a chave do curral de porcos.
- Eita! Vaga preenchida.
- Estou me referindo à Brasília. Manda ela agora para o Distrito Federal. A senhorita de amarelo?

- Bom dia, meu prezado. Eu sou a Brenda. Cuidava de animais abandonados.
- Divino e maravilhoso! Sara, entregue a ela a chave do canil. E então, você aí de capa preta, cheia de livros?
- Bom dia. Sou a doutora Gabriela Hardt. Fui juíza.
- Prazer. A que substituiu o Serginho?
- Ele mesmo. Moro como o senhor deve saber fodeu o Lula sem dó nem piedade.
- Não discuto política. Sara, dê à ilustre meritíssima a chave do direito. A penúltima, pois não?

- Bom dia. Espero! Olha seu Michel. Não sei o que o senhor vai fazer comigo. Eu era professora.
- Seu nome?
- Helley Batista.
- Oxente! Wesley Batista?!
- Por tudo quanto é mais sagrado. Não me confunda com o dono da JBS. Meu nome é Heley Batista, Heley Batista. Professora.
- Ah. Por certo! Viajei. Estava em alfa. Desculpe a mancada. Lembro com precisão da senhora. Foi morta queimada ou queimada morta em face de um maluco ter ateado fogo na creche onde trabalhava. Correto?
- Sim em...

O mavioso se antecipa:
- Janaúba, Minas Gerais. A senhora salvou mais de vinte crianças. Uma heroína. Sara passe a esta inimitável a chave da sabedoria.

Chega à vez da última. Uma gata loira e gostosa de deixar qualquer um doido. Michel, pela segunda vez, volta a ficar pasmo (como quando vira a morena Tereza) e fora de si.  Literalmente assombrado, estático e surpreso, diante de tanta beleza e formosura:
- Pois bem, princesa. Você ficou para a sobremesa. Seu nomezinho e o que fazia na terra?
- Bom dia. Eu era... meu Deus! Eu era...
- Fale... era o quê?
- Era prostituta...
- Deixa ver se entendi direito. Garota de programa! É isto? Ganhava a vida pulando de cama em cama?
- Às vezes pintava um beliche no meio, noutras um sofá sujo e bolorento... ou dependendo do freguês, só um colchonete cheirando a bosta. Mas, no geral... desculpe o palavreado meio chulo!

- Ainda não escutei seu nome?!
- Raquel Pacheco.
- Estou enganado, se tiver me corrija. Sua fisionomia não, todavia, seu nome, sua face, seus olhos, sua boca, seu corpo, aaaiii... uuuiii... iiii... véééi... você me traz à memória outra pessoa. Está me falhando a memória...
- Ah sim. Se eu...
- Diga de uma vez, sem rodeios.  Estou como pode perceber, suando em bicas. Desembucha...
- Bruna. Bruna Surfistinha.
- Puta que pariu! Bruna Surfistinha... em carne e osso. Eu sabia, eu sabia.  Bruna Surfistinha. Quem mais?! Que fofinha! É hoje que São Pedro me castiga... e Jesus se enfurecerá...
Gabriel se levanta às carreiras e antes de virar as costas e sumir por onde deu as caras, grita à querubina Sara, que o assessorou até aquele instante:
- Sara, pode dar à Raquel, digo, pode dar à Bruninha a chave reserva do meu bangalô.

P.S.: Minhas sinceras condolências à família enlutada de GERSON CAMATA ex-governador lá do Espírito Santo, e também ex-senador (sobretudo grande e talentoso jornalista e meu amigo particular). GERSON foi assassinado a sangue frio na passada quarta-feira, 26 de dezembro, em Vitória, onde residia. Que a sua alma descanse em PAZ.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Do Sitio Shangri-Lá, um lugar perdido no meio do nada, MG. 28-12-2018

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8 comentários:

  1. QUE FATORARO!
    LAMENTO PELA MORTE DE UM POLÍTICO!
    PARTINDO DE UM CARA CRITICO COMO O APARECIDO,ENTAO...
    MESMO RESPEITANDO A OPINIÃO DO AMIGO, TENHO PARA MIM QUE SE O SUJEITO OPTOU PELA POLÍTICA..."PELO MENOS MANCAVA!"

    PAIZOTE

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    1. Boa noite, amigo Paizote. Antes de mais nada, seja bem vindo. Bem, vamos a resposta ao seu comentário das 14:59. Não vejo as minhas condolências à família enlutada do meu amigo Gerson Camata, por ele ser político. Como é do seu conhecimento, odeio políticos e odeio a política. Todavia, no caso do Gerson Camata, antes dele se meter na imundície, o cara era jornalista e tinha um programa na Rádio Espírito Santo, lá em Vitória. Eu cheguei até ele, por causa da profissão. E bota tempo nisto. Sempre respeitei o cara como jornalista, porém, como politico, eu jamais deixaria uma palavra de afeição, ainda que por ter sido morto de forma tão brutal. Camata por dois anos, em seu programa (lembrando, antes da política) abriu um espaço onde eu fazia fofoca, ao vivo, das celebridades. Quando ele se meteu a ser governador do Espírito Santo, eu me afastei. E, desde então, nunca mais nos falamos. Fica na PAZ. Some não.
      Aparecido Raimundo de Souza, de Shangri-Lá, um lugar perdido no meio do nada.

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    2. Parece mais um jornalista que odeia todo o universo. Aff!

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    3. É cumpadi(sic)! Abadiania tá pesando, tá?

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  2. Eu faço a mesma coisa. Tem um médico que operou minha esposa e minha mãe antes de ser político, cujo trabalho foi de excelência. Tornou-se político, hoje sofre de Parkinson. Sempre eu o trato bem, pela profissão de excelência na saúde. Como político sempre será um escroto.
    Jamais votei nele.
    Não conheço processos sobre os CAMATA, aliás Rita Camata sempre foi uma mulher linda.
    fui...

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  3. Bom dia, caríssimo Vanderlei Rocha. Agradeço a sua participação no meu texto hoje, às 07:33. Pois bem. Tem um outro cidadão que além de viver no meio da cambada de ladrões e vigaristas, também e jornalista. Aliás, começou como locutor esportivo numa rádio local. Faço referência ao Amaro Neto, responsável pelo programa "Balanço Geral" edição Espírito Santo.
    Neste programa ele comenta as notícias, os assassinatos, as barbáries da saúde, os descasos das polícias civil e militar, fazendo gracinhas. Questão de duas ou três semanas atrás, na retirada das bagagens, ambos chegando no mesmo vôo, no aeroporto Eurico Sales,lá em Vitória, tivemos o prazer de nos cruzarmos e fazermos algumas fotos juntos. Mesma situação do Gerson Camata. A nossa "amizade" está restrita somente a este fato. Sermos jornalistas. Como político, não sei, nem quero saber qual a função dele. Falou que é político... estou correndo léguas...
    Feliz Natal e um próspero ano novo, cheios de alegrias, muita saúde, e PAZ.
    Aparecido Raimundo de Souza, de Shangri-Lá, um lugar perdido no meio do nada.

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  4. Vai escrever sobre o Joao de Abadiania/GO, ou vai continuar enrolando?

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  5. O homem de aço e a sexy machine... Mesmo até os 90! Que mico!

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