domingo, 2 de junho de 2019

Por que exigem os populistas ser contestados sem populismo?

Helena Matos

A grande questão em Portugal não é como combater o populismo futuro, mas sim se é possível combater agora um PR populista e um Governo oligárquico sem cair no populismo


A operação stop em Valongo com vista à cobrança de dívidas fiscais (a que se seguiu o anúncio das inspeções fiscais aos casamentos) mostrou como nos tornámos numa ditadura fiscal. Não vale a pena estar com rodeios: essa ditadura está aí. As empresas, sobretudo as pequenas, já deram por ela e para muitas dessas empresas as crescentes exigências burocráticas e a complexidade fiscal representam um custo e uma pressão incomportáveis. Quanto aos cidadãos, muitos deles embalados no discurso do combate à evasão fiscal, acreditam que eles nunca incorrerão nos nefandos delitos fiscais. Até que um dia o cidadão impoluto é mandado parar à beira da estrada e acaba a ver penhorado o seu carro porque se atrasou a pagar o IMI. Ou entram-lhe pelo casamento dentro porque a autora do ramo de noiva não apresentou a fatura da gipsófila. Nesse dia torna-se óbvio ao tal cidadão exemplar que a evasão fiscal não é apenas um problema dos outros. Pior, o cidadão descobre que não é mais um cidadão, mas tão só um contribuinte, logo um ser desprovido de direitos e sempre culpado até conseguir provar o contrário. (Regra geral não consegue, pois, a justiça fiscal não só não está ao alcance de qualquer um como de justiça tem pouco).

Mas as inspeções do Fisco-GNR em Valongo mostraram mais. Logo à partida mostraram como estranhamente nada soubemos sobre as primeiras destas operações, e note-se que uma delas, a que teve lugar em Santo Tirso, a 21 de maio, gerou um enorme alvoroço naquela cidade, com três mil carros a serem inspecionados. Quantas notícias se fizeram sobre isto? Por fim a reação do Governo a procurar demarcar-se das inspeções do Fisco-GNR em Valongo mostrou como no executivo se teme que o estado de graça e impunidade acabe quando menos se espera, por algo que se considerava irrelevante. Fútil, até.

António Costa, Catarina Martins e Marcelo Rebelo de Sousa são três tácticos que acham, cada um deles, que tem os outros dois no bolso e que sob o escudo protetor de “Costa, o hábil” consideram neutralizada qualquer veleidade de oposição à direita. Costa e a sua “vitória histórica” integram agora a galeria mediático-socialista de Guterres que era um gênio. E de Sócrates o imbatível. Como se sabe Guterres, o gênio, não aguentou a pressão e demitiu-se. Já Sócrates, o imbatível, levou Portugal a bater no fundo, financeira e moralmente falando. Por agora Costa, o hábil, desconjunta o país para comprar os apoios necessários para ser governo.

Note-se que cada líder socialista conta com o voto dos seus, com o silêncio dos empresários que reagem aos socialistas como os militares à voz do comando e com uma comunicação social que os reverencia (quanto tempo foi necessário para que o assunto da licenciatura de Sócrates passasse dos blogues para os jornais?) Mas sejamos justos, o principal apoio para os governos socialistas vem de uma direita que acredita que se fosse socialista tudo lhe sairia melhor. Aliás cabe perguntar: a direita quer voltar ao poder para quê? Para pedir desculpas todos os dias por estar no poder? Para titubear a cada medida? Para ser corrida sem qualquer explicação como aconteceu há quinze anos ao governo chefiado por Santana Lopes?… Se é para ser assim é melhor a direita dedicar-se ao que faz melhor – a psicanálise – e abandonar de vez a política.

Desembaraçados de oposição propriamente dita, António Costa, Catarina Martins e Marcelo Rebelo de Sousa têm uma preocupação comum – como compensar o PCP de modo a que os comunistas não tentem ganhar nas ruas o que perdem nas urnas (tocante o detalhe da sindicalista Ana Avoila cinco dias depois das Europeias a relatar, no terminal fluvial do Barreiro, a revolta dos passageiros) – e um temor: que lhes aconteça o chamado momento Rosa Parks. Ou, numa versão mais doméstica, o momento Maria da Fonte. Aquela esquina da História em que pessoas improváveis, por razões ainda mais improváveis – a Rosa Parks doíam-lhe os pés e por isso não deu o lugar aos brancos no autocarro e a Maria da Fonte, fosse ela quem fosse, queria enterrar os seus mortos como de costume – dizem não às ordens que habitualmente cumpriam. Mais estranhamente ainda, esse não se espalha incontrolável e veloz, como uma mancha de óleo.

Não por acaso, mal surgiram as primeiras notícias sobre a indignação que estas operações do fisco estavam a gerar, o Governo procurou demarcar-se de imediato de quaisquer responsabilidades: com a oposição anulada transferiu-se para uma rua inorgânica o espaço do que pode vir a ser um movimento de contestação.

É esse momento que quem nos governa procura esconjurar de cada vez que denuncia o que diz ser o populismo. Provavelmente será, mas a grande questão em Portugal não é como combater o populismo que pode vir a acontecer, mas sim se é possível combater um governo oligárquico apoiado por um Presidente da República populista sem cair no populismo. Ou mais precisamente por que exigem os populistas ser contestados sem populismo?


Foi assim que começou em França a formação dos que hoje são designados como territórios perdidos pela República. Primeiro a polícia foi criticada, diabolizada e condenada. Depois a polícia passou a entrar nessas zonas apenas em momentos especiais.  Os habitantes pediam polícia. A França mandava-lhes ativistas, sociólogos e mediadores culturais. Os habitantes e as ruas desses bairros ficaram sob o jugo de imans radicais, líderes de gangs, grupos criminosos. Hoje a polícia não só não entra nesses territórios como se discute a sua militarização. Aliás na França de Macron (note-se na França de Macron não na Hungria de Orban) os militares são cada vez mais chamados a manter a ordem nas ruas. Desautorizar as polícias tem custos. Os primeiros a pagá-los são os habitantes desses bairros ditos problemáticos. O segundo é o país no seu todo.
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 2-6-2019

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