Francisco Vianna
Quando uma empresa de pesquisa
de intenção de voto perguntou, no mês passado aos eleitores em quem votariam no
próximo domingo, 45,7 por cento se manifestou a favor de reeleger Hugo Chávez,
e 46,5 por cento disse que votaria em Henrique Capriles e 7,7 por cento afirmou
que não sabia ou não quis responder. Mas, esse empate virtual mudou
drasticamente quando os mesmos pesquisadores da empresa ‘Consultores XXI’
pediram aos mesmos eleitores que escrevessem de forma anônima seus votos numa
cópia da chapa de votação e a depositassem em caixas lacradas.
A resposta ‘não sabe’ ou ‘não
responde’ (ns/nr) caiu para 4,8 por cento, entanto a votação para Capriles
aumentou para 48,9 por cento, ficando a votação para Chávez mantida no mesmo
percentual.
E isso, alegam os críticos de
Chávez, prova que muitos eleitores temem que o governo do “socialismo do século
XXI” os castigará caso expressem algum tipo de apoio à oposição ou, o que é
pior, caso votem contra a reeleição do presidente para outro mandato de seis
anos.
O chamado “fator medo”, que
poderá gerar uma surpresa na eleição de domingo, é importante porque ambos os
lados têm acusado um ao outro de planejar atos de violência e outras ações caso
percebam que estão perdendo a eleição.
Embora a maioria das pesquisas
mostre Chávez na frente, algumas dão a vitória a Capriles, o candidato da
oposição unificada, ganhando terreno em relação ao presidente de três mandatos,
com outras ainda mostrando um empate técnico. Aconteça o que acontecer, no
domingo, o temor da reação do governo está bem fundamentado.
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Henrique Capriles, foto: LeoRamirez/AFP |
Assim que os nomes de 2,4
milhões de eleitores que tinham assinado petições para impedir a reeleição de
Chávez vieram a público em 2004, muitos acusaram os escritórios governamentais
de demitir empregados e negar serviços às pessoas na chamada “Lista Tascón”.
Omaira Martínez, trabalhadora de 46 anos, do escritório de recursos humanos de
uma empresa privada, afirmou que um banco estatal lhe negou um empréstimo de
uns $7,000 dólares para comprar um carro, e nem sequer quis aceitar seu pedido
para uma hipoteca. “Desde o momento em
que entrei lá, eles sabiam que meu nome estava na lista negra. E me disseram que sabiam”, disse Martínez. “De fato, além de alardearem que sabiam,
disseram também que podiam ‘castigar’ qualquer um da lista”, por ser contra
o governo.
Chávez instou seus partidários
em 2005 que deixassem de usar a lista, mas seu governo também tem sido acusado
de castigar seus críticos por meio da apresentação de falsas acusações
criminais contra eles, fazendo com que os inspetores do fisco lhes sigam o rastro
e confisquem suas empresas e propriedades. Sob tais pressões, o simples ato de
responder a uma enquete política passa a ser altamente intimidativo,
especialmente pelos mais de dois milhões de empregados estatais e aquelas
pessoas que recebem benefícios do estado, afirmou Erick Eckvall, consultor
político estadunidense que já vive há 30 anos na Venezuela. “É quase o mesmo
que fazer enquetes políticas em Cuba. Imagine-se ir à ilha-cárcere dos Castros
e perguntar de porta em porta às pessoas para que respondam o que pensam do
regime comunista da ilha”, disse Eckvall, que tem escrito várias colunas sobre
o medo que os eleitores têm do governo Chávez.
Christian Burgazzi,
especialista em enquetes feitas com empregados de empresas privadas, nas quais
o temor também pode influir nos resultados, destacou que numa sondagem recente
feita com venezuelanos pobres e de classe média baixa mostrou que 42,6 por
cento deles tem medo de falar de política com seus vizinhos. “Ora, se não falam
nem com seus vizinhos, muito menos o fazem com os pesquisadores”, afirmou.
Burgazzi assinalou também que em fins de setembro a resposta indecisa ou
negativa era mais de 23 por cento, uma cifra demasiado alta a tão pouco tempo
da votação.
Algo que complica o “fator medo” é a evidência de que
algumas empresas que estão fazendo enquetes de intenção de voto este ano não
passam de extensões das campanhas políticas em luta, criadas ou contratadas
especificamente para produzirem enquetes que mostrem que seus candidatos vão
ganhar com toda a segurança. “A verdade é a primeira vítima na ‘guerra das
enquetes’”, comentou Burgazzi.
Existe ainda o medo de que o
sistema de votação por urna eletrônica computadorizada, as mesmas usadas no
Brasil, estabelecido pelo governo para as eleições de domingo será capaz de
violar a promessa de uma votação secreta e registrar se um indivíduo votou por
Chávez ou por Capriles. Os votantes porão seus polegares nos leitores
eletrônicos de impressões digitais para confirmar sua identidade antes de votar
na chapa computadorizada. O Conselho Nacional Eleitoral, controlado pelos
partidários de Chávez, insiste que não há maneira pela qual o sistema possa
registrar como votou um indivíduo em particular.
Enquanto os especialistas
autoproclamados ‘independentes’ chegaram à conclusão de que, embora o apoio a
Chávez tenha se mantido estável, à medida que se aproxima o dia das eleições, a
resposta dos ‘ns/nr’ vem diminuindo ao passo que Capriles que estava empatado
com Chávez passou a frente do presidente e deve ganhar a eleição com margens
que variam de poucos milhares de votos até um máximo de 600.000 votos, os
funcionários do governo Chávez advertiram esta semana que os prognósticos
otimistas da oposição “são falsos,
designados unicamente para criar um clima de caos e incerteza e negar uma
vitória presidencial nas urnas”.
Partidários de Capriles alegam
que Chávez não planeja aceitar a vitória da oposição nas urnas e está fazendo
essas acusações “para estabelecer as
bases de uma dura repressão contra qualquer esforço da oposição de combater
qualquer possível fraude eleitoral”.
Existe também, segundo
Bugazzi, outra maneira não muito matemática de sentir o el pulso dos eleitores
na Venezuela: medir o número de gorros de beisebol com os símbolos das
campanhas de Chávez e de Capriles. Resultado: cinco a um para Capriles.
O fato é que, no Brasil (sem
medo) e na Venezuela (aterrorizada) o domingo propiciará caminhos e fatos
determinantes para o futuro imediato de ambos os países, embora aqui, a eleição
seja apenas para os governos locais.
Título e Texto: Francisco Vianna, 04-10-2012
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