EUA, Obama, Tea Party,
governo paralisado, apocalipse etc e tal… Com a devida vênia, excelências, mas
vou discordar. Ou: Democracia pra quê? Ou ainda: será que os EUA precisam da
pistolagem partidária brasileira?
Reinaldo Azevedo
Vamos percorrer caminhos
difíceis porque os fáceis são fáceis. Muito bem! Se o mundo parece pensar,
unanimemente, que os republicanos, nos EUA, são uns sabotadores da democracia e
que o Tea Party está além da fronteira do que pode fazer um grupo de oposição,
eu, por meu turno, começo a pensar uma de duas coisas:
a) ou estamos, então,
diante de uma nova expressão do Mal Absoluto — e, portanto, essa gente tem de
ser banida da política em nome da democracia, ou
b) há um evidente
exagero nas críticas e uma incompreensão dos instrumentos que fornece a própria
democracia para a luta política. No parágrafo seguinte, tem início uma
digressão que, não obstante, nos aproxima mais do tema.
Olhem o mundo. Não fui ticando
no mapa-múndi caso a caso, mas suponho que democracias verdadeiras, dignas
desse nome, ainda são uma minoria. Parcela considerável do planeta vive sob
ditaduras religiosas — islâmicas, para ser mais preciso (não há, nessa
modalidade, outras, de credo distinto). Outro tanto, especialmente na África,
está submetido a regimes de força de caráter étnico, que nada tem a ver com a
cor da pele, é bom que fique claro: são negros oprimindo negros. E há ainda
tiranias que vestem uma máscara ideológica, como é o caso da China. Se usarmos
o critério das populações, a maioria da humanidade ainda vive sob regimes de
força.
No chamado mundo democrático
(ou quase), uma nova forma de autoritarismo se espraia. A América Latina abriga
as suas expressões mais rombudas — bolivarianismo e lulo-petismo, distintos
entre si, mas combinados —, mas não têm o monopólio desta modalidade de ódio à
democracia de que vou tratar. Em que consiste? Escolhas ideológicas, políticas,
que remetem à esfera dos valores e, muitas vezes, dos direitos individuais são
tratadas como imperativos categóricos, matéria de bom senso, desdobramento
óbvio de leis naturais, matéria de civilidade. Opor-se a elas deixa de ser, vá
lá, uma escolha ou opção erradas, mas uma sabotagem, uma forma de perversidade,
uma manifestação de atraso, de preconceito, de reacionarismo, incompatíveis com
a suposta disposição da humanidade para o bem, para o belo e para o progresso.
“Dê um exemplo, Reinaldo.”
Pois não! Pegue-se, por exemplo, a política de cotas raciais nas universidades
brasileiras. Tenta-se fazer crer que é impossível discordar da medida se não
for por maus motivos; elas seriam um ponto inscrito numa trajetória rumo ao
bem.
Querem outro? Há um trabalho
intenso de lobbies organizados para que a descriminação das drogas se
transforme numa evidência caída da árvore dos acontecimentos, que não atenderia
a nenhum outro interesse que não o bem da humanidade.