Carina Bratt
Sobre a poesia do cantor e compositor
português, Jorge Fernando.
Momento musical, cantora Mariza.
“As coisas vulgares que há na
vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir
Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir
São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder
Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer
A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera
Ai... meu choro de moça
perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera
A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade”.
Vendo a chuva cair a bom
despejar pelos vidros da minha janela, aproveito e ligo o som baixinho. De repente,
o CD com a voz maviosa de Mariza, invade meu quarto e me vem falar numa interpretação
inimitável e inigualável de uma outra chuva.
Nessa hora, um vento forte
desloca as cortinas e desequilibra fazendo voar para longe uma folha de caderno
onde eu escrevia uma carta para mim mesma…
Não me assusto. Estou ligada
na voz de Mariza e nos versos compostos por Jorge Fernando. A cantora,
investida em sua melhor aura de fascínio, me tira do chão. Me leva a passear
por rincões desconhecidos dentro de minha própria neurastenia.
“As coisas vulgares que há na
vida da gente”, ou seja, as coisas medíocres, levianas, vulgarizadas e banais, não deixam saudade. Não deixam se
as colocarmos de lado e esquecermos que um dia vieram atrapalhar, estorvar, ou
atarantar nosso dia a dia.
Somente as lembranças gostosas
e elegantes, saborosas, e garbosas, as dádivas macias e quentes, as eternas…
Essas sim, pairam acima da gravidade do momento… Nos reanima. Nos refloresce.