segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

[A vida que levei... ] Estranhas teses (19º)

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 Após o desembarque, tropas desfilam pela Avenida Marginal, Luanda, 1961. Foto: AD
Enquanto eu vivia no Porto a guerra colonial continuava ferindo e matando. Eram três frentes: Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. (Só Angola é quatorze vezes maior do que Portugal). Naquela época éramos todos portugueses, um só Portugal. Poucos eram os que não acreditavam nessa tese propagandística. (Se eram muitos eu nunca me apercebi). Poucos foram os  que se insurgiram, foram presos ou se mandaram para o estrangeiro; a maioria para a França, muitos para a Argélia… URSS e Tchecoslováquia…
Não se falava nessa guerra. Parecia que estava tudo muito bem. As Forças Armadas sempre eram vitoriosas, raras baixas: assim ouvíamos ou líamos nas rádios e nos jornais.
Não se percebia, ou melhor, eu não percebia alguma efervescência política. Tudo e todos calados. Salazar reunia milhares na Praça do Comércio, em Lisboa.
António de Oliveira Salazar, em Comício na Praça do Comércio, década de 30. Foto extraída do blogue de Antonio de Melo, daqui
Como escrevi no “capítulo” anterior eu gostava de debater, de aprender. O marido da minha tia (em cuja residência eu morava, na Rua Alferes Malheiro, nº 169), tinha umas teses estranhas. Falava algumas vezes dos muitos bancos que havia em Portugal. “País onde há muitos bancos é um país pobre e de pobres…”, dizia ele. Também falava da mais-valia… “todos os comerciantes são ladrões”, rematava.
Um dos hóspedes da minha tia, um rapaz que morava na Parede, em Lisboa (mais de vinte anos depois também morei na Parede), também defendia umas coisas estranhas. Por exemplo, ele dizia que Portugal havia sido poupado de ser ocupado pelos Aliados, na segunda guerra mundial, porque Salazar permitira  a instalação e o livre trânsito de espiões de todas as cores; que Portugal era um país muito atrasado, o mais atrasado da Europa Ocidental, porque Salazar, além de não permitir a Democracia e ter mantido a “neutralidade” do país durante a guerra, Portugal não se beneficiou do Plano Marshall; os Estados Unidos sabiam muito bem que Salazar torcia pela Alemanha de Hitler.
Anos mais tarde percebi a que Partido aqueles dois pertenciam. Como o Mário, o amigo em Caldelas.

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