terça-feira, 6 de outubro de 2015

A vitória proibida e a derrota impensável

Maria João Avillez
Tudo o que venha a ocorrer passou a ser responsabilidade da coligação: o PS condescende, a direita que ceda. Subentendido: o PS não ganhou mas, amanhã ou depois, far-se-á a ”vontade dos portugueses”.

1. A vitória de um, Passos, estava “proibida”, a derrota do outro, Costa, era impensável. Talvez por isso há um exército de gente que desde ontem nos quer fazer crer no contrário: ganhou a esquerda. Daí ao “competir-lhe” governar esteve para ser um passo que foi aliás ampla e audivelmente ensaiado, dias a fio, em televisões e afins.

Quem tivesse ouvido o tal exército, era quase isso que diziam os seus soldados, com aliás desnorteante implausibilidade. Mais: Costa, que arredou Seguro do Largo do Rato em nome de uma vitória inadmissível de tão “poucochinha”, embora o PS tivesse ganho as eleições contra os 29% da coligação, foi ontem à noite derrotado mesmo tendo obtido quase igual percentagem de votos

Preferiu não partir – e para onde iria? –, Mas esperemos os resultados da tão apreciada “moderação”, não duvidando eu que ela é também fruto de (sérios) avisos feitos logo na noite das eleições de que talvez fosse melhor não indispor assim tanto a “Europa”. Ou seja, a moderação não é inteiramente da autoria política do lider do PS.

Quanto à disponibilidade em negociar com a “direita”, que muitos se apressaram a registar, ela existirá, sim: desde que, bem entendido, a coligação se apresse a desfazer-se de grande parte do seu futuro programa de governo (e desde logo da “austeridade”), acolhendo o grosso do guião do PS. Não me parece que seriamente isto se possa confundir com um bem-vindo espírito de compromisso, tão desejável na nossa cultura política, na saúde dos partidos, na vida do país. Quem nos dera e que falta faz.

Sucede porém (talvez seja pessimismo meu, tão destoante do optimismo reinante) que nada me indica que o sopro desse espírito de compromisso tenha descido sobre a direcção socialista. O “tom” do que tenho ouvido surge-me antes como uma série de “desistências” que a esquerda já está a achar normal avisar que irá impôr à coligação, sobre prioridades, medidas e timings que a própria esquerda não conhece e a coligação ainda não anunciou.

Seja como for e em resumo, o “ónus” – já repararam? – foi chutado do recinto dos vencidos para a grande área dos vencedores. Tudo o que venha a ocorrer passou a ser responsabilidade exclusiva da coligação: o PS condescende, a direita que ceda. Subentendido: o PS não ganhou nas urnas mas, amanhã ou depois, far-se-á a ”vontade da maioria dos portugueses” (que não ganharam as eleições e por coincidência são todos de esquerda). Soletrar a palavra “compromisso” sem um compromisso não quer dizer nada.

Nisto tudo, saúde-se a racionalidade política de Fernando Medina, autor – e isso conta – do discurso mais lúcido feito desde há muito na área socialista. O Presidente da Câmara de Lisboa recentrou o PS, balizou com firmeza as suas fronteiras, traçou linhas vermelhas. Com isso separou o trigo do joio. Não é pouco e foi o único.

2. É isso: a coligação ganhou – a explicação é simples – porque Passos Coelho acreditou. Como aos olhos de muitos “parece” porém que não ganhou, vale a pena, porque é caso raríssimo na política, lembrar que a coligação ganhou contra tudo, até contra o mau tempo: ganhou contra o “empobrecimento”, a “decadência” e a “fome” vendidas nas manchetes durante quatro anos; contra uma austeridade, “desnecessária” e intencionalmente lesiva; contra o coro não sei se mais choroso se mais hipócrita da emigração dos “cérebros portugueses” ou dos mais “humildes” (as oposições usavam-nos sem critério); ganhou contra os debates televisivos, os comentadores e as suas certezas de aço contra os segundos resgastes (e quem sabe, os terceiros) e o sermos “iguais à Grécia”, mesmo quando há muito já não éramos; venceu contra os infindáveis Grândola Vila Morena monocordicamente ouvidos durante meses, de norte a sul do país; ganhou contra greves e manifs, ganhou contra os lesados do BES solicitamente acolhidos, enquadrados e usados pela CGTP, pobres deles; venceu contra mentiras, chacotas, humilhações, insultos, desconfianças, difamações e até coelhos esganados à entrada de universidades ou espaços públicos. Ou seja, o ódio tinha onde se sentar e o ressentimento podia abrir o cardápio acima exposto e escolher por onde disparar.
Foram quatro anos disto

3. A derrota era impensável, sim. “O Costa é mil vezes melhor que isto!” dizia-me um “atónito” Paulo Rangel, domingo à tarde, num matar de saudades telefónico a propósito de António Costa, que ambos conhecemos bem. E é.

É verdade: o PS fez uma campanha sem “foco”. Em lugar de duas ou três ideias forte,s houve um lote de coisas atiradas, a eito e sem propósito, ao ar dos dias. António Costa achou que podia dizer aos chineses o que não podia dizer aos portugueses, que “isto” estava melhor. Acelerou no dizer mal, usando não raro uma linguagem de agressividade insultuosa. Ninguém gosta. Os jovens não vivem no país descrito pelo líder, a estridência de Galamba afugentou (foram para o Bloco) mais que cativou, o grupo de economistas, ficou a ver navios substituídos pelo radicalismo e o destempero. Convém porém recordar agora, quando tanto se fala em “compromisso”, que o cerne das propostas em matéria de crescimento económico se baseava no consumo e na procura interna quando os portugueses já estão hoje a consumir de mais e a gastar mal. Era mais avisado pensar nisso em vez de populisticamente baixar o IVA da restauração, mas as escolhas, mesmo as más, são felizmente livres.

4. Paulo Portas. Sabia-se que queria – e precisava – de se redimir do fatal “irrevogável” de Julho de 2013; também se sabia que era inteligente, assertivo, hábil e o melhor de todos a comunicar. Não se sabia que seria capaz de cumprir com tamanha disciplina o guião eleitoral nem de ser tão briosamente “humilde” no desempenho do papel do “ perfeito número dois”.

A confiança, a jovialidade e a energia que transpiravam de uma das mais bem pensadas campanhas eleitorais de que me lembro, e a cumplicidade que escorria das imagens de Passos e Portas, tiveram alguma coisa a ver com esta vitória. Nenhum dele está velho nem é datado. Têm alguma coisa a dizer a gente que os queria ouvir. Foram, ainda mais que o Bloco de Esquerda, quem mais jovens atraíram e interpelaram.

Na rua ou em fábricas, no campo ou nas cidades, em comícios ou entrevistas, a articulação inteligente entre Pedro e Paulo (e entre ambos, com a sagaz superintendência de Marco António Costa) foi uma realidade de que muitos duvidavam, a começar por mim própria.
“Um parcours sans faute”.
“Ah, mas não vai durar” dizem as cassandras. Durou o que foi o preciso e daqui para a frente durará até ser preciso, (digo eu).

5. Há quarenta e oito horas que os socialistas voltaram a bombardear o país com as bombas da “austeridade”. Era melhor lembrar-lhes que começou com eles. Alguém se lembra da durissima austeridade contida no PEC IV? Ou que os sacrifícios e as medidas duras já haviam entrado em cena pela mão de José Sócrates, com os “PEC” anteriores, por ele orgulhosamente defendidos e logo aplicados pelo seu governo?

Mesmo Fernando Medina, sentiu a necessidade (ou terá sido a pedido?) de recorrer ao chavão: “Uma clara maioria de portugueses votou em partidos que fizeram da rejeição da austeridade o ponto nuclear”. Como se alguém gostasse de austeridade, santo Deus.

Já que não irão poder bani-la, experimentem mudar-lhe o nome: tornarão a convivência mais amena.

6. António Vitorino ressuscitou Guterres. Não ficou claro o propósito: pedido de socorro em voz alta? Recado de Costa? Medo de Marcelo? Pura manobra de diversão?
Ou uma esperança muito vã?
Título e Texto: Maria João Avillez, Observador, 6-10-2015

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