quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O livro: CASO VARIG

Valdemar Habitzreuter

Está de parabéns Marcelo Duarte Lins que teve a ousadia e o trabalho árduo de escrever este livro onde relata em detalhes as causas da derrocada da Varig. É, sem sombra de dúvida, um registro histórico, uma descrição de fatos que levaram a maior companhia aérea latino-americana à falência. O público e amantes da aviação, interessados em inteirar-se do que aconteceu nos bastidores para salvar a Varig da falência, ou o seu contrário: deixá-la agonizar até à morte, terão esclarecimentos suficientes neste livro.

De modo geral, a visão panorâmica em que se deu esta catástrofe deveu-se a múltiplos fatores e através de múltiplos personagens muito bem transcritos pelo autor. Elencarei algumas opiniões pessoais à guisa de adendo sem querer que se revistam de verdades cabais.


Rubem Berta
Este homem foi o idealizador de a Varig atingir o ápice de eficiência para ser reconhecida internacionalmente. Foi o primeiro presidente da Varig, mas não quis que apenas um único homem estivesse à frente da companhia a determinar seus rumos ou arvorar-se seu dono. Era desejo seu que a Varig fosse de seus funcionários. Tinha uma visão comunista (no bom sentido). E por esta razão bolou uma fundação cujo estatuto tinha como principal objetivo a garantia de preservar o patrimônio da Varig que deveria pertencer aos funcionários (após sua morte esta Fundação passou a chamar-se Rubem Berta -FRB).

A FRB era administrada pelo Conselho de curadores – funcionários mais antigos eleitos que se destacavam pelo bom trabalho em prol da Varig. Era, ao mesmo tempo, o Conselho deliberante que indicava o presidente da Varig. Portanto, a Fundação era a controladora da Varig, em nome e benefício de todos os funcionários. Todos labutavam para o engrandecimento da companhia, já que todos possuíam uma parcela dela e participando de seus lucros.

Mas, esse comunismo empresarial benfazejo de Rubem Berta caiu por terra, após sua morte. Aos poucos os representantes e dirigentes da FRB instituíram um comunismo maléfico e concentrador em que prevalecia a avidez pelo poder e benefício de poucos. Deixaram de lado o ideal de Rubem Berta e manipulavam os interesses e progresso da Varig para proveito próprio. Passou-se a um comunismo nos moldes das nações onde este regime se instaurou, e sabemos o que aconteceu a estas nações: corrupção e enriquecimento da cúpula e pobreza geral do povo.

À Varig aconteceu coisa semelhante: a FRB passou a ser um entrave na administração saudável da Varig, seus dirigentes só olhavam para seu próprio umbigo e foi uma das causas da derrocada da Varig. Seria louvável alguém chafurdar a História toda da FRB, fazer uma devassa e trazer a público quais dirigentes depenaram a companhia levando o tesouro para ‘ilhas fiscais’. E, se sanções ainda são pertinentes aos que estão ainda vivos, que as sofram pela força da lei.

Fernando Collor de Melo
Um presidente arrojado, mas altamente orgulhoso, dispensando aliança política para sustentar-se no governo. Por isso, foi um desastre político. A corrupção o alijou do governo, mas sem antes ter sido um dos responsáveis da derrocada da Varig.

Foi ele quem abriu o comércio exterior com a célebre frase “nossos carros são verdadeiras carroças” para justificar a que montadoras estrangeiras entrassem no país.

Ao mesmo tempo abriu o céu brasileiro para as grandes companhias aéreas estrangeiras para concorrer internacionalmente com a Varig. Nem ao menos houve um estudo preliminar e apropriado para detectar o que poderia acontecer à aviação comercial brasileira. As estrangeiras vieram com tudo, preço baixo, desbancando a hegemonia da Varig pela preferência de o brasileiro viajar para o exterior.

A visão megalomaníaca de Collor foi o sintoma de que algo de grave surgiria para deixar enferma a Varig, e a FRB não soube fazer frente a este desafio inusitado, permanecendo inerte e paralisada. A cúpula acomodou-se em seu comunismo compensador, restrito e privativo.

As vacas sagradas
Em qualquer companhia aérea os pilotos são o coração do negócio. São eles os técnicos especializados na pilotagem dos aviões. Precisam ser altamente preparados e treinados. As companhias investem muito nisso e o custo é alto. E os pilotos da Varig eram muito bem qualificados, de reconhecimento internacional.

Mas, convenhamos: a primeira geração de pilotos da Varig deixou um legado bastante pernicioso para que o todo organizacional da companhia fosse homogêneo e integrasse a todos numa só família. Eles, sabedores da importância que tinham na companhia, tomavam, por vezes, atitudes prepotentes quando lhes era imposto normas operacionais de seu desagrado, desafiando sua chefia. Tinham o ‘rei na barriga’ e eram considerados ‘as vacas sagradas’, intocáveis. E isso passou sub-repticiamente às gerações seguintes, e, sem sombra de dúvida, atrapalhou para que houvesse uma gestão moderna e eficiente na Varig.

Não pretendo aqui contestar Marcelo Duarte Lins que descreve em seu livro de que a APVAR (Associação dos Pilotos da Varig) teve a iniciativa de apresentar um plano de reformulação ampla para salvar a Varig cujos protagonistas seriam os próprios funcionários da Varig. O plano não foi implementado e não se sabe se teria salvo a Varig. A meu ver, os comandantes antigos da Varig consideravam-se a elite da companhia exigindo tratamento especial, esquecendo-se que Rubem Berta queria tratamento especial para toda a família Varig. Todos estavam no mesmo barco.

O governo Lula
O governo petista foi a causa maior de o barco Varig soçobrar. Lula não quis salvar a Varig pelo simples fato de querer contentar seu compincha José Dirceu, interessado a que a TAM despontasse como a grande companhia aérea brasileira. Será que havia alguma intenção por trás dessa manobra? Sabe-se que seu grande amor foi o poder. E para sustentar-se no poder precisa-se de dinheiro.

Não lhe bastou o assalto à Petrobrás? Será que a TAM também estava na mira? Bom, deixemos de lado as especulações fantasiosas, mas o certo é que o governo Lula não teve trabalho algum para se defender da acusação de deixar quebrar a Varig. Seu único argumento foi de que não injeta dinheiro na Varig enquanto fosse controlada pela FRB. E nisso ele tinha razão. A FRB foi um câncer que levou a companhia à falência.

Mas, isso não lhe tira a responsabilidade pela falta de tratar ou mesmo curar o câncer. Era obrigação dele de intervir na Varig, já que era uma concessão do governo de ela funcionar, e afastar seus dirigentes e promover o saneamento da companhia. Mas, não quis... José Dirceu e a TAM eram mais importantes que a Varig em detrimento de milhares de trabalhadores que perderam seus empregos e uma lacuna sem tamanho na aviação comercial brasileira, sentida até hoje. 
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 14-1-2016

4 comentários:

  1. POLEMICAS À PARTE.
    NÃO COMPRAREI O LIVRO.
    NÃO ACHO QUE OS COMANDANTES ANTIGOS FORAM CAUSADORES DOS PROBLEMAS DESCRITOS.
    Acho que comandantes mais novos fizeram um corporativismo diferente.
    Certos cargos preenchidos por gente incompetente.
    Se formos observar a maioria dos supostos vacas sagradas, apelido pejorativo para alguns grandes profissionais, já estavam aposentados, na época dos acontecimentos. Nos meus mais de 30 anos de Varig, nunca tive problemas, ou vi regalias aos ditos Vacas sagradas.
    Tive sim problemas e assisti regalias aos que os sucederam.
    Foram corporativistas ao extremo.
    A troca de favores para baseamento no exterior, e para morarem em bases alternativas.
    Porém não guardo nenhum rancor, nem recalque.
    A Cezar o que é de Cezar.
    No final há um paradoxo.
    A VARIG era uma CONCESSÃO, e justamente por isso o governo não poderia intervir, tanto isso é verdade que no voto da Ministra Carmem Lúcia, ela decide que não poderia o governo congelar as tarifas, como congelou, interviu e interferiu, na concessionária.
    Vejam que no AERUS deveria interferir e não o fez, em outra decisão jurídica favorável.
    Considero a abertura dos céus às gigantes americanas foi uma interferência do governo nas empresas brasileiras sem consultar as concessionárias.
    Também no assunto FRB e do colégio concordante, minha opinião pessoal era vender 49% da empresa ao setor privado.
    O contador de histórias, sempre faz comentários pessoais.
    A decadência começa justamente na compra dos MD-11.
    Houve propina, e aviões quitados e bom estado de conservação foram vendidos a troco de balinhas.
    A American Airlines é hoje a maior companhia do mundo, com 947 aviões mais 619 em suas regionais, American Eagle e American Conection.
    Em 1998 a Delta era a maior após sua fusão com a North West.
    A quinta maior empresa do mundo é a FEDEX, que ainda possui 25 727-200, 40 DC-10-10, 16 DC-10-30 e 63 MD-11. EM 2015 parou de usar os 727-200 com a aquisição de 29 767-300F e trocou seus DC-10-10 por 27 777-200F.
    Os DC-10 voaram 40 anos na FEDEX.
    O GRANDE OPERADOR NÃO VENDE PARA ALUGAR, VENDE PARA COMPRAR NOVOS.

    ResponderExcluir
  2. Prezados, acabei de adquiri-lo, está vindo via correio, com despesas de envio $ 79,00.
    Estou ansioso para ler. Por indicação de meu caríssimo Colega e Amigo Vilmar. Entrei em contato com a Editora Jaguatirica no Rio. Creio que somos testemunhas de vários fatos narrados neste Livro.

    No momento tenho meus conceitos já formados, mas vou ler primeiro e opinar posteriormente.

    Caro Habitz, Vc esqueceu de mencionar que Palocci era compadre de Rolim, vizinhos de fronteira de suas fazendas, ele é Dirceu. Porém um grande malfeitor foi Collor, não em abrir o mercado, mas em congelar as tarifas da Varig, foi o que a tornou devedora, aí o Sapo, se aproveitou com seus "cumpadres".

    Vamos ler o que o Cmte Marcelo nos relata, creio ser um livro muito interessante para cidadãos de bem, ficarem cientes do que realmente ocorreu.
    Abs!!
    Volkart

    ResponderExcluir
  3. Caro Rochinha, sou testemunho de alguns de seus comentários, vc está certo!!! A Lufhansa até há pouco, apesar de ter parte no consórcio Airbus, voava com DC-10 e MD-11, até como cargueiros, voa até hoje.
    As Vacas Sagradas, tinham privilégios, sim, não de pecado mortal, eles até mantinham, preservavam, e impunham a "excelência" na Diretoria de Operações, junto com uma autonomia de Comandar, o que hoje na Aviação Civil não existe mais, se alguns eram arrogantes, a perfeição não existe.
    É…
    Volkart

    ResponderExcluir
  4. A César o que é de César! A Varig cumpriu o seu papel: me deu casa, comida e cultura! Quanto ao resto ... infelizmente o Sérgio Moro ainda estava se formando em Direito! Alberto José

    ResponderExcluir

Por favor, evite o anonimato! Mesmo que opte pelo botãozinho "Anônimo", escreva o seu nome no final do seu comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!) isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente.
Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-