quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Cuca fundida

Aparecido Raimundo de Souza


1
A PROFESSORA Esther entrou na sala de aula, mandou um alegre e bem-humorado bom dia a todos e comunicou que naquela manhã, no lugar da aula normal, realizaria uma brincadeira. No final, daria um smartphone última geração de presente a quem respondesse, de forma criativa, a uma pergunta que endereçaria à classe. Para que ninguém saísse prejudicado, convidou a diretora, professora Yolanda e a professora Fafá, para ajudarem na empreitada. Elas se prestariam a participar do certame intercedendo na escolha como representantes do corpo de jurados.

2
Realmente, ao chegarem minutos depois, as duas convidadas deram com os alunos perfilados em sinal de respeito, ao lado das suas respectivas carteiras, como se preparados para cantar o Hino Nacional. Tiveram ordens para se sentarem, o que fizeram de imediato. A peleja, para a melhor resposta e o ganho do anunciado, teria o tão esperado início.

— Combinei com a nossa diretora, professora Yolanda e, igualmente, com a professora Fafá, que uma única pergunta seria feita a todos, para evitarmos atropelos e confusões. Podemos começar?

3
Um sim em uníssono se ouviu de canto a canto. A galera agonizava de alegria para que a disputa principiasse de vez e sem mais delongas. O smartphone prometido brilhava aos olhinhos ávidos da garotada, obviamente à espera do vencedor, acondicionado numa caixinha ao lado do trio de docentes. Um prêmio desses seria, de fato, uma bênção do céu. O afortunado (ou afortunada) sairia feliz. A maioria dos frequentadores daquele estabelecimento de ensino (não só daquela sala, mas das outras que compunham toda a escola), era oriunda de famílias pobres e sem condições de adquirir um desses aparelhos, ainda que em prestações a se perderem de vista. Fizeram um sorteio e o escolhido para encabeçar a lista, foi o Paulinho.
— Muito bem, meu jovem. Preparado?
— Sim professora...
— Boa sorte, para você. Agora diga para nós: qual a coisa mais pesada que existe?

4
O menino não titubeou e mandou brasa.
— O canhão, professora.
A professora Fafá imediatamente anotou ao lado do nome do estudante, a resposta fornecida.

— Sua vez, Jerônimo: qual a coisa mais pesada que existe?
— Um avião de carga.

 — Muito bem, Jerônimo. Pedro Paulo, qual a coisa mais pesada que existe?
— Um transatlântico desses que viajam pelos mares do mundo.

— Legal. Soninha, por favor, se levante e nos diga: qual a coisa mais pesada que existe?
— Um prédio de cem andares, professora.

— Estamos indo bem. Vamos em frente. Adriana, minha linda: qual a coisa mais pesada que existe?
— A ponte Rio-Niterói, lá no Rio de Janeiro.

— Interessante Adriana. Ok. Rúbia: qual a coisa mais pesada que existe?
— Fácil professora. A consciência pesada.
— Uau! Muito boa a sua resposta. Criativa. Extremamente criativa. Dudu: qual a coisa mais pesada que existe?

5
— A caixa d’água na entrada da nossa cidade.
— Boa observação, Dudu. Pode sentar. Serginho: qual a coisa mais pesada que existe?

— Um cofre de banco.
— Pode voltar ao seu lugar. Luciano: qual a coisa mais pesada que existe?
—...?
— Luciano, quer, por favor, responder à indagação?
— O que é isso, professora?
— Indagação é o mesmo que pergunta.
— Tô ligado, professora...
— E qual é a sua opinião?
— Meu Deus, professora, que opinião?
— À pergunta que fiz a todos os seus coleguinhas.
— Claro professora. Que viagem! Dá para repetir, por favor?
— Luciano eu já avisei aqui um milhão de vezes que não admito celular em sala de aula. Por gentileza, desligue o seu e entregue à diretora Yolanda, por obséquio.
— Sim, senhora. Poderia repetir a pergunta?
— Qual a coisa mais pesada que existe?
— Uma carreta transportando uma peça de duzentos e oitenta toneladas.

— Ok. Armandinho, para você, qual a coisa mais pesada que existe?
— O elefante, professora.

— Junior, diga aí: qual a coisa mais pesada que existe?
— Para mim, professora, é a baleia. O que a senhora acha?
— Não sei. Vamos avaliar no final. Lurdinha, queremos saber de você. Valendo este smartphone zerado, com câmera frontal, dentro da caixa: qual a coisa mais pesada que existe?
— Fácil demais, professora. A balança da farmácia do seu Cunegundes.

6
Assim seguiu a professora Esther com a pergunta, até que chegou no vigésimo sétimo, o derradeiro.
— Adamastor, finalmente chegou a hora de sabermos a sua resposta. Como já dito anteriormente, valendo este smartphone: qual a sua resposta para a coisa mais pesada do mundo?
O menino se mostrou meio amedrontado. Parecia um tataranha recém-chegado do sertão mais distante do planeta.
— Posso falar de verdade, professora?
— Sim, Adamastor.
— A senhora não vai brigar?
— De forma alguma.
— Nem me deixará de castigo, depois da aula?
— Não, Adamastor. Por que faria tal coisa?

O guri continuou cabisbaixo e pensativo.
— Estamos esperando, meu jovem simpático? Qual a coisa mais pesada que existe?
— Por acaso, professora, a dona Yolanda, a diretora aí a seu lado, não me levará para a diretoria?
— Não, Adamastor. Responda...
—A professora Fafá...
—Adamastor, pela última vez, qual a sua resposta?  Diga agora ou serei obrigada a riscar seu nome da disputa...
— Está bem, professora. A coisa mais pesada que existe é o pinto do meu pai...

7
Nesse momento as três mulheres se olharam, espantadas e boquiabertas. Ficaram em pé, ao mesmo tempo, como se uma corrente elétrica tivesse sido acionada e as cadeiras que ocupavam houvessem recebido uma forte descarga de energia.
— O que é isso, Adamastor? Respeite a nossa diretora, professora Yolanda, a professora Fafá, e, sobretudo, seus coleguinhas. Olhe para os lados. Temos meninas aqui. Onde já se viu dizer uma barbaridade dessas?

Envergonhado, o piá seguia ereto em seu lugar, os olhos fixos no chão.
— Professora, a senhora disse que eu podia dizer...
— Eu sei filho, mas...
— A professora Fafá e a dona Yolanda estão de prova...
— Está legal, Adamastor. Dessa vez vou fazer vistas grossas e pedirei encarecidamente à nossa diretora, professora Yolanda e à professora Fafá que relevem a sua insensatez, a sua descompostura e falta de modos.

8
A diretora, professora Yolanda, aparteou chamando o moleque à frente.
— Meu filho, como diretora desta escola, lhe asseguro que não vamos tomar nenhuma providência com relação ao que acabou de acontecer aqui. Perdoaremos você, desta vez, rogando que não volte a repetir uma coisa feia dessas na frente de seus amiguinhos.

9
A professora Fafá, por sua vez, pediu licença e quis um esclarecimento mais detalhado em torno daquele ato que considerou estranho, tendo em vista a idade do menino e a sua resposta tão certeira e ao mesmo tempo contundente em cima de um assunto sério demais.
— Quem foi que te disse isso, Adamastor, ou melhor, meu filho, quem revelou a você tal e tremenda asneira?
— Minha mãe, professora...
— Sua mãe? Como assim, meu querido? De onde ela tirou essa loucura?
— Toda a vizinhança sabe disso, professora Fafá. Até os cachorros da rua... eu só repeti o que escuto a todo instante...

— Confesso que continuo não entendendo. Quer ser mais explícito, mais claro, mais objetivo? O que você escuta a todo instante?
— A senhora não vai pedir para me expulsar da escola?
— Não...
— Nem falar para a professora Esther me deixar de castigo, ou mandar chamar o pessoal lá de casa?
— Prometo. Juro. Tem minha palavra.

10
Em prantos, o moleque com cara de fome e magreza de esqueleto concluiu a sua breve história.
— Toda noite, sempre ouço a mamãe dizer para o meu pai: “Ricardo, esse negócio seu, no meio das pernas, puta que me pariu, nem Deus levanta”. 

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Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista, do aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, nas Minas Gerais. 8-2-2017

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