segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Condenar as mentiras da imprensa não é ser "pró-Trump", mas sim defender a verdade

Fernando Gouveia

Não foram poucos os episódios de cobertura para lá de distorcida, e em muitos casos simplesmente mentirosa, durante a campanha eleitoral nos EUA. A “desculpa” quanto à utilização do expediente era algo do tipo “ele é péssimo, seu governo será um inferno, então não é errado fazer de tudo para evitá-lo”. E fizeram quase tudo, mesmo. Porém, deu errado.

Em vez de parar, resolveram intensificar a tática comprovadamente furada – demonstrando a um só tempo a existência das bolhas ideológicas pós-verdadeiras e a idiotice avassaladora dos que nelas habitam.

Serve de exemplo o episódio do “dossiê Trump”: segundo o “documento”, ele seria chantageado pela inteligência russa, já que tinham em mãos alguns filmes de estripulias íntimas num hotel russo, inclusive em práticas fetichistas de nível “avançado”. De alguma forma, isso chegou às mãos de políticos americanos e eles encaminharam para seus próprios órgãos de inteligência.

Foi nessa fase que entrou a gloriosa mídia. Um veículo forte na web e uma emissora de alcance internacional deram a história. O primeiro trouxe o tal documento; a outra apenas mencionando, naquelas de “esta história ainda não está confirmada”.

A esta altura, como todos já sabem, era lorota. O “dossiê” foi refutado de forma até meio patética e a coisa ganhou ares de tragicomédia quando um grupo reclamou a autoria e era no fim das contas uma pegadinha. Vexame total.

Mas o que se viu em seguida foi um festival de bizarrices. Bem poucos pediram desculpas, o resto resmungou, houve quem preferisse o silêncio, mas chamou atenção o tamanho da turma ENDOSSANDO a coisa toda, mesmo sendo mentira. Para eles, Trump seria um mal maior, de modo que qualquer expediente se tornaria válido para atacá-lo – até a mentira. Outros buscaram mais discrição na trucagem, partindo para o “bom, mas pode ser verdade, não é mesmo?”.

E quem apontasse (e aponta) esse tipo de traquitana era (e é) chamado de DEFENSOR DO TRUMP. Os diálogos seguem mais ou menos o seguinte esquema:

– Viu que tão chantageando Trump, o negócio dos filmes em que ele e prostitutas aprontam num hotel da Rússia?
– Mas isso é mentira.
– Não é.
– É sim, olha aqui (vai o link).
– Bom, mas poderia ser verdade.
– Pois é, mas é mentira.
– Peraí, você tá defendendo o Trump? Então acha que ele é uma boa pessoa? Não acha que ele também já contou mentira?

E então, ao condenar a difusão de lorotas como algo razoável, o interlocutor se torna DEFENSOR DE TRUMP. É mole?

Mas isso não ocorre por acaso. Trata-se de tática velha da esquerda: vincular o adversário (ou potencial adversário, ou ainda opositor em algum debate) a figura repugnante. O propósito é mesquinho, daí o sucesso entre os canhotos: buscam fazer com que a pessoa ganhe todos os defeitos (verdadeiros, exagerados ou inventados) atribuídos à figura maligna. E também isso hoje em dia não tem funcionado.

Já as mentiras e distorções narrativas para atacar adversários ideológicos, vale dizer, deram certo durante muitos anos, pois um bom truque pode ser eficiente mesmo ao longo das décadas. O problema é quando se descobre como o mágico faz aquilo. Diante de uma plateia informada do procedimento, toda tentativa de repetição se transforma em episódio patético.

É esse o desespero deles, hoje. A meninada, com tempo de sobra na web e talento considerável, acha as fontes apontadas em questão de segundos e imediatamente as matérias, textos, posts e afins recebem contestações e questionamentos os mais variados, num tipo de reação impensável poucos anos atrás.

Fazem isso por que amam Trump? Claro que não. Na grande maioria das vezes, a reação decorre do ódio à mentira. E são esses leitores, ou potenciais leitores, que a grande imprensa acaba perdendo a cada vez que repete tal prática.

Seria simples evitar isso, mas parece ser difícil abrir mão de velhos truques, mesmo quando descobertos. Uma pena.
Título e Texto: Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 16 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”. 6-2-2017

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