sexta-feira, 3 de março de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Os nossos bons carnavais morreram de tédio

Aparecido Raimundo de Souza

“Tanto riso, oh quanta alegria, mais de mil palhações no salão” 
“Máscara negra”, música e letra de Zé Keti e Pereira Matos. Carnaval de 1967. Compacto simples, gravado pela ODEON DISCOS.

Ao som contagiante e envolvente de “Mamãe Eu Quero, Allah-Lá-Ô, Cachaça, Aurora, Jardineira, O Teu Cabelo Não Nega”, o carnaval do nosso tempo criava vida e cor e desabrochava pelas ruas, praças, coretos e avenidas, como flores perfumadas num imenso jardim florido.

Nas rádios, pérolas as mais variadas davam vida e forma ao tempo que balançavam a galera em polvorosa   profusão.
“Olha a cabeleira do Zezé
Será que ele é,
Será que ele é?”.
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“A canoa virou,
Deixaram virar,
Por causa da menina,
Que não soube remar”.
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“A pipa do vovô não sobe mais
A pipa do vovô não sobe mais
Apesar de fazer muita força, o vovô
Foi passado pra trás”.
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“Daqui não saio
Daqui ninguém me tira
Onde é que eu vou morar
O senhor tem paciência de esperar
Inda mais com quatro filhos
Onde é que eu vou morar?”.

A essas, senhoras e senhores, no espocar da programação, eram seguidas por “Chiquita Bacana, Maria Sapatão, A fonte secou, Está chegando A Hora, Maria Candelária, Bandeira Branca, A Dança do Cafuné...”.


E hoje, o que vemos? O que temos? Ou melhor: o que ouvimos?! Um bando de debilóides com caras de José Serra e olhos de Nestor Cerveró, nomenclaturados de DJs.

Na verdade, produtores sonoplastas de merda, atrás de estrondeantes pick-ups ou turntables (toca discos ou bolachões – os antigos long plays de vinil) remixando bostas e cagalhões de um trocinho conhecido como mp3.  

Por favor, alguém de bom senso e nariz - perdão, ouvido aguçado -, venha em nosso socorro. De coração, responda: onde levaremos nossos filhos e filhas adolescentes? Ou por outra, nossas esposas? Nossos pais?

Em que clube, uma banda ou um cantor da velha guarda se apresentará numa matinê garbosa e ajanotada? Onde será possível deixarmos nossos familiares na tranquilidade de um ambiente digno e respeitoso?


Onde encontraremos os amigos, para nos deliciarmos com uma cerveja regada a tira gosto, sem que as nossas dignidades sejam molestadas e nossos tímpanos (deixem se ser penicos) não venham a ser feridos com essa confusa e maçante barulheira que os malucos de carteirinha teimam em chamar de música?

Amanhã, ou depois, respondam: o que diremos às nossas crianças (que representarão o futuro de uma nova descendência, de um novo País) sem que elas se vejam insultadas e apedrejadas por essa enxurrada de desgraças sem pé nem cabeça?

Que quadro pintaremos aos netos, sem os erros gritantes da língua pátria, entre outros disparates e tolices de péssimos comportamentos? Como explicaremos esses absurdos trazidos em profusão, a toda hora, como enxurradas, sem falarmos no barulho infernal e lancinante produzido pelos famosos DJ, matilha de bárbaros em números cada vez mais crescentes e desembestados? 

Esperamos, sinceramente, que nenhum “moderninho” nos leve a mal ou nos interpretem como “antiquados” ou “superados”, por rotularmos toda essa balburdia que hoje chega as nossas casas (seja por emissoras de rádio ou televisão) golpeando e rasgando nossas cabeças. 

Que digam os saudosistas de plantão, se tais esquisitices bombásticas e esdrúxulas podem ser consideradas como obras primas: Listamos, abaixo, alguns exemplos:

“Matar os polícia é a nossa meta
Fala pra nóis quem é o poder
Mente criminosa, coração bandido
Sou fruto de guerras e rebeliões
Comecei menor já no 157
Hoje meu vício é roubar, profissão perigo”.
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“Me olha e deseja que eu veja
Mas já digo “não vai rolar”
Agora é tarde pra você querer me ganhar
Rebolo e te olho
Mas eu não quero mais ficar
Admito que acho graça
em ver você babar”.
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“Com marra de pegador, o bombadão da academia
Espalhou lá na favela, escuta só, que me comia
Eu fiquei de cara quente, boladona, eu fui cruel
Eu dei mole pro otário e levei lá pro hotel”.
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“É o nego e as maravilhas, em ritmo do carnaval
O nego cantando, o dj tocando e elas quebrando no movimento
Quebra, quebra, quebra, requebra, no quebra
Vai no quebra, que quebra, requebra que quebra
Quebra, requebra no quebra”.
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Nessa agitação toda, nessa arruaça sem precedentes, enfim, nessa geração Coca-Cola com ratos misturados, de loucos varridos, de vândalos e bagunceiros, de bárbaros e brutescos, de “Lepo Lepo” e outras tranqueiras, perguntamos boquiabertos, estatelados, completamente fora de nós: onde ficaram os autores de outrora?!

Nomes como Braguinha, Lamartine Babo, Alberto Ribeiro, Humberto Porto, Benedito Lacerda, Chiquinha Gonzaga, Haroldo Lobo, Roberto Menescal, Zé da Zilda, Zilda do Zé, Mário Lago, João Roberto Kelly, Heber Lobato, Ivan Ferreira, Mirabeau Pinheiro e tantos mais?

Temos grandes saudades dos nossos carnavais de menino. Dos tempos das calças curtas, das matinês de finais de semana nos clubes. Aquilo sim podia ser chamado de carnaval. Carnaval familiar, sobretudo familiar.

Naqueles idos, se ouvia boas trilhas sonoras que faziam bem a alma, ao ego, a vida, ao coração. E hoje digam ai, sobreviventes daquelas eras benfazejas... criaturas em pleno poder de suas faculdades mentais: alguém em sã consciência, poderia, ou teria como nos explicar, por tudo o que é mais sagrado, o que é uma boa letra, uma boa música?!

AVISO AOS NAVEGANTES:
PARA LER E PENSAR, SE O FACEBOOK, CÃO QUE FUMA OU OUTRO SITE QUE REPUBLICA MEUS TEXTOS, POR QUALQUER MOTIVO QUE SEJA VIEREM A SER RETIRADOS DO AR, OU OS MEUS ESCRITOS APAGADOS E CENSURADOS PELAS REDES SOCIAIS, O PRESENTE ARTIGO SERÁ PANFLETADO E DISTRIBUÍDO NAS SINALEIRAS, ALÉM DE INCLUÍ-LO EM MEU PRÓXIMO LIVRO “LINHAS MALDITAS” VOLUME 3.
Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Do Sítio ”Shangri-La” – Um lugar perdido no meio do nada. 26-2-2017

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Um comentário:

  1. Absolutamente correto o seu artigo. Aliás é a xerox se assim pudéssemos definir, em que o Brasil se transformou.
    Gostei muito de carnaval, e à minha época de garoto os carnavais na sede do botafogo eram fantásticos. O pais esqueceu todas as pérolas de musicas que você relata. Aliás, sou de uma época que quando fazíamos uma excursão por exemplo a Paquetá ou uma cidade do interior a volta era sempre regada ao som de " Cidade Maravilhosa " . Nunca mais ouvi e parece que ninguém conhece mais essa maravilhosa marchinha.
    Hoje de preferência sair do país para não escutar tudo o que você relatou.
    A minha sorte é que moro graças a Deus em Niterói, onde durante o carnaval a cidade se transforma em Europa, sem movimento ou barulho algum.
    O país precisa mudar urgente ou vai se arrepender em curtíssimo tempo
    José Manuel

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