sábado, 15 de abril de 2017

O terrorismo islâmico nunca existiu

Alberto Gonçalves

Se tudo ficar secreto e os deixarmos à vontade com os seus alvos, os terroristas acabam por desistir. Isto se antes não acabarem os alvos, e desistirmos nós. Em qualquer dos casos, é assunto arrumado.

A divulgação das proezas do terrorismo islâmico exige uma considerável quantidade de burocracia. A mera descrição desta exige fôlego e paciência, pelo que conto com o empenho do leitor. Vamos a isso? Vamos.

Sempre que meia dúzia de transeuntes são trucidados numa cidade europeia, a primeira fase consiste em proclamar que nada indica tratar-se de um ato terrorista.

Numa segunda fase, aceita-se que, se calhar, até foi um ato terrorista.

A terceira fase implica atribuir a matança exclusivamente à arma utilizada, seja um pechisbeque explosivo, uma faca ou um camião (a frase “camião abalroa xis pessoas” tornou-se um clássico do jornalismo cauteloso e da dissimulação).

Na quarta fase, descobre-se, não sem algum espanto, que o explosivo, a faca ou o camião tinham alguém a manobrá-los, embora haja pressa em adiantar que as motivações do manobrador permanecem obscuras.

Na quinta fase, o espanto redobra quando se percebe que o nome do homicida é Abdullah, Ahmed, Ali, Assan, Atwah, Aymen (noto que ainda não chegamos aos “bb”) ou algo com ressonância pouco latina, anglo-saxónica ou asiática.

A sexta fase envolve um questionário aos conhecidos de Abdullah, que o caracterizam como uma joia de rapaz.

Na sétima fase, suspeita-se que a joia afinal viajara recentemente para a Síria e participava em “sites” de ligeira influência “jihadista”, onde jurava matar os infiéis que se lhe atravessassem à frente (uma promessa literal no caso da utilização de camiões).

A oitava fase decide que Abdullah se “radicalizara”, ou seja, jurara devoção ao Estado Islâmico, a que chamamos Daesh só por pirraça.

A nona fase estabelece que Abdullah, ele mesmo um infeliz afetado por distúrbios psiquiátricos ou discriminação social ou ambos em simultâneo, não representa o islão, por muito que o próprio afirme aos berros o contrário.

A décima fase é essencial: aos tremeliques, o poder político declara que nunca cederá ao medo; os jornais desenham capas giras e vagas a propósito; o povo sai à rua a cantar o “Imagine” ou fica no Facebook a “solidarizar-se” com as vítimas sem referir os culpados.

Talvez para evitar esta trabalheira, certa escola de “pensamento” propõe com crescente insistência uma nova forma de noticiar o terrorismo islâmico: além de se negar que é islâmico, convém nem sequer noticiar o terrorismo. O argumento é o de que a informação sobre um atentado serve os interesses de quem o comete. Parece-me razoável, cabendo apenas aos editores sérios escolher se, doravante, responsabilizam o explosivo/faca/camião, ou sugerem que os mortos tombaram graças a forças sobrenaturais ou simplesmente não tocam no tema e aproveitam espaço precioso para debater o vídeo-árbitro.

Há, nisto, uma vantagem e um problema. O problema de reescrever o presente é a necessidade de, em prol da coerência, reescrever o passado. Urge lançar uma multidão de revisores para cima dos livros de História, dado que, daqui para a frente (ou para trás, para ser exato), as cinzas em Auschwitz foram o resultado de combustão espontânea, o canibalismo na URSS deveu-se a péssimas empresas de “catering” e a escravatura resumiu-se à vontade dos africanos em conhecer o mundo. O fundamental é não propagandear ideais nazis, comunistas ou supremacistas em geral.

Já a vantagem de reescrever o presente é a simplicidade em reescrever o futuro: de modo a não publicitar a toleima dos autores, os crimes “ideológicos” passam a dispor de autoria indeterminada ou, preferencialmente, autoria nenhuma. Imagine-se que dezenas de gays são baleados numa marcha orgulhosa. Falar em homofobia seria prestar um favor ao assassino, cujas razões – cito um defensor do “blackout” informativo – não importam e não merecem ser conhecidas. A imensa maioria dos homofóbicos é gente moderada e de paz, que guarda as convicções na esfera íntima e não maça ninguém. Dizer que a aversão à homossexualidade originou a chacina é – cito outra defensora do “blackout” – usá-la para legitimar “malfeitores” e “delinquentes”.

Por enquanto, porém, os apelos às restrições noticiosas limitam-se ao terrorismo, perdão, à delinquência. A cargo de muçulmanos, perdão, malfeitores. E começam a funcionar. Nos últimos oito dias, o público teve dificuldades em saber a identidade do malfeitor de Estocolmo. E não soube de todo que, desde então, malfeitores similares praticaram delinquências idênticas na Austrália, na Rússia e na Alemanha, além de uma série de países “exóticos” (total de mortos: 172). Assim é que é bonito: há que manter estas coisas em segredo e não dar aos terroristas o gozo de repararmos neles. Se os deixarmos à vontade com os seus alvos, os terroristas acabam por desistir. Isto se antes não acabarem os alvos, e desistirmos nós. Em qualquer dos casos, é assunto arrumado.

Nota de rodapé:
Entre nós, as reservas informativas não se esgotam na questão do terrorismo. Também a Venezuela, por exemplo, sumiu misteriosamente da generalidade dos “media” caseiros. E o que se passa na Venezuela? Ao que apurei, há uma “campanha de intoxicação da opinião pública veiculada pelos órgãos de comunicação social dominados pela direita, nomeadamente no que diz respeito às chamadas crises alimentar e política”. Há “ações criminosas em torno do abastecimento de bens essenciais e da especulação com os preços e a moeda nacional”. Há, claro, “as manobras do imperialismo norte-americano com o objetivo de derrubar o governo liderado por Nicolás Maduro e fazer regressar as maiores reservas mundiais de petróleo ao redil dos EUA”. Mas, acima de tudo, há “unidade cívico-militar” e “raízes profundas da Revolução Bolivariana entre as massas populares”. Isto, pelo menos, é o que diz o “Avante!”, dos raros jornais a tocar no assunto.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 15-4-2017

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