sexta-feira, 28 de julho de 2017

Pedrógão Grande: quem tem medo da “politização”?

Rui Ramos

Porque é que Salazar impediu que as cheias de 1967 fossem discutidas livremente? Porque previu que uma oposição “indigna”, como agora a do PSD e CDS, "aproveitaria" a tragédia para atacar o governo.

A oligarquia no poder não é a melhor fonte para percebermos o que é lícito e moral. Esta semana, os oligarcas deram-nos a boa nova de que vivemos em democracia, isto é, num regime em que podemos perguntar e discutir tudo livremente, ao contrário do que acontece em ditadura. Ao mesmo tempo, porém, disseram-nos esperar que não fizéssemos perguntas nem discutíssemos a tragédia de Pedrógão-Grande, como alguns políticos e jornalistas, porque isso seria “aproveitamento político”, o que é “imoral” e, portanto, inaceitável. Em que ficamos? Pode-se ou não discutir tudo? Até onde chega a democracia em Portugal?

O que é “politizar”? Politizar é discutir publicamente, é exigir informações, é reclamar responsabilidades. Mas se não é legítimo fazer isso a propósito de um desastre que matou 64 pessoas em circunstâncias por esclarecer e em que se suspeita de falhas graves dos serviços públicos, para que serve então a liberdade pela qual os oligarcas pedem que nos regozijemos?

Dir-me-ão: ah, mas os que querem debater Pedrógão-Grande só o querem fazer por malícia oposicionista, para incomodar o benemérito estadista Dr. António Costa. Pois sabem porque é que o Dr. Salazar não deixou que as mortíferas cheias de Lisboa em 1967 fossem livremente noticiadas e discutidas? Exatamente porque previu logo que uma oposição “indigna e irresponsável”, como agora a do PSD e do CDS, iria “aproveitar” os mortos para atacar o governo.

A censura existia para impedir que se fizesse “política” com coisas que, para os salazaristas, eram matéria exclusiva de administração séria e serena. Segundo o Dr. Salazar, Portugal estava cheio de gente muito mal-intencionada, “sem sentido de Estado”, que usava tudo, incluindo as vítimas de inundações, para “semear a dúvida e a desconfiança” contra aqueles que faziam a Portugal o grande favor de o governarem. Por isso, não era possível saber o número de mortos, nem discutir a atuação dos serviços públicos, nem analisar as causas da tragédia: tudo isso era “fazer política”, uma coisa que os salazaristas, como agora o Dr. Costa, o PCP e o BE, acharam sempre muito despropositado.

A democracia tem de facto este inconveniente, que António Costa e os seus acólitos comunistas e neocomunistas tanto lamentam: os cidadãos, imagine-se, começam logo a abusar da liberdade para “fazer política” com temas inconvenientes para o governo. Ora, o problema é que os temas inconvenientes para o atual governo são muitos, são todos aqueles que, por qualquer razão, podem desarranjar a lenda do “sucesso” e das “boas notícias”, tão cuidadosamente cultivada desde há quase dois anos. Por isso, falar de sistemas de emergência que não funcionam ou de armas roubadas à vontade nos paióis do Estado é “aproveitamento político”, uma coisa “imoral”, pela qual devia haver pedidos de desculpa. Até porque nem faltam temas legítimos de discussão, como, por exemplo, a vitória no Festival da Canção, que ainda não foi suficientemente analisada (nomeadamente, no sentido de reconhecer a responsabilidade do governo na vitória de Salvador Sobral).

Chegamos portanto a este ponto: à necessidade de dizer mais uma vez que a tragédia de Pedrógão Grande, por causa dos 64 mortos e por causa das legítimas suspeitas de preparação e de desnorte dos serviços do Estado, pode e deve ser “politizada”, isto é, ser objeto de debate público, de investigação jornalística e de iniciativas parlamentares, e que é essa “politização” que verdadeiramente distingue a democracia da ditadura, e não apenas a existência de uma liberdade de que só pudéssemos usufruir quando não incomoda o governo. 
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 28-7-2017

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