quarta-feira, 18 de outubro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] O Muro dos ventos uivantes

Aparecido Raimundo de Souza

A ALEMANHA DO ESCRITOR e romancista Thomas Mann, autor de “Os Buddenbrook” e “A Morte em Veneza”; de Michael Schumacher, automobilista, sete vezes campeão mundial; de Robert Koch, médico e patologista; de Sophie Scholl, membro da Rosa Branca, movimento da resistência alemã antinazista, comemorou recentemente vinte e oito anos da queda do BERLINER MAUER, ou MURO DE BERLIM, com a maior festa já realizada desde a noite do dia 9 de novembro de 1989, quando o governo comunista da República Democrática Alemã (RDA) liberou a passagem nas fronteiras entre o leste e o oeste do país, colocando fim definitivo na enorme barreira física que circundava toda a Berlin Ocidental (capitalista) da Oriental (socialista). Além de cindir a metrópole ao meio, simbolizou a divisão do mundo em dois blocos: República Federal da Alemanha (RFA) encabeçada pelos Estados Unidos e a República Democrática Alemã (RDA), sob a bandeira perversa das garras soviéticas.  
 
Construção do Muro, 1961
Embora o dia 9 de novembro (este ano caído numa quinta-feira) não seja feriado nacional no país, inúmeros eventos na capital promoveram a mesma união vista nos anos anteriores, oportunidade em que os berlinenses demoliram o emparedado de concreto (iniciado na madrugada de 13 de agosto de 1961, cinquenta e seis janeiros passados), igualmente o símbolo máximo da Guerra Fria (1946-1989), pedaço por pedaço.

O ponto ápice das comemorações aconteceu à noite, a partir das 19 horas, quando as autoridades esperavam uma multidão de quinhentas mil pessoas (turistas de mais de sessenta nações) se aglutinando na Praça de Paris, em frente ao Portal de Brandemburgo [imagem abaixo], símbolo da antiga divisão da cidade. No local onde ficava a chamada “Terra do Nada”, o terreno baldio que separava Berlim, várias bandas como Rammstein, Nena, Tangerine Dream e dezenas de outros artistas locais, como Andreas Bourani, Mark Forstes, Judit Holofernes incluindo roqueiros, fanqueiros e até alguns grupos folclóricos se apresentaram sobre o imenso palco montado. As “duas Berlim”, generosamente se espargiram num imenso mar de luzes. Realmente, um divertimento bonito, do qual tivemos o prazer de participar com toda a equipe da redação.


Lá estavam, entre tantos talentos, Elena Rostropovich, 69 anos, pianista e Olga Rostropovich, 61, violoncelista, filhas do notável e inconfundível Mstislav Rostropovich (falecido em 27 de abril de 2007, aos 80 anos). Ambas executaram obras de Bach e Villa-Lobos, acompanhadas por mais de cento e sessenta e cinco músicos de toda a Europa. Igualmente a Orquestra Filarmônica de Berlim, sob a batuta de Simon Rattle, deu um show à parte relembrando obras de Beethoven e Schütz. No final do evento, holofotes acesos simultaneamente no norte e no sul delinearam com focos elétricos toda a extensão dos cem quilômetros onde se ergueu a notória e, ao mesmo tempo, funesta e catastrófica construção.  

Realize Produções Fotográficas, São Paulo

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No vestíbulo de Brandemburgo centenas e centenas de peças de artifício pirotécnico, iluminaram com esplendor magnânimo, o folguedo adormecido dos alemães. Sem falar na imponente Fernsehturm, carinhosamente apelidada de “A Bola”, edificada no centro da Alexanderplatz, a mais importante Praça de Berlin. Com seus trezentos e sessenta e oito metros de altura, a estrutura mais alta de toda a cidade, indubitavelmente sobressaiu com elegância e garbo, se transfigurando nas cores incomparáveis do arco-íris, encantando, sobremaneira, a todos que desviavam os olhos ou circundavam a sua excelsitude e esplendor.

Também se vestiram para a festa, a Catedral, o Hotel de Rome, o prédio da Postdamer Platz, a Faculdade de Direito e a Embaixada Americana entre outros marcos históricos de relevantes valores. Pela manhã, às oito, uma cerimônia religiosa na Igreja de Santa Maria “em alemão Marienkirche”, na Karl-Liebknecht-Strasse (uma zona, na época do muro bastante nevrálgica), deu início às celebrações. Logo após, políticos das redondezas se encontraram nos jardins bem cuidados da Rotes Rathaus, localizada na parte oriental. “Por algumas horas, Berlim foi o centro de convergência do mundo” – disse o atual prefeito Michaël Mülher, em entrevista ao canal público local RDA. E o cidadão aproveitou para renovar um recado enviado a Donald Trump, em janeiro deste. “Que o ilustre renuncie à construção de um muro entre os Estados Unidos e o México”, destacando, evidentemente, a “infâmia e o sofrimento” causados em seu país, e na Europa, pelo fardo do baluarte que deixou divorciadas famílias inteiras.  

Com essa fala, Mülher voltou a pôr em questão e, no mesmo bombear de águas passadas, solidificou uma vez mais os momentos inesquecíveis, em que os habitantes orientais, eufóricos e risonhos, num ritual perene, cruzaram maciçamente a linha divisória, ao tempo em que foram recebidos de braços abertos com doces respingos de nostalgia e esperança pelos vizinhos ocidentais.

Berlim é sem dúvida alguma uma metrópole moderna erguida sobre os destroços da Segunda Guerra Mundial.  Apareceu em 1230, como uma coluna de pescadores junto ao Rio Spree com seus quatrocentos quilômetros.  Esse Rio é um afluente do Havel e corta não só a cidade de Berlim, como também Fürstenwalde, Cottbus, Köpenick, Lübbenau, Lübben (Spreewald), Spremberg, e Märkisch Buchholz. Até o final do século XV, sediou a capital de um então feudal germânico, considerado o eleitorado mais vasto de Brandemburgo.

Parcialmente aniquilada na Guerra dos Trinta Anos (1618/1648), se tornou o principal refúgio dos protestantes perseguidos. Napoleão a ocupou em 1806, mas, após a derrota dos franceses, em 1815, a província chegou a capital da Prússia, que se erigia, apressada a caminho de estonteante potencia. Berlim hospedou a Liga do Norte em 1867 e o império alemão em 1871.

Com a proclamação, em 1918, a casa do governo se transferiu para Weimar. No final da segunda guerra mundial, devastada e assolada, Berlim se encravou esquecida, na parte da Alemanha, ocupada pela União Soviética. Acabou dividida em quatro zonas: a oriental (soviética) e as três ocidentais (norte-americana, inglesa e francesa). Em 1961, o regente da zona oriental edificou o pestífero e agourento muro do pejo, separando-a das ocidentais. O regime capitalista vigorou na fração ocidental, enquanto o socialismo criou corpo e se agigantou na oriental.

O muro com seus cento e cinquenta e cinco quilômetros, custou caro à RDA (República Democrática da Alemanha). Dele faziam parte 66,5 km de gradeamento metálico, 302 cabines de observação, 127 redes eletrificadas com alarmes e 225 pistas para cães ferozes treinados a matar quem tentasse atravessar a alargada quadrela em rota de fuga, fosse para o lado de lá, ou de cá.  Sem falar nos militares armados que, sem nenhum constrangimento cortavam, na bala, no fuzil, ou de metralhadora, os incautos que se insurgiam na vã proeza de pular dispersando de uma banda para outra.

FESTA LEMBROU MOMENTOS TRISTES DA HISTÓRIA

Vamos abrir um parêntese e voltar um pouco na história. Os “então presidentes” dos Estados Unidos e da extinta União Soviética, George W. Bush e Mikhail Gorbatchev, respectivamente, principais colaboradores da reunificação alemã, participavam dos atos políticos locais. Nesse dia, os dois discursaram acaloradamente no Palácio do Reichstag (Conjunto das Câmaras Alemãs), no distrito de Mitte, ou mais precisamente na Platz der Republik.

“O freio havia sido quebrado, e a liberdade caía, literalmente, como uma cascata” – disse Bush, trazendo à memória à noite em que o chamado Muro da Vergonha veio a baixo, lançado, por terra pela população em desenfreado atropelo. Em alguns momentos, as recordações jubilosas se misturaram com instantes de ponderações sobre outros aniversários mais sombrios e tétricos da Alemanha do século XX.   “É um dia de alegria, mas também de desonra e reflexão – observou, logo depois, o chanceler Gerhard Schroeder, lembrando a Kristallnacht, ou “A noite dos Cristais”“.

No dia 9 de novembro de 1938, os nazistas destruíram templos e sinagogas, em uma ação que culminou com a morte trágica de pelo menos novecentos judeus e a prisão de milhares, num prelúdio de expiação e holocausto. Schroeder citou, sobremaneira, esse 9 de novembro de 1938, época em que se declarou a República de Weimar. Nesse mesmo dia, quatro anos depois, a República sobreviveu à tentativa de golpe de Estado de Adolf Hitler, que acabou chegando ao poder por meio de eleições, em 1933.

Gorbatchev recebeu elogios dos alemães por ter se negado a usar as tropas soviéticas contra os civis que buscavam atravessar a linha de frente da Guerra Fria. “Fizemos o correto”, salientou Michail, com ênfase, ao parlamento no edifício do Reichstag frente aos soldados soviéticos que ergueram o estandarte vermelho em 1945, imagem que se converteu no símbolo da derrota nazista. Parêntese fechado.

BERLIM 2017. ARTE DECORA PEDAÇOS DO MURO, PAREDÃO INFAME CONSIDERADO O OPRÓBRIO E A INDIGNAÇÃO DA HUMANIDADE

Com incrível paciência, Günter Schefer, do alto dos seus 89 anos de idade, desenha, traça e colore (sobre a muralha que dividiu Berlin de 13 de agosto de 1961 a 9 de novembro de 1989) uma bandeira alemã com a Estrela de Davi em seu centro. A obra desse cidadão, cujo título é “Vaterland” (em português, “Pátria”), é uma das setenta e três que ornam o maior trecho do muro mantido em pé.   


Nos floridos dias que se seguiram ao 9 de novembro de 1989, cento e dezoito artistas contribuíram para essa decoração. A faixa de 1,3 quilômetros de comprimento – das dezoito que sobraram com proteção oficial, foi batizada de East Side Gallery (Galeria Lado Leste). Preservado da demolição, com 1.113 metros, se situa ao ar livre, na Mühlenstrabe, ao longo do Rio Spree. Comporta desenhos de vários pintores e grafiteiros conhecidos e anônimos, de várias nacionalidades. Em 1990, havia 105 desenhistas, hoje somam mais de 300.

Refrescado o momento de algazarra, entretanto, poucas pessoas se interessaram pela sua conservação. Alguns artistas ensaiaram, em vão, restaurar o projeto, mas nenhum trabalhou com tanta avidez e afinco, como Schefer. Para se ter uma ideia, ele chegou a pintar 21 vezes esse trecho acautelado, na tentativa de apaziguar todas as “feridas e cicatrizes” que se produziram ao longo do tempo, em maioria sinais de pichadores baratos e elementos de ideias e pensamentos contrários ao sistema.

Dessa época, outro que merece destaque. Hagen Koch. Nascido em 1940, ex-funcionário do Ministério da Segurança da Alemanha Oriental (MISAO), Koch até hoje insiste em ostentar o símbolo da Guerra Fria como parte da sua vida. O cidadão de 77 anos está vinculado ao início e ao fim do muro. Foi ele que, em 1961, traçou a linha branca demarcando os pontos onde seria exatamente construído o divisor que veio a ser a maior desgraça endereçada a seus consanguíneos. Vinte e oito anos consumidos, Kock (ainda) se encarrega de vender a quem o procura, os fragmentos (fotografias, recortes de imprensa, fitas cassetes, discos de vinil, quadros, documentos oficiais e cartas privadas, entre outros objetos, do seu arquivo pessoal do muro) aos museus e colecionadores de todo o planeta.       

CURIOSIDADES

Vejamos agora, algumas preciosidades que os caros leitores poderão encontrar e não só encontrar, serem vividas na pele, na linda e acolhedora Berlim. A Tower Fernsehturm com seus 368 metros de altura, carinhosamente apelidada de “Bola”, possui dois andares para visitação. No primeiro piso, um panorâmico com bar, a duzentos e três metros e um restaurante, quatro metros acima. Em menos de quarenta segundos, dois elevadores vão do chão ao andar da esfera, com vista única da cidade. Um painel interno mostra uma luz subindo, enquanto o equipamento vence o pico metro a metro.
 
Realize Produções Fotográficas, São Paulo
No primeiro pavimento, se tem uma visão magnífica e imperdível de toda a cidade, com pequenos mapas indicando cada ponto a ser observado. No segundo andar, repetindo, quatro metros acima, um amplo restaurante (o “Sphere”) oferece outro quadro jubiloso, e o mais incomum. O mecanismo assentado sobre uma plataforma giratória viaja todo o espaço, 360 graus a cada vinte minutos. Os vidros que cobrem toda a cúpula de aço inoxidável, quando o sol se reflete, pela manhã, dá para se ver claramente uma cruz no centro da esfera. Esse fenômeno, segundo a plebe local, é conhecido como “A Vingança do Papa”, em face dos ocidentais (absolverem o efeito) como o símbolo do poder soviético, à construção da torre, deitando, por terra, logicamente, a propaganda comunista.

Berlim tem a maior estação de trem da Europa. A Hauptibanhof é uma construção envidraçada com 321 metros de largura. Em larga escala, pombos e cachorros não ficam em plano inferior. É mais fácil os senhores saudarem um pombo que trocar um bom dia, ou boa noite com um morador local. Não se vê mendigos, não se topa com ambulantes vendendo balas, doces, picolés, charutos e réplicas da “Bola”, nos ônibus e trens.

Realize Produções Fotográficas, São Paulo

Não há camelôs ou assaltos nas ruas. As pessoas respeitam os sinais, os ciclistas (aqui muita gente corta a cidade pedalando) e os motoristas com seus automotores particulares param, antes mesmo dos pedestres colocarem os pés nas faixas de proteção.  Há um respeito total e mútuo aos caminhantes, uma espécie de reverência que não se consegue ver, por exemplo, no Brasil.

Em 2002, o falecido popstar Michael Jackson quando veio receber o premio Bambi, ficou tão eufórico que balançou seu filho Prince Michael II da sacada da janela do 5º andar do luxuoso Hotel Adlon, na Unter den Linden, perto do Portal de Brandemburgo, na Pariser Platz.


Quando os senhores e as senhoras resolverem dar uma voltinha por aqui, não deixem de conhecer os Restaurantes Dunkelrestaurant, ou “restaurante às escuras”. Um deles o Unsicht-Bar, na Gormannstrabe e o outro, o Nocti Vagus, na Saarbrucher Str. Ambos os estabelecimentos são servidos por garçons cegos. Interessante e uma experiência jamais vivida. A gastronomia é variada. Apesar disso, as pessoas podem optar pelos pratos “surpresas”.

NOSSAS CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pelo exposto, queremos finalizar enfatizando que o famoso Muro de Berlim (ponto de partida de nossa vinda à Alemanha), traduz nos dias de hoje, com todas as letras, o egoísmo, a ignorância e o desamor entre os seres que habitavam ambos os lados do mesmo chão.

Realize Produções Fotográficas, São Paulo
Questionamos, quantas vidas ficaram distantes, quantas famílias estiveram separadas? Quantas esposas perderam seus maridos, quantas crianças ficaram sem o carinho e a proteção de seus pais? Não obtivemos respostas a nenhuma de nossas indagações. No mesmo gosto que sentimos no transcorrer da viagem, percebemos que o muro não está mais lá, bem sabemos. Porém, ainda que ninguém note o vento do ódio, a fúria do individualismo, a mesquinhez do racismo, o sopro de ideologias insalubres e a aragem de conceitos diferentes as convicções uiva fortemente.

Esse vento assovia, covarde e estuporado cortando o silêncio, quebrando sonhos e levando, para longe, certezas que poderiam se tornar realidades plenas.  O muro foi derrubado, isso é fato notório. Sua presença, porém, se enxerga se sente, se pega, se toca, se cheira, se degusta. Ainda que totalmente fragmentada por toda a cidade, por todos os cantos, becos e ruelas, ELE ESTÁ LÁ.  Aparta corações, almas e vidas, vidas e almas que não ousaram se misturar no mesmo compasso cadenciado pela harmonia de um novo porvir.

Percebemos, em rápidas entrevistas com gentios locais, que uma camada de viventes seguirá construindo muros, redomas, e cercas imaginárias à sua volta. O Muro de Berlim, ou o Muro da Vergonha, na verdade, vinte e oito anos depois, continua lá. Pulsante, palpitante, escondido, atocaiado. Perdido em algum lugar do não sei onde. Existe, senhoras e senhores, de fato, dentro de cada berlinense. E essa sombra imorredoura, durável, perpétua, prolongada, imperecedora em seu simulacro maligno, apesar de toda a modernidade gritante que revestiu de palpitante, de dádiva e benéfico à cidade das inesquecíveis sinfonias de Beethoven, convive com as famílias antigas e, de certa forma, com as atuais, como se fizesse parte da literatura histórica de cada uma delas.

Talvez, um dia, consigamos ser todos iguais diante do espelho da vida, diante (não do muro da vergonha), mas do umbral da misericórdia divina, do ádito eterno, quando, evidentemente, unidos numa só meta de conquista e comiseração ampla do futuro, derrubaremos os paredões de concretos ilusórios e imaginários dentro de nossas cabeças. Afastaremos os conceitos iracundos que nos tolhem e nos impedem de expandirmos com plena convicção os próprios passos em assomo da auspiciosa Felicidade e da congratulante e sonhada Paz Universal. 
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza. Do Mercure Hotel, em Alexanderplatz, Berlim, Alemanha. Na festa de comemoração dos 28 anos da derrubada do maior símbolo da Guerra Fria: O Muro de Berlim. 17-10-2017 
Fotos: Realize Produções Fotográficas, São Paulo

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