terça-feira, 6 de março de 2018

Nós todas, todas nós, “mulheres da vida”

Carina Bratt

Dentro de dois dias, ou mais precisamente no Dia Internacional da Mulher, eu não poderia (como secretária particular e assessora de um jornalista, e, em face disso, estar linkada nas notícias e nas coisas do mundo), deixar de prestar uma singela homenagem a todas as fêmeas que fazem parte da minha raça. E para isso, nada melhor que relembrar a grande e inesquecível poetiza Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, simplesmente Cora Coralina e a sua “Mulher da vida”, poesia apresentada quando da comemoração do Dia Internacional da Mulher nos idos de 1975.  Cora Coralina, esse exemplo de pessoa inesquecível nos deixou há exatos trinta e três anos atrás, ou mais precisamente em 10 de abril de 1985. No fundo, amigas leitoras, somos todas, indistintamente, querendo, ou não, não importa a nossa escolaridade, ou a nossa profissão. Somos, literalmente, “Mulheres da vida”.


Mulher da vida.
Mulher da Vida, minha Irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.
Mulher da Vida, minha irmã.
Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por
aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.
Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.
Flor sombria, sementeira espinhal
gerada nos viveiros da miséria, da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes da Terra.
Um dia, numa cidade longínqua, essa
mulher corria perseguida pelos homens que
a tinham maculado. Aflita, ouvindo o
tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.
A Justiça estendeu sua destra poderosa e
lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra”.
As pedras caíram
e os cobradores deram s costas.
O Justo falou então a palavra de equidade:
“Ninguém te condenou, mulher...
nem eu te condeno”.

A Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém
as urgências brutais do homem para que
na sociedade possam coexistir a inocência,
a castidade e a virtude.
Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho.
Sem cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.
Mulher da Vida, minha irmã.
No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça
do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.
E o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco em
novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrutível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.
Mulher da Vida, minha irmã.

Declarou-lhe Jesus: “Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no Reino de Deus”.
Evangelho de São Mateus, ver. 31.

Título e Texto: Carina Bratt, secretária e assessora de imprensa do jornalista e escritor Aparecido Raimundo de Souza. Do sitio “Shangri-La”, um lugar perdido no meio do nada. 6-3-2018

Um comentário:

  1. Esse poema caiu muito bem para o "nosso dia"! Quem realmente mereceria ser homenageada, senão estas que são mais "mulheres" que muitas por ai. Aguentam o "tranco" de uma vida que a elas foi imposta, sem dó nem piedade. Portanto Orgulhem-se irmãs, jamais se diminuem e sintam-se aquém. O título de "mulher-maravilha" lhes pertence!

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