domingo, 20 de janeiro de 2019

[Pensando alto] As novas ideologias e o namoro de Vitinho e Milú

Pedro Frederico Caldas

(Numa terra de liberdade, nós somos reféns da tirania do politicamente correto.
Robert Griffin

Hoje em dia o saci seria um afrodescendente portador de necessidades especiais.
Paulo Bonfá

Não são somente os políticos que acham o povo idiota, os autores de novelas também
Nelson Barth

Era uma vez Vitinho e Milú. Ai... humm... Melhor fazer primeiro um cigarrinho de palha, enquanto examinamos os antecedentes, para depois irmos aos consequentes.

Não sendo politicamente correto, gosto de observar as coisas o mais afastado possível das manifestações politicamente corretas. Esse negócio do politicamente correto me causa efeitos paradoxais, me enfurece ou me faz rir.

O pior de tudo é que essa fanfarra caiu no gosto popular.

Como se sabe, o processo educacional e cultural se dá por duas vias: a formal, processada nas escolas de todos os níveis, na leitura, nos cursos, nas palestras e conferências; a informal, processada no âmbito da família, do trabalho, das amizades e dos mais variados contatos e relacionamentos sociais.

A formação da pessoa é o resumo do que estuda e do que vive, num processo que leva toda a vida.

Essas fronteiras foram extremamente alargadas pelos meios de comunicação. No passado de algumas décadas, a educação informal estava na mesa de jantar e na esquina, onde os amigos se reuniam e intercambiavam conhecimento. Esse processo não cessou e continua nos clubes, nas reuniões sociais, ou em qualquer outro local ou ocasião propício à interação social.

Entretanto, há algo novo no ar. Trata-se da força avassaladora dos meios de comunicação, seja a imprensa em toda a sua variada extensão, seja o fenômeno, este bem mais recente, das chamadas redes sociais. É difícil hoje em dia se encontrar alguém que não sofra o impacto, para o bem e para o mal, dos meios de comunicação.

As pessoas, principalmente as mais simples, tendem a prestar muita atenção aos seus artistas prediletos.

Os astros do cinema, televisão, rádio e esportes estão muito presentes na vida e na opinião de seus admiradores. Quem não está ligado em ciência política, economia ou história, tende a ser um consumidor cultural passivo, dando mais crédito a quem diz do que ao que é dito. Programas como o do Faustão, dentre muitos outros de TV, vão incutindo no imaginário popular que qualquer pensamento contrário ao pensamento pretensamente moderno e corrente nos meios de comunicação e no show business não passa de mero preconceito.

Ter conceitos, ter uma ideia abrangente e abstrata de uma realidade, configurativa de valores introjetados pela cultura de uma vida vivida, está virando algo derrogatório, ao ponto de a pessoa ter que estar se autopoliciando, se autocensurando a todo instante, ou dando explicações da real abrangência daquilo que diz ou que pensa para não cair nos reproches daqueles que generalizaram a palavra preconceito.

Todos nós preconceituamos, temos ideias preconcebidas de coisas, situações e pessoas. Quando alguém nos diz “Europa”, vem-nos à mente uma parte do mundo material e culturalmente rica, lugar de antigas belezas arquitetônicas e de paladares mil colocados à mesa. Quando alguém diz “África”, nosso conceito é outro, isso porque temos conceitos predeterminados dos dois continentes. E isso não é ruim ou desairoso, é um fato. Nesse passo, quanto mais cultura, informação e riqueza de vida temos, mas somos capazes de preconceituar. Assim, a palavra preconceito que anda em voga só pode ter o caráter negativo que se lhe quer emprestar quando acompanhada ou representativa de discriminação negativa. Gostar de morenas, de determinado time de futebol, ter preferências gastronômicas, reprovar pensamentos ou partidos políticos, tudo isso é algo normal, legítimo, praticado por todos nós. O mundo físico não é plano, o das ideias, menos ainda. Não cabe aqui a palavra preconceito no sentido quase idiótico como é repetida ad nauseam na imprensa, nas conversas e nas redes sociais e, para não esquecer, no programa do Faustão.

Se você só gosta de ter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo, você não está sendo preconceituoso com pessoas do sexo oposto, você não faz nada mais do que exercer uma preferência. O contrário, como diria Dilma, também resulta no mesmo.

Mas como chegamos a essa situação de tudo não passar de mero preconceito, no sentido ruim da palavra.
O multiculturalismo, a ideologia de gênero e o politicamente correto saíram da pena dos bem pensantes da esquerda, galgou o mundo escolar em seu mais amplo sentido, os palcos, as redações dos meios de comunicação, infiltrando-se nos organismos sociais, sem que as pessoas menos avisadas percebessem a origem desse “bem pensar”.

Isso acontece e se propaga no plano das ideias como as viroses se espraiam pelos organismos. O paciente repete aquilo que aprendeu das mais diversas fontes e acaba incorporando aquilo que é uma ideologia como algo comum ao pensamento e à vivência social.

Há os que sabem muito bem do que se trata e qual o propósito. Essas três posições político-filosóficas desfraldadas pela esquerda foram construídas nos meios acadêmicos, transformaram-se em livros, artigos, conferências, entrevistas, palavras de ordem de agremiações políticas, movimentos sociais, ongs de perfis aparentemente inofensivos, além de outros meios, tudo embalado em palavras generosas e ideias que, por si sós, jamais podem ser combatidas pelo seu aparente propósito.

Já escrevi muito por aqui e procurei demonstrar de forma simples e direta o real significado e os propósitos finais dessas três bandeiras agitadas pelo pensamento acadêmico de esquerda. Nada de fuzis, nada de subir serras para, pela força, descer, conquistar o Estado e impingir o socialismo. Com a derrocada dos países comunistas acantonados no entorno da ex-União Soviética, e com a adoção pela China do sistema capitalista de mercado, seria muito difícil um país hoje em dia adotar o regime comunista e trafegar dentre as outras nações com galhardia.

Cuba, por exemplo, sobrevive como mito, facilitado pelo fato de ser uma ilha, caso contrário já teria fugido quase todo mundo de lá.

Os novos pensadores de esquerda, na esteira de pensamento iniciado lá atrás pelo teórico comunista italiano Antonio Gramsci, procuram a tomada do estado por dentro, impondo às sociedades uma pauta de pensamento de cujo lastro participam o multiculturalismo, o politicamente correto e a ideologia de gênero, pensamentos que, encapsulados em um manto de generosidade, buscam reconfigurar a sociedade através de uma batalhada sem tanques nem fuzis, pois se trata de uma guerra cultural.

Essa pauta cultural está-se impondo paulatinamente, desde os Anos Sessenta, construída por filósofos e pensadores de esquerda.

Somente agora, quando já ganha contornos de pensamento dominante em grandes estratos sociais, começam a ser ouvidas as vozes dos pensadores que já vêm de há muito advertindo para a forma solerte com que tais doutrinas estão se infiltrando no tecido social.

Muitos pensadores, homens que estão atentos aos propósitos de tais doutrinas, vêm revelando como foram gestadas, os erros por elas incorridos, mas tudo no campo de muito poucos, pois a batalha cultural nunca é travada por grandes exércitos ou falanges.

Há muitas obras analisando esse avanço dos pensadores de esquerda. Obras, essas, calcadas em sólida cultura filosófica. A título de exemplo, recomendo, para quem se interessa pelo tema, a leitura da obra do filósofo, pensador e acadêmico inglês Roger Scruton, cujo título em inglês é “Fools, Frauds and Firebrands – Thinkers of the New Left”, onde analisa, com a profundidade e a mordacidade de sempre, Hobsbawm, Dworkin, Sartre, Foucault, Habermas, Lacan, Badiou, Zizek e vários outros. Acredito que tão importante obra já tenha sido editada no Brasil, talvez com título adaptado, como costuma ocorrer.

Esse conjunto de pensamento tem franjas que já atingem o nível do ridículo. Uma delas é o limite e a configuração daquilo que se pode chamar de assédio sexual. Nos Estados Unidos isso virou uma praga. Já não posso assistir um dos melhores quadros da TV americana, o de maior prestígio na área política, abatido pela fama de conquistador. Uma das acusações foi o grande crime de ter convidado uma colega para jantar e ter reagido de forma não polida à recusa.

A coisa se avoluma de tal forma que artistas e intelectuais francesas lançaram um manifesto condenando essa moderna forma de caça às bruxas.

Isso não importa dizer que devemos ser tolerantes com verdadeiros cafajestes que usam a posição de mando para submeter pessoas aos seus apetites sexuais, impondo, pela força do mando, a pauta de seus desejos.

Por outro lado, está ficando difícil a abordagem que antecede o relacionamento sexual entre duas pessoas. Nos Estados Unidos, particularmente, a coisa está ganhando contornos de paranoia.

Um amigo, de um grupo liberal baiano, pessoa de grande erudição política e filosófica, postou, em tom de blague, mas revelador do ridículo que vivemos, que, se esses “crimes” não prescrevessem, a mulher dele certamente teria uma ação para metê-lo na cadeia. Eu mesmo, por “crimes” de décadas, se não prescritos, já estou com medo de ser algemado.

Às vezes, o que está por trás de uma ideia e do objetivo final que ela busca é mais importante do que a percepção mais imediata de que dela temos. Por isso, para despertar a curiosidade daqueles que ainda não acordaram para esses temas, resolvi fazer essa pequena digressão. Dito isso, só me resta desejar a todos...

- Eh, cara! Tolerei até aqui essa tua conversa fiada de que alguém não pode ser macho e fêmea ao mesmo tempo só para saber do namoro de Vitinho e Milú. Agora que te tolerei até aqui quer sair de fininho sem contar, pô!
Okay, já que você insiste, vou contar. Mas há três personagens na história: Vitinho, Milú e um amigo meu, cujo nome não entregarei, jamais.

Vitinho, batizado Vitalino Almeida Cachoeira, foi criado por uma mãe e uma tia que lhe deram banho até à puberdade, e só pararam quando notaram, um tanto abismadas, que o apêndice do rapaz já escapava da bacia. A mãe, modernosa, afeita a passeatas e abanadora de bandeiras, onguista militante, colocou-o numa dessas escolas de professores avançadinhos, propagadores da ideologia de gênero. O fato é que deram uma boneca para ele brincar, sob o argumento que há mais de quarenta tipos de gênero e que, um dia, ele, não a natureza ou a sociedade repressora, decidiria o que realmente era. Vitinho cresceu acanhadíssimo, refreado pela incerteza do que realmente era. Sentia atração pelas mulheres, mas tinha uma dificuldade imensa de se declarar. Tinha afeição, mais que afeição, forte palpitação, por Milú, vizinha de rua e frequentadora da mesma padaria. Toda vez que se aproximava do objeto dos seus sonhos, gaguejava, sentia tremores e suor frio nas mãos, por mais que as esfregasse.

Milú era uma brunette bonita, solta e resolvida que só ela. Já assoprara vinte e uma velinhas, mas tinha desenvoltura de uns trinta carnavais.

Um belo dia, Vitinho resolveu pedir conselhos a um amigo meu sobre como abordar Milú para “pedir para namorar”. Esse meu amigo (chamemo-lo de PF) teve uma trajetória de grande conquistador. Louro, olhos azuis, três fios de cabelo desfraldados na parte frontal da cabeça, tudo isso envolto num papo cativante. Um sedutor. Suas conquistas, inúmeras, iam de A a Z. Já entrado em anos, resolveu escrever suas reminiscências de verdadeiro Casanova sob o título “Como Seduzir e Escravizar Corações”. Os originais já ocupavam 107 folhas de um caderno quando a mulher, o seu “Beinnho, descobriu e fulminou sua carreira de escritor.

O fato é que Vitinho procurou esse meu amigo para saber como deveria abordar Milú. Então, meu amigo Casanova, o PF, olhou para Vitinho com a superioridade e a segurança de um entendido em mulheres, um arrasador de corações e aconselhou: vá até Milú, cumprimente-a, em seguida inicie uma conversa de interesse geral, faça-a inserir-se no assunto e, quando estiver envolta em seu papo, diga que quer namorar. Não esqueça, comece com um assunto de interesse geral para lhe despertar a atenção!

Determinado e vencendo acanhamentos mil, Vitinho, mãos e voz trêmulas, acercou-se da esfuziante, experimentada e determinada Milú. Daqui para a frente, passemos a palavra a eles:
- B..., bo..., bom dia, Milú.
- Bom dia, Vitinho. Qual é o problema?
- Vendi meu fusca...
- E daí?
- Me fudi.
Um bom domingo para todos.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, Aventura, EUA, 1-2-2018

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