domingo, 22 de setembro de 2019

[As danações de Carina] Ossos sem carne

Carina Bratt

Eddie, agora só pensava na Mulher Cadeira e nada o demovia dessa ideia. A família apostara que logo ele se esqueceria dessa nova garota como das demais que passaram pela sua vida. De uma bem recente ainda restavam marcas profundas e indeléveis. A Mulher Samambaia. Isso mesmo. Eddie estivera quase às raias da neurastenia por ela, barbaramente apaixonado, cego, sem chão, a ponto de fazer algumas besteiras. Aliás, fez.

Quase acabou preso. Por fim, se desencantou da Lageana Santa Catarinense, quando soube pelos amigos e confirmou mais tarde, ao ler em revistas especializadas em celebridades, que ela engravidara do jogador Dentinho, na época, meio-campista e ponta direita do Corinthians. Dentinho havia chegado primeiro, na frente dele, dera uma dentada nela, uma mordida feroz no lugar errado e nove meses depois veio ao mundo o Bruno Lucas.

Desde então Dani passou a representar página virada no livro da sua vida. Eddie, de raiva, foi mais longe. Mudou de time. Parou de torcer pelo “Timão” e virou vascaíno doente. O negócio, agora, era a esfuziante e não menos bela Mulher Cadeira. Amor, como se costuma dizer, não à primeira sentada, mas à primeira troca de olhares mais calientes e prolongados. A tal da Mulher Cadeira, trabalhava num shopping movimentadíssimo, como vendedora numa loja de celulares.

Eddie passou, deu uma olhada básica pelo envidraçado, voltou, tornou a encarar. Na terceira cruzada, deu uma de Chico Buarque: “nos teus olhos também posso ver, as vitrines te vendo passar”. Entrou porta adentro, tropeçou no segurança. Ambos foram ao chão num abraço de nomenclatura esquisita, embolados como dois bonecos de marionetes fugidos, às pressas, dos cordéis imaginários que os prendiam.  Eddie pediu mil desculpas e chegou com tudo para uma sondada mais de perto no terreno.

Juraria a dedinhos cruzados, que a garota lhe endereçara um sorriso meio tímido, todavia, forte o bastante para ele cair matando e investir no mais novo pedaço de mau caminho. Assim fez. Como quem não quer nada se achegou. Com fingido interesse por um determinado aparelho, começou a fazer perguntas e mais perguntas. Havia uma enorme quantidade de celulares nas mais variadas cores espalhados numa peça de mostruário trancada a cadeado.

- Esse aqui o senhor tem acesso a Internet, ao Google, ao Youtube e ao Facebook...
- Conseguirei ver meus recados no WhatsApp? 
- Não só verá como o senhor igualmente em tempo real poderá responder a seus e-mails e, claro, interagir com os seus pais, amigos, com a namorada...
- E este?

- Sofisticadíssimo! Além de tudo o que acabei de enumerar essa preciosidade vem com televisão, geladeira, rádio AM e FM. De lambuja, MP4, MP5, MP6, MP8 e MP10.  Fala três idiomas, traduz textos, evita que o senhor receba notícias ruins... Gostou do brinquedinho?
- Por favor, nada de senhor...
- Hábito.
- Eu compreendo, mas, por gentileza...

- Ok. Sem o senhor.
- Não me disse seu nome?
- Aryane.
- Como a Stein Kopf, a Panicat?
- Quem dera! Minha beleza passou longe daquela musa.
- De forma alguma. Particularmente acho você mais bonita. Sem mencionar a elegância e o porte de princesa. Perdão, de rainha...


Ela, matreira, sorriso de um canto a outro do rosto:
- Me sinto lisonjeada. Só não imagine aí na sua cabecinha que me preocupo com os biquinhos de meus seios.
- Por quê, a Aryane da televisão tem problemas com essa parte do corpo?
- Sim.
- Desconhecia esse particular...

- Pois é. “Nem tudo é o que parece ser”. Minha xará tem esse pequeno contratempo com seus mamilos.
- Volto a repetir: você é mais atraente que ela.
- O senhor, digo, você está sendo bondoso.
- Não, sincero.
- De verdade?
- Acredite! Mata uma curiosidade?

- Até duas.
- A que horas sai?
- Às dez quando o relógio mostrar dois patinhos no mostrador.
- Me daria o prazer de poder vir lhe buscar?
- Com certeza. O prazer será todo meu.
- Aqui estarei plantado feito dois de paus à sua espera.
- E eu encantada com a sua chegada. Aproveitarei a oportunidade para deitar o cabelo e capar o gato. Mas por favor, por tudo quanto é mais sagrado. Não volte a atropelar o segurança. Ele sofre de hemorroidas.

Ambos sorriram com vontade a lembrança desse fato deveres ridículo e engraçado. A partir desse bate papo, Eddie entrou em incendiada impaciência. A impressão que o atormentava, a de que o relógio marcaria meia noite, contudo, as dez, com os dois patinhos na lagoa azul, que ele tanto esperava, para ir buscar a sua Brooke Shields nem por reza braba. Qual o quê! A Mulher Cadeira (e ele nem sabia ainda, oficialmente, que ela, a Aryane era a mulher cadeira) certamente mil vezes, mais bonita que a Brooke.

Sem contar que a cadeira estava ali, praticamente ao seu lado, ao alcance das suas mãos, da sua bundinha, enquanto a Shields... Sabe-se lá por onde andaria... Finalmente, após longa e cansativa exaustão, o instante aguardado e sonhado. Donzela a tiracolo decidiram dar uma parada na praça de alimentação. Ela pediu refrigerante. Ele cerveja. Ela optou por batatinhas fritas. Ele por uma porção de calabresa.

Final de noite, shopping fechando as portas, ponto de ônibus para embarque cada um para sua casa.
- Verei você de novo?
Foi a partir daí que Aryane contou que, pela manhã, das oito até às quatro, fazia comerciais como modelo de uma empresa de móveis e utensílios domésticos. Nos comerciais ela protagonizava a figura da Mulher Cadeira. À noite, das dezoito às vinte e duas horas encarava uma ocupação extra como vendedora na loja de departamentos onde ele a vira pela primeira vez.

- Espera aí. Eu ouvi direito? Mulher sentadeira?
- Cadeira, moço, cadeira...
- E o que você faz?
- Me passo por uma cadeira, onde a galera entra para comprar e acaba dando comigo ladeada de mesas, sofás, estantes, camas, guarda roupas, etc. etc...
- E esse pessoal senta em você?
- Literalmente!

- Meu Santíssimo Sacramento! E sua estrutura corporal suporta?
(Risos).
- Tipo assim: fico de joelhos, estico os braços e me prostro como se fosse uma peça de mostruário, evidentemente com um pano cor de rosa ou preto me cobrindo todo o corpo, da cabeça aos pés, só os olhos de fora. Todo mundo vem, me dá uma espiada, e um ou outro acaba dando uma sentadinha.

- Nunca se machucou?
- Só de mentirinha, pra conseguir junto à minha gerente uma folguinha e dar uma volta pra respirar. Coisas de mulher...
- Entendi. Legal. Nossa, que susto!
- Lembra que falei “nem tudo é o que parece ser?”.
- Com todas as letras. E quanto a mim? Conseguirei dar uma sentadinha?
- Você quer?

- Muito!
- Eu deixo.
- Aguentará meu peso?
- Só você sentando pra gente saber.
- Ei gata, sou direito, digo direto e reto. Quer namorar comigo?
 O coletivo que a levaria embora nesse momento pinta no pedaço. Ela corre afoita, em meio a uma massa enorme de pessoas que igualmente pretende embarcar.

O jovem insiste na indagação, aliás, grita, berra:
- Você não respondeu. Queeeerrr...?!
Aryane não tem tempo de dizer sim ou não.  Eddie a perde em meio a uma pá de gente. A condução se afasta e ele fica ali parado, triste, macambúzio, olhar perdido, vendo o buzão dela indo embora e levando a sua cadeira junto. Seu coração de homem no momento seguinte se enche de pesada melancolia.  Lágrimas de tristezas cobrem seu semblante desolado, como o de um cachorrinho de madame que acabara de cair de um caminhão de mudanças.
Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, no Espírito Santo, 22-9-2019  

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