terça-feira, 30 de abril de 2013

O Dia do Trabalho e Obsolescência Humana


José Carlos Bolognese
A data se comemora, opondo algo que é infinito - o trabalho, ao seu agente principal que tem data de validade - o trabalhador. Pelo menos no trabalho assalariado, nenhum homem ou mulher pode ficar indefinidamente fazendo a mesma coisa até o seu último suspiro. Exceto pelos profissionais diferenciados, não submetidos à rotina do trabalho comum, não há possibilidade de permanência muito longa além de certa idade. O determinismo da obsolescência humana obriga a sociedade a tratar as pessoas conforme suas necessidades e capacidades em cada fase da vida.

A sociedade – até quem não trabalha – não pode viver sem o trabalho. E se tem de haver trabalhadores, certas condições se impõem, naturalmente. Porém, a mais valorizada é a condição de produtividade do trabalhador, fase em que, bem ou mal, ele recebe salário e tem direito, ainda que muitas vezes não respeitado, a ser protegido por um conjunto normas a que pode recorrer sempre que necessário. Já o trabalhador desempregado enfrenta uma barra bem mais pesada. Especialmente nas fases de pré-aposentadoria. Mas o trabalhador aposentado não se sai melhor na foto. Não é preciso falar aqui dos que se aposentam pelo INSS e têm a ousadia de viver muito. Claro que a solução seria os fundos privados de complementação de aposentadoria que a partir de 2006 convivem com o fantasma do Aerus da Varig, evidenciando a insegurança jurídica em que vivemos nesse país. Mas nos comícios do Dia do Trabalho não se fala nisso.

O Dia do Trabalho deveria ser de homenagem a todos os trabalhadores atuais, os do futuro e os do... passado!, mas não é assim. É apenas mais uma data que se usa para montar palanques de demagogia e reforçar planos de eleições e reeleições, nada mais.

Obsolescência Programada
Nas primeiras décadas do século passado, com o acesso massivo ao uso da eletricidade, os fabricantes de lâmpadas perceberam que a longa durabilidade de seus produtos não era exatamente um bom negócio. Decidiram então formar um cartel estabelecendo a vida útil máxima das lâmpadas para cerca de três mil horas. Com isso, pretendiam manter um ciclo ótimo de produção e substituição que, segundo eles, era também muito bom para os trabalhadores no sentido da regularidade do nível de emprego. Penso que este conceito é até mais forte hoje, do que na sua origem. Basta ver o que se tornou a sociedade de consumo através da produção em massa e da estonteante velocidade da tecnologia em tornar obsoletos os produtos, contando com um marketing dedicado a comandar a vontade do consumidor. Mas a vantagem nos dias atuais é que temos muito mais reciclagem.

Assim algo que se adquire hoje pode ter muito material descartado a poucos meses atrás. Ironicamente, percebemos que até as coisas – produtos industriais e matéria-prima – são tratados com mais critério do que gente de carne e ossos; os aposentados por exemplo. A reciclagem do ser trabalhador é bem menos abrangente do que a que se permite com produtos industriais. Pior ainda quando expira sua data de validade e, como uma tesoura velha, o trabalhador “não pega mais corte”, acabou-se. Nessa hora os palanques silenciam, as luzes se apagam e o circo da demagogia migra para outras datas no calendário que sirvam mais a seus projetos de poder eterno.

Foto: Nabibela
Não estou sendo amargo porque gosto. Mas não posso – não podemos na verdade – deixar passar em branco mais de sete anos de calote em cima de nós, ex-trabalhadores e aposentados da Varig. Porque tudo se transforma, a obsolescência está em todas as coisas. Mas no Brasil ela parece ter uma preferência especial pelos costumes políticos e as práticas da justiça. Enquanto os modos obsoletos de tratar a ética, a moral e os direitos individuais renderem mais dividendos aos poderosos, ninguém vai querer ouvir falar em reciclagem além de garrafas plásticas e latas de cerveja.

Título e Texto: José Carlos Bolognese, 30-4-2013

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